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    Arquivo: Edição de 31-10-2023

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    GENTE DA NOSSA TERRA

    Um ermesindense com cem anos: Coronel Joaquim Rebelo

    Joaquim Moreira Rebelo nasceu em Ermesinde no dia 30 de outubro de 1923, completou ontem cem anos. Frequentou o ensino primário na terra onde nasceu, bem como o ensino secundário, no Colégio de Ermesinde, até ao 6.º ano de então. Embora viva no Porto, em casa de uma filha, vem todos os anos passar quatro meses em Ermesinde. Seguiu a carreira militar, repleta de condecorações e louvores e é dono de uma extraordinária memória e lucidez. “A Voz de Ermesinde” foi conversar com ele.

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    Homem alto e bem constituído, com semblante típico de um militar, acolheu-nos com simpatia e falou sem papas na língua, de si, da família, da formação, da terra que o viu nascer e crescer, da profissão e de muitas histórias vivenciadas como militar, em Portugal e nas suas ex-colónias, sobretudo Angola e Moçambique.

    Nasceu ali perto da Capela do Sr. dos Aflitos (atual Rua Simões Lopes), a caminho de S. Paio. Foi o primeiro de dez irmãos, filho de Manuel Gonçalves Rebelo e de Angelina de Jesus Moreira de Sá. «Nós éramos 10, 9 rapazes e uma rapariga; houve também outra rapariga, mas morreu bebé. Já a família do meu pai, que era de Lousado (Famalicão) era igualmente numerosa, mas ao contrário, isto é, eram 9 raparigas e só 2 rapazes».

    Os pais eram lavradores e Joaquim preferiu estudar, mas também gostava do campo e sabia fazer tudo na terra, sempre que vinha visitar a família «ajudava no que fosse preciso; não me custava nada fazer fosse o que fosse; quando era pequeno ia com o gado (vacas, bois e ovelhas) para o campo do Souto e para outras terras que tínhamos. Uma das coisas que mais me custava era tocar os bois, à volta do engenho, porque era demasiado tempo, mas alguém tinha de o fazer».

    Alguns irmãos também estudaram, um foi padre, outro foi engenheiro, outro professor primário. Outros preferiram ficar com a terra. Um deles, o engenheiro António Germano de Sá Rebelo até foi vereador da Câmara Municipal de Valongo, no tempo das presidências do engenheiro Armando Acácio Sousa Magalhães e do Dr. João Alves do Vale. «Eu nunca fui político – disse – um militar não tem partido político! O meu único envolvimento na política deu-se quando, a pedido do Dr. Fernando Melo que conheci no tempo em que foi Governador Civil do Porto, fui presidente da Comissão de Honra da sua candidatura à Câmara Municipal de Valongo».

    Joaquim Moreira Rebelo frequentou a escola primária masculina no dispensário do Passal, tendo feito o exame da 4.ª classe na Escola Primária de Valongo, e, mais tarde, estudou no Colégio de Ermesinde, até ao 6.º ano dos Liceus, no 7.º ano frequentou o Liceu Alexandre Herculano. Depois, entrou na Academia do Exército, esteve em Engenharia mas acabaria por fazer o Curso de Estado Maior, em Caxias, ao longo de 6 anos, 3 de aprendizagem curricular e 3 de estágio.

    Casou na Igreja da Santa Rita em 1951 e teve quatro filhos (Nuno, Margarida, Pedro e Ana). Relativamente à Guerra do Ultramar, sem se querer manifestar no aspeto político, que o ultrapassa, diz que o exército cumpriu a sua missão, e não saiu derrotado, o fim da guerra foi obviamente uma decisão política.

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    Esteve no norte de Angola, logo no início da Guerra, já como Major, concretamente entre junho de 1961 e setembro de 1963, tendo sido condecorado com a Medalha Comemorativa das Forças Armadas Portuguesas de Angola (25-5-1963) e Medalha de Prata dos Serviços Distintos com Palma (1-11-1963). Foi também louvado pelo Ministro do Exército, pela «extraordinária dedicação, elevada competência, inexcedível lealdade e notável bom senso com que exerceu as funções de chefe de Repartição do Quartel General da Região Militar de Angola».

    Na parte final da Guerra esteve em Moçambique, entre 1 de fevereiro de 1971 e 15 de fevereiro de 1973, já como Coronel. E voltou a ser condecorado, desta vez, com a Medalha Comemorativa das Campanhas das Forças Armadas em Moçambique (23-1-1973) e Medalha de Prata da Classe de Comportamento Militar Exemplar (26-1-1974). Também foi louvado pelo Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas da República Portuguesa, pela forma «altamente eficiente como cumpriu a sua comissão de serviço na Região Militar de Moçambique (…) desenvolveu uma actividade árdua em que teve de pôr à prova o seu espírito de sacrifício e capacidade de organização (…) deslocou-se frequentemente às unidade de todo o teatro de operações, para “in loco” melhor se inteirar das suas necessidades mais prementes (…). O Coronel do C.E.M. Moreira Rebelo confirmou na R.M.M. a sua elevada craveira de oficial».

    Privou de perto com vários generais, nomeadamente, Kaúlza de Arriaga, Silvino Silvério Marques e Salazar Braga, que dos 40 militares do seu curso é o único que, com ele, ainda está vivo.

    Desafiado a falar de Ermesinde do seu tempo de jovem, em contraponto com o de hoje, disse, “sem papas na língua”, que, nos dias de hoje, «Ermesinde, em comparação com a terra do meu tempo, é uma “caca”! Naquele tempo havia só três fábricas, a Resineira, a da Telha e a de Têxteis, de Sá. Havia muitos terrenos, muito menos casas, o rio era limpo e era uma maravilha. Centenas e centenas de portuenses vinham para aqui respirar os bons ares!».

    Falou-nos, ainda, do que se cultivava na terra: milho, batata, linho, vinha de que resultavam os frutos que os lavradores vendiam em grandes quantidades; contou como se fazia a distribuição da água do Leça e do Balsinha pelas propriedades ribeirinhas para regar as searas.

    Mesmo após as grandes mudanças das últimas décadas que descaracterizaram a sua terra não vive sem cá passar quatro meses por ano: de junho a setembro, na sua Quinta da Bela. A Voz de Ermesinde agradece a oportunidade de conhecer melhor esta ilustre personalidade ermesindense, dá-lhe os parabéns pelo seu centenário deseja-lhe saúde, felicidades e que se mantenha assim ainda por muitos anos!

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    RETRATO BIOGRÁFICO DE JOAQUIM MOREIRA REBELO

    Joaquim Moreira Rebelo nasceu em Ermesinde no dia 30 de outubro de 1923.

    Depois de frequentar o ensino primário e secundário em Ermesinde e Porto entrou na carreira militar, onde se manteve até aos 70 anos, revelando-se um excelente profissional, atingindo o Posto de Oficial Superior, como Coronel.

    Foi colocado em diversos serviços militares de Lisboa e Porto (terminou no D.R.M. desta última cidade, onde esteve entre 1-9-1975 e 1-1-1992), passando por Mafra, Caxias, Algés, Tomar, Angola e Moçambique. Em todos os serviços revelou elevadas qualidades como se comprova pelos 23 louvores que constam no seu ficheiro pessoal e nas 14 condecorações que lhe foram concedidas, entre as quais duas medalhas de ouro, de Comportamento Exemplar (1978) e Serviços Distintos (1984), a de Grande Oficial da Ordem Militar de Avis (1985) e a Medalha de D. Afonso Henriques (1992).

    Texto: Manuel Augusto Dias

    Fotos: Luís Dias

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