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Edição de 20-07-2022
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    Arquivo: Edição de 30-04-2005

    SECÇÃO: Crónicas


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    Continuar as mudanças é imperativo nacional

    O ano de 2005 vem candidatando-se a ficar na história política nacional, como o ano das grandes alterações no xadrez político. E as eleições legislativas de 20 de Fevereiro, como causa dos “terramotos” ocorridos no tecido partidário português. O quadro ficará mais atraente, e expressivo, se nas eleições autárquicas anunciadas para o próximo mês de Outubro os eleitores continuarem o processo iniciado, e desenvolvido, de remodelação da classe política sedentária, aquela que procura por todos os meios perpetuar-se no poder, contrariando o preceito constitucional que determina que «ninguém pode exercer a título vitalício qualquer cargo político de âmbito nacional, regional ou local», inventando os mais inverosímeis pretextos para impedir que seja aprovada uma outra disposição constitucional que admite que “a lei pode determinar limites à renovação sucessiva de mandatos dos titulares de cargos políticos executivos”.

    Como frequentemente acontece na construção da história, o que vem ocorrendo no ano de 2005 terá tido origem em eventos que lhe são anteriores. Enfatizando-se os mais marcantes, recorde-se o resultado pouco animador, para os partidos da “direita”, recolhido nas eleições para o parlamento europeu; a “fuga” de Durão Barroso para a União Europeia, aceitando um providencial convite, qual maná caído do céu, que o livrou das consequências do severo, mas justo, julgamento dos eleitores, relativamente às decisões tomadas enquanto primeiro-ministro; e a não menos estrondosa derrota da mesma “direita”, experimentada nas últimas eleições legislativas, estas realizadas já no decurso do ano corrente, embora consequência de acto produzido em finais de 2004. Reportamo-nos, como é óbvio, à decisão do Presidente da República de pôr fim ao circo em que se tornara o Governo urdido em consequência do abandono de Durão Barroso.

    Com efeito, os resultados saídos das “eleições gerais” de Fevereiro, revelaram um tão significativo desaire para o PSD que, pela primeira vez na história da democracia saída do 25 de Abril de 1974, o colocou na angustiante situação de ser dispensável para formação de maiorias de 2/3 na Assembleia da República, tornando-se, assim, carta fora do baralho para aprovação de determinadas leis fundamentais, desastre de que Durão Barroso inteligente e cautelarmente se livrou, oferecendo o altar do sacrifício ao seu “amigo” Santana Lopes que, inebriado pelas mordomias do poder, não percebeu atempadamente o que outros seus colegas de partido já tinham perspectivado e, logicamente, o tinham abandonado, a pontos de nem fotograficamente dele se quererem aproximar.

    Neste enquadramento político-partidário, os delegados ao XX Congresso do CDS/PP acabam de dar mais um sinal da mudança que os portugueses desejam introduzir na vida partidária nacional, provocando com o seu voto o afastamento do candidato, forjado por alguns dirigentes distritais, qual compagnon de route de Paulo Portas e de Santana Lopes, numa perceptível acção de “limpar” tudo e todos os que sujeitaram o País a um período de governação que, justa ou injustamente, envergonhou a esmagadora maioria dos cidadãos.

    OS ENTEADOS

    A remoção dos principais dirigentes, talvez com uma única excepção, a do PCP, é para todos os outros, consequência da vontade dos cidadãos, plasmada em resultados eleitorais: no Partido Socialista, as eleições autárquicas de 2001, que levaram à queda de António Guterres, substituído temporariamente por Ferro Rodrigues e, no PSD e no CDS/PP, as eleições legislativas de 2005, que provocaram o afastamento compulsivo dos seus respectivos presidentes.

    O comportamento dos eleitores tem sido de molde a suscitar a esperança de se admitir estar em curso uma importante alteração no seu modus operandi perante a classe política, mostrando-se finalmente atenta à qualidade e aos resultados do trabalho dos eleitos, remetendo para segundo plano as promessas eleitorais e outras anunciadas ao longo do, ou dos mandatos, escrutinando mais exigentemente o que fora prometido e o que fora realizado, não olvidando o que se afigure de má gestão dos dinheiros públicos, da parcialidade reinante no recrutamento de servidores da coisa pública, nos critérios adoptados no diferimento ou indeferimento de autorizações para tudo e para nada, e dos sinais exteriores de riqueza que alguns deles (ou seus familiares) evidenciam, não obstante os magros rendimentos que oficialmente lhes são abonados pelo tesouro público, circunstância que leva alguns comentadores a recomendarem a limitação de mandatos, também, como antídoto à presumida corrupção que reinará na administração pública.

    Se realmente estamos ou não perante um voltar de página do alheamento dos cidadãos perante as suas responsabilidades cívicas, a prova real poderá ser tirada quando forem contados os votos das próximas eleições autárquicas. Caso o que até agora aconteceu não passar de um mero acidente de percurso irrepetível, voltaremos com o nosso voto a permitir que os “dinossauros” do Poder Local se eternizem nas suas “cátedras”, olhando os cidadãos no dia seguinte com o mesmo desprezo com que os fitaram durante todo o tempo do seu reinado, excepção feita aos períodos das campanhas eleitorais, tempo em que atenções, beijos, cumprimentos, oferta de milhares de almoços ou jantares pagos com os dinheiros dos contribuintes e outras benesses abundam.

    O efeito das recentes ocorrências levam a admitir que o lobby dos autarcas (que tudo faz para impedir que a lei seja alterada no sentido de limitar o número de mandatos dos executivos políticos) será derrotado nas urnas das próximas “Autárquicas”, usando os eleitores a sua poderosa arma, o voto, para substituir quem tenha exercido durante três ou mais mandatos o cargo a que se candidata, dando o seu voto a quem se apresente como alternativa. Vale a pena ter presente que mais vale correr o risco de acertar ou não com uma nova escolha, do que a certeza de que, mantendo o sentido de voto anterior, tudo continuar sem sobressaltos. Nesta hipótese, poderemos ficar aparentemente felizes, mas o que jamais teremos razão é de nos queixarmos de que os políticos tratam os cidadãos, principalmente os “enteados”, com total desprezo, arrogância e sobranceria. E menos ainda, de usar a recorrente expressão: «São todos iguais. O que eles procuram é governar-se à nossa custa». A possibilidade de inverter o curso das coisas através do sentido de voto, faz com que não tenhamos o direito de exigir, e menos ainda de esperar que algo de diferente aconteça, se e quando teimarmos em votar nas mesmas pessoas ou nos mesmos partidos, quando a transparência, novas e melhores práticas gestionárias, eliminação de abusos de poder e o salutar princípio da alternância, aconselha a confiarmos o nosso voto a novos protagonistas.

    Por: A. Alvaro de Sousa

     

     

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