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Edição de 31-01-2020
Jornal Online

SECÇÃO: Crónicas


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A GUERRA COLONIAL PORTUGUESA (5)

“As campanhas de pacificação”

A partir daqui (Magul), as tropas portuguesas lançam-se numa verdadeira campanha de terror, incendiando e saqueando tudo o que era aldeamento indígena circunvizinho e suas culturas, levando a que alguns dos seus chefes, intimidados, se tivessem apresentado a prestar vassalagem.

Gungunhana, que esperava poder contar com o apoio dos ingleses, de quem, aliás, noutras ocasiões, até chegara a receber armamento variado, e não lhe sendo este disponibilizado, contrariedade a que se aliava agora a deserção de alguns dos seus régulos que, assustados, como se disse, se apresentaram a prestar vassalagem aos representantes do governo português, começou a sentir o seu poder enfraquecido, considerando-os traidores. Como se isto não bastasse, a fome que então grassava e a necessidade de proceder às sementeiras agrícolas para sustento dos combatentes e suas famílias fizeram com que muitos dos seus homens desmobilizassem, abandonando as fileiras, levando a que o seu anterior exército cifrado em cerca de 40.000 homens, não passasse agora dos 13.000.

Depois de Magul, e já em confronto directo com Gungunhana e as forças de Gaza, o comissário régio António Enes manda o coronel António Galhardo, à frente de uma nova coluna militar composta por 600 oficiais e soldados europeus e 500 auxiliares africanos equipados com 38 carros de combate e 6 canhões, atacar a capital do império de Gaza, Manjacaze, local sagrado para os vátuas (ngunis) e onde, oficialmente, residia o seu imperador. Antes, porém, de ali chegarem, a cerca de 7 km de Manjacaze, mais precisamente no vale de Coolela, no dia 7 de Novembro de 1895, dá-se o confronto com as forças de Gungunhana, sob o comando do seu prestigiado comandante-chefe Maguiguana, valente régulo da etnia Khosa, à frente de cerca de 10.000 homens equipados com cerca de 2.000 espingardas. Dada a táctica do quadrado utilizada pelas tropas portuguesas e a superior qualidade do seu armamento, as forças de Gungunhana saem derrotadas de mais este confronto. Distinguiu-se na preparação desta coluna, tal como já o havia feito na de Marracuene, o tenente Aires de Ornelas, tendo, “com galhardia”, participado, igualmente, nos combates.

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No dia 11 de Novembro, a mesma coluna, agora reforçada com mais uma centena de homens, atinge Manjacaze, sem qualquer oposição, encontrando a residência (Kraal) de Gungunhana completamente abandonada e a população quase toda em fuga. O coronel Galhardo ordena, então, às suas tropas auxiliares africanas a pilhagem da povoação, seguida de incêndio e destruição das culturas agrícolas.

Todo este clima de terror e devastação levou a que mais uns quantos régulos (chefes de tribo) ainda renitentes, até aí fiéis a Gungunhana, se apresentassem a prestar vassalagem. Vendo-se este cada vez mais isolado e enfraquecido, decidiu refugiar-se em Chaimite, aldeia sagrada para os vátuas, onde se encontrava a campa do seu avô, Manicusse, fundador do Império Gaza.

Tomada e destruída Manjacaze, o Comissário Régio António Enes ordena a perseguição, captura ou morte de Gungunhana. Para o efeito, confere plenos poderes ao major de cavalaria Mouzinho de Albuquerque, a quem nomeia, em 10 de Dezembro desse mesmo ano de 1895, governador do recém-criado distrito militar de Gaza. Ora, Gungunhana pressentindo a derrota iminente, ainda tenta aplacar os ânimos dos portugueses, entregando-lhes, em 13 de Dezembro, em Chissano, Gaza, um dos seus comandantes militares mais procurados por aqueles pelo já referido ataque a Lourenço Marques, o príncipe ronga Matibejana que, perseguido pelas forças lusas, se havia acolhido sob a sua protecção. Tal gesto de fraqueza levou a que uma boa parte dos seus súbditos, ainda aliados, não se sentindo seguros sob a sua protecção, tenha decidido apresentar-se e prestar vassalagem aos portugueses. Face a todos estes insucessos, o Leão de Gaza, imperador Gungunhana, terá mesmo decidido render-se, notícia que chegou ao conhecimento do governador Mouzinho de Albuquerque, nas vésperas do Natal de 1895. Porém, como este estava determinado a capturá-lo ou a executá-lo, decidiu, no dia de Natal, avançar para Chaimite, à frente dum pequeno grupo de combatentes (2 tenentes, 1 médico, 49 praças e 200 auxiliares africanos). Durante os três dias de marcha forçada até ao objectivo foram-se-lhe juntando vários régulos dispostos a combater o seu ex-líder.

Tentando evitar a sua captura e desmobilizar a coluna cuja dimensão ele próprio desconhece, Gungunhana ainda chega a enviar, por duas ocasiões, emissários seus ao encontro de Mouzinho de Albuquerque, com presentes, juras de amizade e arrependimento. Da primeira vez, manda entregar 560 libras de ouro e alguns dentes de marfim; da segunda cujo emissário é o seu próprio filho primogénito, Godide, 510 libras de ouro e 63 búfalos. Porém, o major Mouzinho de Albuquerque não se detém e, na madrugada de 28 de Dezembro, alcança, finalmente, as paliçadas de Chaimite. Aqui chegados, os homens dos régulos dissidentes recusam-se a avançar no terreno, tal o terror que Gungunhana ainda lhes inspira. Pelas 7 horas da manhã, o major Mouzinho de Albuquerque e os seus combatentes brancos, decidem entrar na cerca ou paliçada que rodeava a aldeia, por uma porta onde só cabia um homem de cada vez. Surpreendidos e atemorizados os cerca de 300 homens armados de espingardas do regimento (manga) Zinhone Muchope (Aves Brancas), que constituíam o último reduto da defesa de Gungunhana, não esboçam qualquer resistência e, sabendo que o seu líder se iria entregar, fogem.

Detido e humilhado o imperador Gungunhana, Mouzinho de Albuquerque manda fuzilar imediatamente e sem julgamento o conselheiro daquele, Mahune, e Queto, tio do mesmo, por os considerar os principais instigadores da rebelião. Não satisfeito com o fuzilamento, ainda manda que os seus corações sejam trespassados por uma espada. Pelas 10 horas, Chaimite estava completamente destruída e a coluna regressou, com os prisioneiros, à lancha-canhoneira Campelo, comandada pelo tenente Álvaro José de Sousa Soares de Andrea, ancorada no rio Limpopo.

(...)

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(continua)

Nota: o autor opta por utilizar a grafia anterior ao Novo Acordo Ortográfico.

Por: Miguel Henriques

 

 

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