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Edição de 30-09-2020
Jornal Online

SECÇÃO: Destaque


O ARRANQUE DO ANO LETIVO 2020-2021 - ENTREVISTA COM MÁRIO NEVES, PROFESSOR NA ESCOLA EB 2,3 D. ANTÓNIO FERREIRA GOMES

«Se todos nós ajudarmos o ano letivo vai correr bem»

O ano letivo de 2020-2021 vai seguramente deixar marcas para toda a comunidade escolar devido a todos os condicionalismos a que estamos sujeitos pela pandemia que por estes dias nos assola. No arranque do novo ano escolar quisemos perceber como é que os membros da nossa comunidade escolar viveram, ou estão a viver, estes primeiros dias de um ano atípico. Nesse sentido estivemos à conversa com o professor Mário Neves, docente que há 25 anos leciona as disciplinas de Educação Tecnológica e Educação Visual na Escola D. António Ferreira Gomes.

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A Voz de Ermesinde (AVE): Teve início na segunda quinzena de setembro um ano letivo atípico e sem precedentes na memória de todos nós, um novo ano cheio de incertezas, receios, ansiedade, devido ao chamado “novo normal” em que todos nós vivemos devido à Covid-19. Perguntamos-lhe, enquanto membro dessa mesma comunidade, na pele de professor, como viu e como viveu este regresso da escola (presencial) por parte de alunos, professores, funcionários, pais (?).

Mário Neves (MN): Efetivamente e como disse estamos perante um ano atípico na nossa história, não só na história portuguesa como na história mundial. E portanto, o reflexo desse ano atípico no início deste ano letivo não podia deixar de se refletir na tal incerteza, na insegurança, quer por parte dos encarregados de educação, essencialmente, mas também por parte daqueles que dentro da escola, no dia-a-dia, dão o corpo à escola, como é o caso dos professores, dos funcionários e dos alunos. De qualquer forma, as aulas iniciaram-se no dia 17 (de setembro), e posso dizer que nestes poucos dias de trabalho tem-se notado apesar de tudo bastante confiança, tem-se notado por parte dos alunos uma calma, ainda que seja aparente. Tem-se a noção de que os alunos estão com cuidados, procuram seguir as regras, regras essas muito específicas e muito bem demarcadas dentro da escola. De qualquer maneira o que nós também enquanto professores e o pessoal não docente, que também tem feito um trabalho muito válido, procurámos fazer foi dar muita confiança e tranquilizar os pais e os alunos. Portanto, nestes primeiros dias o trabalho tem sido feito nesse sentido. Claro que houve todo um trabalho preparatório que foi feito, concretamente pela Direção do Agrupamento (de Escolas de Ermesinde), desde o mês de julho. Depois, a partir de 1 de setembro, nós na Escola D. António Ferreira Gomes começámos diariamente a desenvolver um conjunto de diretrizes a partir daquelas que foram imanadas quer da Direção-Geral da Saúde (DGS), quer do Governo. Temos seguido essas normas todas, construímos uma série de documentos orientadores da nossa maneira de estar dentro da escola e portanto as coisas neste arranque de ano de certa forma excederam positivamente um bocado as minhas expectativas. Digo isto porque a comunidade escolar em geral tem tido um comportamento muito adequado às características da situação e portanto o facto de nós também termos procurado tranquilizar levou a que os alunos se sentissem apoiados e nesse sentido já conheçam bem os meandros com que têm de desenvolver não só as suas deslocações dentro da escola mas também a forma como estão agora na sala de aula, que é completamente diferente.

AVE: Enquanto membro da comunidade educativa, sente que o regresso à escola era inevitável, ou seja, nada substitui o ensino presencial, mesmo com todos os perigos derivados da pandemia que as escolas correm ao voltarem a abrirem portas?

MN: Eu diria que mais do que inevitável era desejável. Como nós sabemos não pode haver comparação possível entre um ensino presencial, em que há todo um conjunto de afetos, todo um conjunto de proximidade, em que o aluno mesmo com todas estas condicionantes, como a utilização de máscara, etc., pode questionar o professor no imediato. Portanto, não há comparação possível entre o ensino presencial e o ensino à distância, por muito boa vontade que todos os intervenientes tenham tido durante o período de março a junho (em que as aulas foram dadas à distância). Ao longo destes meses (de ensino à distância) o trabalho tem que ser distribuído por professores, alunos e pais, porque os pais também tiveram uma quota parte muito importante, embora tivessem as suas dificuldades, como os professores tiveram e como os alunos tiveram. Foi uma aprendizagem que teve de ser muito rápida para todos, porque ninguém estava preparado para isso. Claro que se hoje isso voltasse a acontecer já estaríamos preparados para um Plano B e para um Plano C se fosse necessário, mas efetivamente, e para concluir, não há comparação possível entre o ensino presencial e o ensino à distância. O ensino presencial é fundamental para que as aprendizagens se possam processar com a qualidade que todos nós queremos e que todos os alunos necessitam.

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AVE: Falando ainda no ensino à distância, pensa que foi prejudicial no processo de aprendizagem dos alunos, ou pelo contrário...

MN: … Em termos de balanço e da realidade que eu conheço eu poderia dizer que foi muito positivo, atendendo aos tais condicionalismos de não estarmos preparados, de haver dificuldades, inclusive, de equipamentos por parte de várias famílias, lacunas que em parte foram ultrapassadas com o apoio da Câmara de Valongo. E portanto, temos de realçar o papel da autarquia que fez um investimento avultado para emprestar equipamentos às famílias que não tinham sequer computador em casa, nem tão pouco internet. Com todas estas lacunas, o balanço que se faz, e que eu faço particularmente, é positivo. Agora, é evidente que nem tudo correu bem, e temos de ter a noção de que dentro daquilo que eu disse há pouco não é comparável o ensino à distância com o ensino presencial, mas dentro dos condicionalismos a que estivemos sujeitos o papel dos pais foi muito positivo e os professores deram o melhor que tinham pois inclusive investiram em formação à distância, de forma rápida, principalmente aquelas pessoas que estavam menos familiarizadas com as questões da informática. Mas de qualquer maneira, até nisso foi positivo, pois abriu outro tipo de horizontes. Agora, o tempo para preparar tudo isto não foi muito, as escolas fecharam em meados de março e passados oito dias estávamos a trabalhar com os alunos à distância. Tivemos que preparar tudo muito rapidamente. Os pais que ficaram em casa tiveram que acompanhar os filhos, e não foi fácil, porque muitos deles tinham dois e três filhos ao mesmo tempo a receber lições à distância e gerir aquilo tudo não foi fácil.

AVE: Acha que as escolas estão preparadas para este regresso presencial, não só a nível psicológico mas também físico, mais precisamente na questão de infraestruturas/condições que muitas escolas não têm para cumprir as regras de seguranças impostas pela DGS (?).

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MN: A situação ideal não existe. Efetivamente, nós a nível nacional temos uma variedade de situações, porque há escolas que foram intervencionadas, que tiveram grandes obras, e que têm salas de aula com uma dimensão adequada para se poder fazer um distanciamento entre alunos, e há outras escolas mais antigas, como é o caso da D. António Ferreira Gomes, em que os espaços são aqueles e tivemos que nos limitar a essa dificuldade. Mas dentro desse condicionalismo de não haver possibilidade de alargar muito mais o espaço dentro das salas de aula foi possível, dentro daquilo que o espaço permitia, estabelecer algum controlo a nível do distanciamento. Claro que o distanciamento não é o ideal, e depois também tem a ver com a dimensão das turmas, pois quanto maior forem as turmas maior é a dificuldade de distanciamento. Quando as turmas são mais pequenas o distanciamento é mais fácil. Só para dar um exemplo: há turmas em que os alunos têm de estar numa mesa praticamente ao lado um do outro, têm uma marca a meio feita com fita isoladora para que eles se habituam a limitar o espaço deles. Depois não podem trocar materiais uns com os outros, independente disso à entrada de cada sala de aula há dispensadores de gel, aliás, em tudo quanto é esquina da escola há dispensadores de gel. Desde a entrada da escola que eles começam logo por desinfetar as mãos, depois têm um percurso para entrar, outro percurso para sair, os que vão para um bloco têm um percurso, os que vão para o lado contrário têm um percurso diferente, os alunos das várias turmas nunca se encontram uns com os outros, houve esse cuidado. Depois não podem andar levantados dentro da sala, e nas disciplinas mais práticas não se podem deslocar para outros espaços de trabalho para fazer outro tipo de operações, pois agora têm de fazer tudo no seu devido local. E portanto tudo isso limita um pouco. É evidente que se calhar há outras escolas que não têm esta dificuldade, porque a dimensão das salas permite que haja um maior distanciamento. Os professores e os funcionários têm um percurso também diferente, ou seja, entram pelo edifício central, portanto, nunca há mistura nas entradas. Depois, em todas as entradas dos edifícios há tapetes para desinfetar os pés, para secar. Entretanto, aos alunos foi-lhes atribuído nas salas um lugar que é aquele que vão ter até final do ano letivo, e depois na sala voltam a desinfetar as mãos antes de entrar, cada um tem os seus materiais, e cada um trabalha autonomamente. Depois, quando precisam de ir à casa de banho saem durante as aulas, porque agora não temos intervalos, o agrupamento funciona sem intervalos, apenas duas pausas de 5 minutos, quando por exemplo se muda de sala, embora cada turma tenha uma sala atribuída, só mudam dessa sala quando vão para algumas disciplinas específicas, caso de Educação Visual e Educação Tecnológica. Depois ainda há um outro espaço que é o de Educação Física que é dada no exterior sempre que o tempo o permite. Resumindo, só mudam de salas nessas situações. Em suma, os alunos foram elucidados que as regras eram diferentes, e eu sinto que eles estão a aderir de uma forma concreta a estas novas regras.

AVE: Como tem sido nestes primeiros dias de aulas a adaptação a esta nova realidade?

MN: Tem sido positivo. Também temos o cuidado de sempre que há a tal mudança de sala, e estou a lembrar-me das salas especificas, quando o aluno sai de uma disciplina, seja Educação Visual ou Educação Tecnológica, por exemplo, para ir para a sala “normal”, a sala onde tem todas as aulas teóricas, nunca há na tal sala específica uma aula logo a seguir, há pelo menos uma hora de intervalo para que os funcionários possam fazer a higienização da sala, para quando vier outra turma a sala esteja higienizada e não haja problema. Há sempre esse cuidado. Como também na sala dita normal deles, a sala que é atribuída para a maior parte das disciplinas, nenhuma outra turma entra ali. Este ano as aulas são todas sobre a manhã, e de tarde só são dados alguns apoios, nomeadamente a alunos de Educação Especial e outro tipo de apoio mais individualizado àqueles alunos com mais dificuldades, mas a grande maioria das turmas só trabalha de manhã.

AVE: Acha que esta insegurança que se vive pode ser prejudicial no processo de ensino/ aprendizagem?

MN: Eu penso que a insegurança existe, mas como dizia há pouco nós tentamos passar uma mensagem de confiança, tentamos que os alunos sintam que se todos nós fizermos a nossa parte e eles fizerem também a parte deles tudo vai correr bem. Até pode ser que daqui a algum tempo possamos dizer que afinal as coisas não estão a correr tão bem, só o futuro o vai dizer. De qualquer maneira neste momento a insegurança existe, como é lógico, pois como se sabe não existe risco zero em lado nenhum, apesar de todos os cuidados, mas dentro de todos os cuidados que foram tomados nós sentimos que os alunos vão estando conscientes de que têm de ser diferentes daquilo que eram e estão a compreender que eles próprios têm de mudar algumas rotinas. Neste momento sente-se isso. Claro que por vezes se sente que há miúdos mais stressados do que outros, uns com mais dificuldade em estar dentro da sala do que outros, o que também já aconteceria numa situação normal. Para já sente-se segurança, toda a gente está empenhada para que tudo corra pelo melhor. Temos igualmente procurado alertar os pais, pedir a colaboração deles no sentido em que é fundamental o papel deles junto dos filhos, concretamente em casa e nas proximidades da casa para que eles não andem em grandes grupos, em grandes ajuntamentos, porque temos de ter a noção de que não basta que a escola tenha de ter todos os cuidados e que depois da parte da família não haja esse cuidado. Aliás, posso dizer também que como em todas as escolas, em todos os agrupamentos, tivemos de fazer um plano de contingência, que depois foi avaliado pelas entidades de saúde, e posso dizer que da parte da unidade de saúde da nossa zona foram dados os parabéns à escola, pois estava tudo em conformidade. Em suma, tudo está pensado, elaborado, no sentido de que da parte da escola as coisas possam correr bem. Depois há sempre um grau de incerteza, atendendo a que os alunos vêm de vários pontos, embora nós, na nossa escola, também temos uma vantagem que é a de que a grande maioria dos alunos não utiliza transporte público, ou seja, é o pai ou a mãe que os transporta na sua viatura particular, sendo que outros vêm a pé para a escola e portanto não temos aquela situação de terem de vir em transportes públicos sobrelotados, etc..

AVE: A motivação dos professores também é fundamental para dar confiança aos alunos neste regresso às aulas...

MN: ... Eu que tenho acompanhado esta situação a par e passo verifico que tal e qual as famílias, que tal e qual os alunos, há professores que denotam alguma insegurança, o que é normal. Mas essa insegurança, daquilo que eu vejo, não implica menor empenho para que as coisas corram bem. Portanto, aquilo que se nota é que os professores estão preocupados, porque efetivamente há docentes já com uma certa idade e isso gera alguma insegurança, mas o que se sente é que os professores estão empenhados em fazer aquilo que é necessário fazer para que tudo corra bem. Estou convicto de que há um empenho a 100 por cento do pessoal docente. Dentro deste contexto de pandemia e da realidade que temos hoje nas escolas o papel dos professores é fundamental mas também gostaria de realçar que o papel dos assistentes operacionais também é muito importante, e devo dizer que da realidade que eu conheço na Escola D. António Ferreira Gomes os assistentes operacionais têm sido de uma dedicação fantástica à escola e isso tem de ser realçado.

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AVE: Por outro lado o entusiasmo, a alegria de alunos, e também professores, do reencontro com a escola “física” após tantos meses de ausência pode superar, ou vencer, os receios, a tal ansiedade e as dúvidas, que reinam em praticamente todas as escolas deste país neste início de ano?

MN: Aliás, tem sido um pouco essa a mensagem que estamos a passar, ou seja, apesar de estarmos todos condicionados e de os miúdos não poderem fazer as brincadeiras que estavam habituados a fazer nos intervalos, temos procurado passar a mensagem de que o facto de estarmos todos ali é já de si muito importante. A possibilidade de estarmos ali todos frente a frente uns com os outros e de os miúdos poderem questionar, dar a sua opinião de viva voz não é a mesma coisa de estarmos à distância, atrás de um computador. Portanto, isso já é algo de muito positivo e que deve servir para nos animar a todos e para nos dar força de que vale a pena realmente investir na segurança, com todo o cuidado. É importante também que se diga que a escola fez um grande investimento, porque estava muito depauperada, a nível das instalações, concretamente nas instalações sanitárias, sendo que algumas delas até estavam fechadas porque estava tudo avariado. E é importante que se diga que a Direção do Agrupamento fez um investimento bastante elevado no sentido de colocar todas as casas de banho a funcionar em todos os pisos. Depois também contamos com a colaboração da Câmara e da Junta de Freguesia na manutenção do espaço envolvente, concretamente no corte das ervas que crescem com muita frequência.

AVE: Nas aulas mais práticas como é que os professores agem com os alunos, dado que não é muito seguro aproximarem-se para os ajudar, corrigir, sugerir alterações a fazer?

MN: Essa é uma das mudanças que se vai notar uma diferença maior, porque os professores não vão poder estar “em cima” do aluno, a pegar por exemplo num equipamento ou ferramenta que depois o aluno vá pegar também, não se vai poder fazer isso. Há uma grande mudança a esse nível. Nós vamos optar por trabalhos essencialmente bidimensionais, nomeadamente nas disciplinas de Educação Visual e Educação Tecnológica em que vai haver uma componente de trabalho que eles vão ter de fazer em casa, e aí podem contar com a ajuda dos familiares. Mas aquele trabalho que se fazia dentro da sala de aula, com ferramentas de vário tipo isso não se vai poder fazer. Porque lá está, eles estão limitados ao espaço daquela mesa, não vão poder ir para a parte oficinal. De qualquer das maneiras isso não significa que os conteúdos não vão ser dados na mesma, o que eles vão ser é adaptados em termos de concretização. Normalmente, na parte das disciplinas práticas os miúdos têm sempre a base teórica em primeiro lugar, por isso vai-se dar ênfase aos trabalhos bidimensionais, na folha de papel e depois quando for para concretizar um trabalho vai-se pedir a colaboração deles em casa.

(...)

leia esta entrevista na íntegra na edição impressa.

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Por: Miguel Barros

 

 

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