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Edição de 30-11-2022
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    Arquivo: Edição de 31-10-2022

    SECÇÃO: Destaque


    Cientista ermesindense João Carlos Teixeira partilha testemunho sobre o seu trabalho ao lado do Prémio Nobel da Medicina Svante Pääbo

    Svante Pääbo é o vencedor do Prémio Nobel da Medicina 2022, um galardão que o biólogo e cientista sueco recebeu no início deste mês de outubro «pelas suas descobertas sobre os genomas de hominíneos extintos e a evolução humana», conforme anunciou então o comité do Nobel no Instituto Karolinska, em Estocolmo (Suécia). Bom, mas o que tem a cidade de Ermesinde a ver diretamente com o mais recente Nobel da Medicina especializado em genética evolucionária, perguntar-se-ão os nossos leitores. É muito simples. O investigador e cientista ermesindense João Carlos Teixeira trabalhou ao lado de Svante Pääbo durante cinco anos, e nesse sentido foi por nós contactado para nos dar um testemunho desse contacto direto com o mais recente Prémio Nobel da Medicina. Convite esse amavelmente aceite pelo investigador e cientista oriundo da nossa cidade, e o qual desde já muito agradecemos, e que é publicado na integra, e na primeira pessoa nas linhas que se seguem.

    João Carlos Teixeira, quando em 2011 quando se mudou para Leipzig
    João Carlos Teixeira, quando em 2011 quando se mudou para Leipzig
    O PRÉMIO NOBEL MAIS ESPECIAL

    O conhecimento científico resulta de um esforço coletivo que se perpetua no tempo e atravessa diferentes lugares e pessoas, sendo construído sobre as bases conceptuais daqueles que vieram antes de nós. “Se vi mais longe, foi porque estava aos ombros de gigantes”, parafraseando Isaac Newton, físico inglês dos séculos XVII e XVIII. Por inerência, os prémios científicos individuais, nomeadamente aqueles com maior impacto mediático, raramente refletem todo o esforço, criatividade e dedicação das equipas científicas coordenadas por quem é distinguido. É quase sempre assim. No entanto, o Prémio Nobel da Medicina ou Fisiologia de 2022, atribuído ao meu orientador de doutoramento, o biólogo sueco Svante Pääbo, fundador de uma área científica conhecida como ADN antigo, é uma das potenciais e raras exceções.

    Corria o ano de 2010 quando notícias vindas da Alemanha davam conta de que um grupo de investigação do Departamento de Genética Evolutiva do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, em Leipzig, na Alemanha, liderado por Svante Pääbo, tinha sequenciado o genoma completo do Homem de Neandertal, uma ‘espécie’ humana extinta há pelo menos 40.000 anos. Este incrível feito fora conseguido a partir da extração de ADN de fragmentos fósseis (!), e vinha demonstrar que os Neandertais tinham contribuído com cerca de 2% da ancestralidade genética de todas as populações humanas que atualmente vivem fora de África, revolucionando por completo o nosso entendimento sobre as origens da espécie humana.

    Por esta altura, encontrava-me a trabalhar na minha tese de Mestrado em Genética Forense na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, a estudar a história genética de populações sefarditas do nordeste de Portugal. A publicação do artigo de Svante e colaboradores encorajou-me a candidatar ao Programa Doutoral Leipzig School of Human Origins e tentar o que me parecia ser um sonho impossível: trabalhar com esta equipa de reputação mundial. Escrevi diretamente a Aida Andrés, que então liderava o grupo de investigação em Genética de Populações no departamento do Svante, e recebi um convite para uma entrevista presencial!

    Foi com um friozinho na barriga que segui viagem até Leipzig. À chegada, deparei-me com um edifício ultramoderno, onde sobressaíam escadas panorâmicas, vitrinas com exposições sobre evolução humana, uma acolhedora biblioteca, uma sauna (!) e uma grande parede de escalada. No meio do edifício, um lago artificial e uma esplanada ao ar livre. Uau! Deram-me uma pasta com vários documentos, incluindo duas folhas com os detalhes da minha visita: uma apresentação oral e discussão do meu trabalho (30 + 30 min), seguidos de blocos de 30 minutos de conversa com mais de 20 membros do departamento, num total de dois dias de entrevista! Felizmente, a mesma correu bastante bem e fui aceite no programa doutoral, onde estive entre setembro de 2011 e maio de 2016, a estudar variantes genéticas com milhões de anos partilhadas entre humanos, chimpanzés, gorilas ou orangotangos, sob a orientação de Aida Andrés e Svante Pääbo.

    Svante Pääbo, o Prémio Nobel da Medicina 2022
    Svante Pääbo, o Prémio Nobel da Medicina 2022
    No Departamento de Genética Evolutiva os investigadores distribuem-se por diferentes grupos, mas passam muitas horas juntos em seminários, journal clubs, reuniões de departamento, para além de convívios, jantares e outros momentos de partilha. No fundo, trata-se de um único grupo de investigação que se ramifica em várias áreas de especialização. O trabalho é altamente exigente e obriga-nos a estar sempre no nosso melhor. Recordo-me em especial das reuniões semanais que duravam muitas vezes mais do que três horas, onde apresentávamos o nosso trabalho que era discutido até ao mais ínfimo pormenor. Cada grupo tinha a sua própria reunião e estas não terminavam sem que os resultados estivessem claros para todos os presentes. As reuniões do grupo de ADN antigo, liderado por Svante, tinha lugar às sextas a seguir ao almoço, e muitas vezes só terminavam quase à hora de jantar! Eram também frequentes as visitas de nomes internacionalmente reconhecidos na área da evolução humana, o que gerava sempre muita discussão científica que beneficiava aqueles que, como eu, se tinham mudado para Leipzig para aprender com os melhores.

    Recordo-me bem de algumas situações mais tensas, durante as apresentações, quando os resultados não eram o esperado, ou existia alguma dúvida sobre os detalhes metodológicos. Embora quase sempre amigável, o Svante por vezes ficava frustrado se quem estivesse a apresentar não fosse capaz de detalhar exatamente quais os procedimentos. Para evitar isso, definíamos algumas estratégias: lembro-me, por exemplo, que era fundamental começarmos por definir as coordenadas cartesianas (isto é, os eixos dos x e y) sempre que apresentávamos um gráfico. Se não o fizéssemos, Svante interrompia e dizia “Podes explicar-me para o que estou a olhar?”. A verdade é que, embora simples e básica, essa é uma regra de ouro que uso hoje com os meus alunos, e também nas minhas próprias apresentações. Outro aspeto do qual me recordo bastante bem era a preocupação obsessiva do Svante com possíveis erros experimentais, em particular a contaminação das amostras, que constitui o principal problema do ADN antigo.

    O cientista ermesindense João Carlos Teixeira a defender a sua tese de doutoramento em Leipzig onde trabalhou sob a orientação de Aida Andrés e Svante Pääbo
    O cientista ermesindense João Carlos Teixeira a defender a sua tese de doutoramento em Leipzig onde trabalhou sob a orientação de Aida Andrés e Svante Pääbo
    Mas a exigência científica que resulta de trabalharmos num lugar de topo, confundia-se com um ambiente de genuína partilha e amizade, muito fruto da personalidade do próprio Svante, que tem uma visão de trabalho democrática e horizontal, onde todos contribuem e se sentem parte do sucesso da equipa. Lembro-me dos torneios de futebol, dos muitos jogos de matraquilhos, das saunas em pleno inverno, ou das várias tradições do departamento, como atirar um colega recém-doutorado ao lago após a defesa da tese, independentemente da temperatura da água (muitas vezes gelada!). (O Svante foi também atirado ao lago pelos meus colegas assim que saíram as notícias sobre o Prémio Nobel!) Mas também me recordo das vezes em que o Svante se juntava aos alunos para almoçar ou jantar, participando animadamente em qualquer conversa que estivesse a ocorrer. Essa simplicidade foi algo que me marcou profundamente, e que me deixou sempre à vontade na sua presença. Por exemplo, lembro-me de um episódio engraçado, já estava eu na Austrália, mas de visita a Portugal, vi-o na RTP2 a dar uma entrevista. Tirei uma fotografia à televisão e enviei-lhe um email a dizer “Até que enfim que atingiste o topo!”, ao que ele respondeu com boa disposição e dizendo “Espero que tenha ficado bem!”. Essa postura de simplicidade que o Svante mantém com o seu grupo de trabalho é tão marcante quanto a sua capacidade científica.

    Svante Pääbo no Max Planck Institute for Evolutionary Anthropology, em Leipzig, durante a apresentação da tese de doutoramento de João Carlos Teixeira
    Svante Pääbo no Max Planck Institute for Evolutionary Anthropology, em Leipzig, durante a apresentação da tese de doutoramento de João Carlos Teixeira
    Por tudo isto (e muito mais!), este Prémio Nobel da Medicina, o primeiro atribuído a toda a área da Evolução, é mais do que merecido. No passado, foram várias as conversas com colegas sobre se algum dia Svante iria ser galardoado com o Nobel tendo em conta que, infelizmente, não existe um equivalente ‘Prémio Nobel da Biologia’.Seria Química ou Medicina? A verdade é que, através da sua irreverência, exigência e criatividade, Svante Pääbo criou toda uma nova área de investigação que até aí pertencia ao domínio da ficção científica (quem não se lembra do famoso Jurassic Park de Steven Spielberg?). Esta contribuição reescreveu a nossa história e continuará a possibilitar um conhecimento cada vez maior sobre as nossas origens. Mas o ADN antigo tem hoje também outras aplicações, permitindo-nos perceber quais os processos que levaram à extinção de espécies, quais os impactos genéticos das alterações climáticas, ou como evoluíram diferentes doenças em populações humanas do passado.

    Ao Svante, resta-me dizer com orgulho “Obrigado pelo privilégio de ter sido teu aluno. Vemo-nos em dezembro para festejarmos em conjunto!”.

    João Carlos Teixeira

    JOÃO CARLOS TEIXEIRA
    JOÃO CARLOS TEIXEIRA

    BIOGRAFIA DE JOÃO CARLOS TEIXEIRA

    João Carlos Teixeira é um cientista português especialista em Genética e Evolução da espécie humana. Nascido na freguesia de Santo Ildefonso, no Porto, mas com fortes raízes na cidade de Ermesinde, onde cresceu e viveu até aos 24 anos de idade, tendo sido aluno dos Externatos Santa Joana e Maria Droste, bem como da Escola Secundária de Ermesinde. Completou a Licenciatura em Biologia (2009) e o Mestrado em Genética Forense (2011) na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. Obteve o Doutoramento em Genética Evolutiva Humana em 2016 no prestigiado Max Planck Institute for Evolutionary Anthropology, em Leipzig, onde trabalhou sob a orientação de Aida Andrés e Svante Pääbo. Após um ano como cientista pós-doutorado no Institut Pasteur, em Paris, mudou-se em 2018 para a Universidade de Adelaide e em 2022 para a Universidade Nacional da Austrália, onde reside atualmente.

     

     

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