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Edição de 31-07-2020
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    Arquivo: Edição de 30-06-2020

    SECÇÃO: Crónicas


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    PASSEIOS DE BICICLETA À DESCOBERTA DO PORTUGAL REAL...

    “– Tem cuidado meu. Podes ficar sem ele.”

    O dia amanheceu ventoso. Lembro-me da expressão “Até a barraca abana” e sorrio. Esqueço-me das dores do corpo, nem sei se são das andanças ou do terreno onde dormi. As costas, principalmente, acusam as mordeduras das pedras que revestiam o chão. Foi uma batalha épica o desmontar e guardar a tenda. Deixei a metodologia do bem dobrar o pano para, em desespero de causa, empurrar e amarrotar para dentro do saco, que era o que importava. O vento que fique com a taça. Terminado, dirijo-me para a secretaria do parque, para dar a entrada e saída.

    Volto para Sesimbra. Vila piscatória, fundada no sopé de uma colina onde foi erguido um castelo pelos Mouros e conquistado em 1165 por D. Afonso Henriques, tomado novamente pelos Mouros, foi definitivamente reconquistado por D. Sancho I. Para além do porto de pescas a sua atividade assenta nos serviços e no turismo, com excelentes praias. Já é meio da manhã. Subo a colina e visito o castelo. Das suas ameias temos uma paisagem deslumbrante da Vila e do mar. Aqui consulto o mapa e pelas dores ou não, decido uma etapa curta.

    SANTUÁRIO NOSSA SENHORA DO CABO ESPICHEL
    SANTUÁRIO NOSSA SENHORA DO CABO ESPICHEL
    Sigo pela estrada que me levará ao Cabo Espichel. Estrada esta ladeada quase sempre por habitações. Os terrenos envolventes têm arbustos rasteiros e erva amarela da estiagem de agosto. Os perto de 16 Km pela EN 379 são feitos em ritmo de passeio domingueiro. Visito externamente o Farol. A nossa costa era conhecida, principalmente pelos Ingleses, como “Costa Negra”, devido à falta de iluminação de sinalização. O Marquês de Pombal (séc. XVIII) mandou construir uma rede de faróis entre os quais este é um dos mais antigos de Portugal (1790). Mais umas dezenas de metros e estou no átrio do Santuário do Cabo Espichel. Composto por uma Igreja (visitável, mas sem autorização de fotografar o seu interior), a limitar o átrio as antigas hospedarias. Temos a Ermida das Memórias e a casa da água. Exceto a Igreja, nada é visitável, denotando-se até no resto do complexo uma certa degradação nas velhas hospedarias. Segundo uma lenda, no sítio onde foi erguido, apareceu a imagem da Virgem em 1410, ficando conhecida como o Santuário da Nossa Senhora do Cabo Espichel.

    Finda a visita, sigo para Alfarim e desta para o parque de campismo Campimeco. Parque situado numa arriba de falésia com vista para o mar. Por aqui o terreno era mais confortável para o chão da tenda. Alfarim é uma aldeia pacata, dá apoio a praias como a do Meco, a das Três Bicas, a do Penedo e a Naturalista do Rio da Prata. Para bons manjares, temos o restaurante/bar do Grupo Desportivo de Alfarim. Com a noite a instalar-se e admirando o pôr-do-Sol e com o aparecimento das luzes da Costa da Caparica e de Lisboa no horizonte, decido ficar por aqui mais um dia.

    Lá diz o ditado que, comer e dormir bem, faz o tempo passar depressa. Hoje é sábado. Se pernoitar na Costa da Caparica, na manhã de domingo percorrerei a linha “bem”, de Belém a Cascais. Pela EN 377 passo pela Lagoa de Santo André. A paisagem muda. Os meus companheiros de viagem são agora os pinheiros. Percorro Fernão Ferro, no Fogueteiro desvio-me outra vez para a beira-mar. Tomo um café numa esplanada de bar na praia da Fonte da Telha. Curiosos olham para a bike, se soubessem os Kms que já fez. Pelo sim pelo não, dirijo-me para a Caparica ainda a horas decentes para almoçar.

    Consulto o Maps, e verifico que tenho cinco a seis parques. Pela lógica da “batata” fico-me pelo segundo. Mas que “batata”. Temos lugar, dizem-me, mas o pessoal foi todo almoçar. Ok. Fico a aguardar aqui à fresca. Ao meio da tarde lá aparecem, todos atarefados! Eu e um casal de holandeses a penar. Depois de inscritos, fomos acompanhados por um funcionário ao devido sítio. A hora do almoço já lá ia. Montada a tenda e com um bando de “melros” que não tiravam a vista de cima, tive a sensação de ter que prender a bicicleta. Rodas desmontadas, presas ao quadro e este ao poste de eletricidade. Depois do banho, o telemóvel foi posto à carga numa das fichas de apoio no WC para se ligar as máquinas de barbear. Encostei-me por ali à espera. Eis senão quando entram três indivíduos e dirigem-se logo para o telemóvel. Dando pela minha presença, um deles pergunta-me. É seu?? À minha resposta, O que achas!!!, trocam de olhares e um deles, paternalmente, diz. – Tem cuidado meu. Podes ficar sem ele. Ok. Tinha chegado ao “Far West”, ou simplesmente aos limites da grande capital? Depois da janta, e da leitura de um jornal diário dirijo-me para a tenda. A bike está no sítio. Estará tudo na tenda? Já duvido de tudo. Está. Está tudo… Acho!!!! Às 23h30m instala-se o caos. Há sardinhada. Há música, com o som tão alto que se ouvirá em Faro. Estou perdido... porca miséria!...

    Por: Manuel Fernandes

     

     

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