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    Arquivo: Edição de 28-02-2023

    SECÇÃO: Destaque


    DIA INTERNACIONAL DA MULHER – ENTREVISTA COM MARIA EDUARDA FERREIRA

    A mulher na vida política: o testemunho de uma pioneira a nível concelhio

    O Dia Internacional da Mulher, convida-nos neste número a abordar o papel, ou a representação, das mulheres no mundo da política. Ou melhor, a recordar o início do trajeto da mulher num meio que há quase 50 anos atrás era dominado maioritariamente pelo sexo masculino, e que ainda hoje é um pouco assim. Porém, no presente, vemos ministras, deputadas, ou autarcas sem abrir a boca de espanto. Mas há 50 ou 40 anos seria assim? É isso que vamos procurar perceber nesta entrevista com uma mulher que figura na história política do concelho de Valongo. Maria Eduarda Ferreira, o seu nome, ligada ao Partido Comunista Português (PCP) e cuja ação política teve uma influência enorme no concelho em diversas áreas como a cultura ou o ambiente, por exemplo, ao ser uma voz ativa e decisiva na concretização de inúmeros projetos. Foi igualmente uma das primeiras mulheres a envolver-se nos meandros da política concelhia nos anos seguintes ao 25 de Abril de 1974, e tornou-se pioneira no facto de ter sido a primeira mulher em todo o concelho de Valongo a ser eleita para um executivo, primeiro a nível de Junta de Freguesia (de Ermesinde) e posteriormente a nível de Câmara. Foi igualmente a primeira mulher a encabeçar uma candidatura à liderança da Câmara Municipal de Valongo. Tudo isto é recordado nesta entrevista realizada no Centro de Trabalho do PCP, em Ermesinde.

    Fotos MANUEL VALDREZ
    Fotos MANUEL VALDREZ
    A Voz de Ermesinde (AVE): A senhora foi das primeiras mulheres a nível concelhio a exercer funções autárquicas nos anos que se seguiram ao 25 de Abril de 1974. Lembra-se desses primeiros passos?

    Maria Eduarda Ferreira (MEF): Foi uma coisa interessante, porque a pessoa que me abordou a mim e ao meu marido na altura, foi alguém que hoje já nem é militante do partido (PCP), e que era nosso vizinho, e que foi o senhor Manuel comunista, como era aqui conhecido. Isto por volta de 1976. Achei interessante (essa abordagem) e não sei como mas na altura apareceu-me logo gente ligada à Junta de Freguesia de Ermesinde (JFE) a convidar-me para eu ir para lá. Ainda hoje não sabemos que informações as pessoas tinham a nosso respeito para saberem que éramos suficientemente credíveis para ir pelo PCP. Não sei porque chegaram até nós, sinceramente. Mas fui (para a Junta) e comecei logo a trabalhar, a envolver-me em assuntos locais. Eu nem tinha atividade (política) nem era militante do PCP na altura, só no início da década de 80 é que me tornei militante. A única coisa que me lembro é que no tempo da faculdade eu sempre intervim, participei nas greves de 69, sempre participei em manifestações, e nunca tive problemas em fazê-lo. Porque também em casa sempre me deram muita abertura para isso.

    AVE: Falava-se de política em casa dos seus pais?

    MEF: Muito. Lá em casa sempre ouvimos falar dessas coisas. Sempre se falou de política. Nós também morávamos ao pé da Marinha Grande, e vivíamos num meio fabril, em que desde miúda sempre ouvi falar de greves, ou de gente que era presa porque havia greves. O meu pai era engenheiro e dirigente numa fábrica de cimentos de Pataias, a Cibra, e quando a PIDE ia à procura de trabalhadores da fábrica o meu pai avisava esses trabalhadores para irem embora, ajudava-os a fugir. Lembro-me de em miúda ouvir estas conversas, e às vezes nem percebia muito bem o que significavam, mas com os anos vamos crescendo e percebendo. O meu pai não era militante de nada mas era uma pessoa muito ativa na defesa dos trabalhadores, das pessoas que trabalhavam com ele, e também nunca teve um patrão que se opusesse às ideia dele. O patrão, o comendador Matias, era um homem do regime, mas que não permitia que ninguém entrasse na fábrica dele sem que ele desse autorização, e nem a PIDE entrava! Mas voltando atrás, eu e o meu irmão (dois anos mais novo) sempre tivemos uma educação muito aberta, e desde sempre me habituei a contactar com muita gente com ideias diferentes.

    AVE: O que a é que a seduziu na política?

    MEF: Eu nunca pensei nisso em termos de sedução, não foi do tipo dizer “deixa-me ir para a Junta porque vou fazer coisas importantes nesta e naquela área”. Não foi nada assim. Convidaram-me para eu ir para lá, fui, e conforme as “coisas” iam surgindo eu ia realizando-as. Sempre comecei por ver o que era preciso fazer nesta terra, se era preciso fazer “isto ou aquilo”. Depois, propunha soluções, discutíamos ideias, e vamos fazer e trabalhar todos. Aliás, uma coisa que eu sempre tive foi que trabalhei com toda a gente de todos os partidos. Eu falava bem com todos e propunha coisas que eles aceitavam.

    AVE: A senhora em 1980 passou a integrar o executivo da JFE, sendo a primeira mulher a fazer parte deste órgão. Foi a primeira mulher a nível concelhio a fazer parte de um executivo, quer seja da Junta, ou da Câmara, como, aliás, viria a ser mais tarde…

    MEF: Sim, mas nunca me deixei impressionar por isso. Primeiro, porque não tinha a noção de que era a primeira mulher a ser eleita para um executivo em todo o concelho, e em segundo porque acho, e na altura também já achava, normal as pessoas serem eleitas, mulheres e homens. Mas hoje percebo o porquê de as pessoas ficarem muito espantadas na época, porque as mulheres tinham de fazer as refeições, tratar dos filhos, trabalhar, e eu sempre fiz isso tudo também, mas tinha tempo para todos os papéis que desempenhava, ou seja, organizava-me.

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    AVE: Como é que foi vista na época a sua ascensão na hierarquia autárquica local, quer pelos seus pares políticos, quer pela população?

    MEF: No nosso partido, de uma maneira geral, foi bem aceite. Embora houvesse um ou outro, como em todos os sítios, que por eu ser mulher não viu isso com bons olhos. No PCP também havia dessas coisas. Por ser mulher, perguntavam-se: “o que é que ela sabe? Se calhar não tem mão para isto, ou não tem força”. É o machismo normal. Que ainda existe em todo o lado. Mas nunca liguei muito a isso. Conheço um caso que votou em mim só porque eu era do PCP. Mas da população nunca ouvi nenhuma boca. Aliás, sempre fui muito respeitada em todo o lado. Mesmo de eleitos de outros partidos sempre me respeitaram, nunca me senti olhada de lado.

    AVE: - Recorda-se de outras senhoras a nível local que se interessavam e envolviam no meio político, ou sentia-se um pouco sozinha num mundo que era ainda muito masculino?

    MEF: Eleitas (a nível de executivo) não havia mais nenhuma. Mas nunca me senti muito isolada nem sozinha por ser a única mulher ou por serem mais homens neste meio da política. Porquê? Eu trabalhava num meio onde as mulheres eram preponderantes, que era o ensino de História, pois na altura havia poucos homens a formarem-se em História. Por outro lado, sempre achei normal que nós as mulheres vivêssemos naquele meio da política onde havia homens. As mulheres têm o mesmo caminho que o homem. Mulheres e homens têm de ser paralelos, caminhar lado a lado. E eu sempre fui eleita com muitos homens, não me lembro de nem na Junta nem na Câmara de Valongo ter sido eleita com mais mulheres, pelo menos em lugares elegíveis.

    AVE: A nível nacional já havia muita envolvência feminina na política no pós-25 de Abril. Havia alguma figura que lhe despertava admiração?

    MEF: Nunca segui ninguém por ser mulher ou por ser homem. Sigo pelas ideias, por aquilo que fazem e por aquilo que demonstram ser. Ainda hoje sou assim. Às vezes seguimos mais os homens porque há mais homens que se metem nos assuntos, que participam mais, ao passo que a mulher por uma questão de educação e por ter outras coisas que tem para fazer, como tomar conta dos filhos, da casa, de trabalhar, não desperta tanta atenção. Mas respondendo à questão devo dizer que gostava de ver a Maria de Lurdes Pintassilgo, que foi, digamos, uma referência. Também gostava muito da Ilda Figueiredo, que embora fosse minha contemporânea, pois fomos eleitas ao mesmo tempo, era e é uma pessoa que eu admiro muito, porque aprendi muito com ela. Fomos vereadoras de câmara na mesma altura, ela em Gaia e eu em Valongo e reuníamos muito, todos os meses, no Porto (no centro distrital do partido), e como ela ainda era na época deputada tinha sempre muitas ideias.

    AVE: Esteve dois mandatos consecutivos na Junta de Ermesinde, lembra-se quais foram as lutas que então travou em prol da freguesia que mais a marcaram?

    MEF: Devo dizer que o facto de trabalhar aqui em Ermesinde ajudou-me nas minhas funções autárquicas, pois conhecia melhor o ambiente, conhecia melhor os sítios de onde os alunos vinham, não só o local físico mas também o ambiente que rodeava cada local e isso ajudou-me a conhecer não só os problemas, mas também os anseios das pessoas, aquilo que elas pretendiam. E isso deu-me espaço para caminhar, para ir descobrindo coisas e tentando fazer o melhor possível para o futuro das pessoas. Mas na altura lembro-me que o que aqui mais se reivindicava era Ermesinde a cidade. Na verdade nunca achei isso preponderante. Porquê? Essa elevação não era preponderante para o desenvolvimento e o bem-estar das pessoas, porque temos de lutar pelo bem-estar das pessoas independentemente de estarmos numa aldeia, vila ou cidade. Mas o meu partido tinha mais ao menos uma posição de respeito por essa vontade popular. Eu respeitava essa vontade popular, mas nunca fui ponta de lança para Ermesinde a cidade.

    AVE: Da Junta “saltou” para a Câmara de Valongo, ocupando a cadeira da vereação nas presidências de Moreira Dias e de Fernando Melo, ao longo de três mandatos consecutivos. Foram-lhe atribuídos pelouros importantes (Ambiente, Cultura, Património), e ainda hoje é reconhecida como tendo tido uma ação importante na resolução de muitos problemas do concelho...

    MEF: Há uma coisa que quero dizer. Eu nunca pedi nenhum pelouro, foi sempre o meu partido que negociou politicamente isso, nunca me meti em nada disso, que isto fique claro que é para as pessoas não pensarem que eu pedi para ser vereadora disto e daquilo. Não. Eu ia para onde o partido me dizia para ir, e nunca fiz parte dessas negociações políticas. Relativamente ao pelouro do ambiente na altura chamava-se Higiene e Limpeza, pois nem se falava em ambiente. Devo dizer que aprendi muito nesta área da Higiene e Limpeza com o Oliveira Dias, que tinha o mesmo pelouro na Câmara do Porto. Ele sabia muito sobre este tema, tinha muita experiência, e foi com ele que aprendi quase tudo nesta área, porque na altura como havia muitos vereadores do PCP nas câmaras tínhamos reuniões quinzenais no centro distrital do partido no Porto, e trocávamos muitas ideias/experiências.

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    AVE: Mas em termos de lutas concretas que travou nesta área…

    MEF: A recolha de lixo. Fiz toda a reestruturação interna deste setor, porque não havia nada na altura. Por exemplo, os trabalhadores não tinham um cilindro de água quente para se lavarem ao fim do dia. Lembro-me que por minha iniciativa se compraram camiões da recolha de lixo, implementei a recolha diária de lixo, fiz a organização das rotas, etc. Mas outra coisa importante que foi feita por mim, foi reconhecer a importância desses trabalhadores não só dentro da câmara, mas também para a população, porque até ali eles eram simplesmente os lixeiros! Não. Eles eram funcionários da câmara, trabalhadores da limpeza, com direitos e deveres como todos os outros trabalhadores. Isso para mim foi uma coisa fundamental de ser feita. Lembro-me que também tive o pelouro das feiras e mercados, onde eu também criei os regulamentos, porque até então também não havia nada! Eu cheguei a ter quatro pelouros em simultâneo!

    AVE: A cultura também lhe deve muito. Diz-se que se hoje todas as freguesias do concelho têm um centro cultural a si o devem…

    MEF: Dizem que sim. Mas há outra coisa que as pessoas não sabem, de pequenos pormenores, mas que determinam a vida das pessoas. Por exemplo, o Parque Urbano de Ermesinde não fui eu que fiz, mas o facto de o parque hoje existir deve-se muito à minha posição, porque lembro-me que tive um grande peso na compra daquele terreno da fábrica da cerâmica (onde hoje está instalado o parque e o fórum cultural) por parte da câmara. Não estive ligada diretamente à construção do parque e do fórum, porque já tinha saído da câmara, mas as bases da construção desses equipamentos/infraestruturas fui eu que as lancei. A Vila Beatriz também foi por mim recuperada. Votei favoravelmente a compra da Vila Beatriz, pois estava ali um mono e ninguém se servia daquilo. Fiz o plano da recuperação e o desenvolvimento cultural daquele espaço. O Magic Valongo também fui eu que o implantei no concelho. Aliás, sobre isto cheguei a ter uma guerra, entre aspas, com a Manuela Melo, vereadora da cultura da Câmara do Porto, que queria levar o evento para lá. Ela chegou a falar com as pessoas que estavam à frente do Magic e que tinham falado comigo, mas eu consegui que eles fizessem aqui o evento.

    AVE: O facto de ser mulher ajuda-a no meio de um executivo composto por homens a ser ouvida com mais atenção?

    MEF: Era ouvida talvez com mais educação, não com tanta atenção porque as ideias eram do PCP (risos). Aquilo que eu tinha de ter em atenção era a forma como eu apresentava as ideias que eu queria que fossem aprovadas. Era a forma como as introduzia e como as fazia sentir em cada pessoa. Nós não podíamos chegar lá e dizer: as minhas ideias são as melhores, eu é que tenho a razão. Não é assim. Porque também tenho de partir do princípio que os outros também têm ideias.

    AVE: Acha que o facto de ser a primeira mulher a assumir uma candidatura autárquica à Câmara desencadeou que outras mulheres pudessem fazer o mesmo posteriormente?

    MEF: Dá-me ideia que as outras mulheres que apareceram mais tarde foi mais porque como apareceu uma no PCP também tinha de haver outras noutros partidos (risos). Mas lembro-me que fui sempre eleita nas vezes que me candidatei, e até subi as votações, nunca perdi votos.

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    AVE: Que legado/contributos acha que deixou ao concelho e ao mesmo tempo pergunto-lhe o que gostava de ter concretizado e não fez?

    MEF: Eu acho que o legado principal foi ser uma mulher eleita, porque antes de mim não havia mulheres eleitas, e depois de eu o ser parece que se tornou mais um hábito. Não por minha causa, pela minha pessoa, mas porque viram que as mulheres também tinham votos e também eram capazes de fazer. Isso foi fundamental, ou seja, o trazer para a política concelhia mais mulheres que não fosse eu, e acho que por eu ser a primeira acabou por ser importante. O que me faltou fazer? Gostava de ter estado mais tempo para concretizar ideias na área do ambiente. Eu só comecei. E comecei porque na altura não havia nada, nem se falava em ambiente.

    AVE: O que lhe deu mais satisfação pessoal na vida política e o que mais a desapontou?

    MEF: O que mais gostei foi ao ser eleita fazer coisas que eram oportunas de se fazer a partir de sugestões que me faziam ou que eu observava e que eram boas para a comunidade. A satisfação de realizar coisas. Gostei muito de estar na cultura, mas gostei mais do ambiente, porque eu criei coisas novas aqui para o concelho, que na altura não havia nada. Em relação ao que mais me desapontou… não sou muito de tristezas, mas o facto de às vezes ver que pessoas que têm o poder e não o exercem da melhor maneira. Ou seja, ver que o objetivo era um e essas pessoas não conseguiam lá chegar porque se perdiam pelo caminho, ou seja, surgiam outras ideias e eles desviavam-se do caminho inicial.

    AVE: - Foi e é também esposa e mãe, foi professora, e nesse sentido pergunto-lhe como conciliou os papéis de figura política com o papel familiar e profissional?

    MEF: Como profissional do ensino foi fácil. Durante muitos anos fui professora e fui orientadora de estágios de professores, que era o que eu mais adorava fazer. Como mãe acho que fui sempre uma boa mãe, mas às vezes acho que devia ter feito mais do que fiz. Acho que podia ter estado mais tempo com a minha filha, embora ela diga que não, que eu sempre estive presente quando foi preciso, Mas acho que se calhar hoje acompanho mais os meus netos. Pronto, é uma presença diferente, mas eu também era uma pessoa muito ocupada na altura. Mas eu também tive a sorte da minha filha ser uma boa aluna, bem comportada, os professoras gostavam muito dela.

    Mas devo dizer que nunca descurei a educação da minha filha, isso foi sempre uma coisa que para mim era fundamental. Mas também tinha o meu marido que me ajudava.

    AVE: Já agora, porque se afastou da política?

    (...)

    leia esta entrevista na íntegra na edição impressa.

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    Por: Miguel Barros

     

     

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