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Edição de 30-04-2022
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    Arquivo: Edição de 15-12-2019

    SECÇÃO: Crónicas


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    PASSEIOS DE BICICLETA À DESCOBERTA DO PORTUGAL REAL...

    “Pagamos-lhe o jantar e você paga as bebidas e os cafés”

    Saio cedo da Quarteira. Na noite anterior tinha pensado como destino final o parque de campismo de Ferragudo. Percorro a avenida central da Quarteira rumo a Vila Moura. O trânsito é ainda diminuto. É sexta-feira, dia 23 de agosto, e esqueço-me sempre de que estou em época de férias.

    Quase sem dar por isso estou em Vila Moura. A avenida, agora é ladeada por zonas relvadas assim como o separador central. Há limite de velocidade e para me mostrar minimamente civilizado percorro o trajeto pelas ciclovias. Há correntes diferentes de opinião, que classificam esta como um bairro, outros como um resort de luxo e ainda outros como cidade. O certo é que a mesma foi fundada pelo empresário Cupertino de Miranda e cresceu à volta da sua marina. Posteriormente foi adquirida por André Jordan e desde 2015 os ativos imobiliários e a concessão da marina foram vendidos à Lone Star – uma empresa Norte-Americana. Mas para o caso não interessava. Queria era tomar o pequeno-almoço. Pura ilusão. Os estabelecimentos à volta da marina estavam encerrados. Às dez horas da manhã não havia um único aberto. Teria que tomar pelo caminho. Já não precisava de hipotecar a bicicleta para o poder pagar.

    Sigo para a praia de Olhos de Água. Uma descida vertiginosa até à praia e é nesta que tomo o tão desejado pequeno-almoço. Para retomar a estrada percorri a subida a pé. A causa? É uma subida e pêras. Se fosse a pedalar acho que teria que repor o que tinha acabado de comer e foi uma maneira de ficar a conhecer um pouco a localidade. Pela CM-1287 passo pelas praias de Maria Luisa, Stª Eulália e da Oura. Desta é um pulo para Albufeira. Como não estava em tempo noturno, esta é uma cidade de trabalho e pacata.

    Depois de percorrer algumas das suas ruas decido continuar pela estrada M -526 passando pela praia da Galé, Salgados e Armação de Pera. Nesta, almoço. Ou da fome ou dos ares ou de distração, comi como um abade. Resultado: tive de tomar uns digestivos e dar tempo ao tempo.

    FERRAGUDO - ALGARVE
    FERRAGUDO - ALGARVE
    Passo pela praia de Albandeira, praia do Buraco, saio da estrada e percorro trilhos quase com a bicicleta às costas, através da vegetação para admirar praias diminutas recortadas pelas falésias. Todas elas com ocupação, que na sua maioria eram de nacionalidade estrangeira. Perco algum tempo, por entre árvores de médio porte que não deixavam ter uma visão do terreno, para voltar para a estrada.

    Vou para Benagil, com intenção de admirar o “Algar”. Gruta escavada pelo mar com aberturas para entrada de luz como se de claraboias se tratasse. Outra descida vertiginosa, entre dois cerros, que no ponto mais baixo da praia distam entre si cerca de cinquenta metros. Praia pequena. Maré cheia. Pergunto a um natural pelas grutas e diz-me. “Está a ver ali aquela quantidade de barcos? Estão à espera de vez para lá entrarem. Na maré baixa pode ir a nado ou numa prancha”. Agradeci. Os barcos eram mais que muitos e o mar estava um pouco alterado. Ficaria para uma próxima. Curiosos, ficam de olho em mim para verem se eu ia subir aquela rampa. Desiludi-os. Cansei-me de empurrar a bicicleta rampa acima. Passo pelo cabo Carvoeiro, rumo a Ferragudo. Decidi não ir ver mais praia alguma. De tanto descer e subir, tinha as pernas a arder.

    Chego ao parque. Há dias que não se pode sair de casa e aquele era um deles. Perguntam-me se sou sócio do parque ou estou inscrito numa associação de campismo. À minha negação, informam-me que não posso entrar. Digo que no site do parque não faz qualquer menção a esse ponto e recebo de resposta.:”O parque mais próximo é no Alvor”. Respiro fundo um pouco. Nada a fazer. Pelas horas, tinha que me despachar, mas as pernas já não acatavam o que a mente lhes ordenava. O corpo tinha desligado. Foi um calvário até perto do Alvor. Parei para tomar um sumo e estava a imaginar que se não chegasse a tempo ao parque iria fazer campismo para uma praia. Três senhoras sentadas numa mesa ao lado desafiam-me. “Pagamos-lhe o jantar e você paga as bebidas e os cafés”. Sorri e contei que teria de chegar ao parque a tempo do chek-in. Uma delas pega no telemóvel e fala com alguém e diz-me. “Está tratado, quando lá chegares falas com o Carlos”. Lá tive que pagar as bebidas. A companhia foi fantástica, das pessoas mais divertidas que conheci. Lá cheguei ao parque quase com a lua em despedida.

    Por estarmos perto da quadra Natalícia, lembro-me de gente extraordinária de bondade e de solidariedade com que me cruzei nestas andanças pela estrada. O compadre Cipriano, o pastor Sr. Francisco, a Velhinha que às duas da tarde me serviu um almoço, em vez das sandes, porque estava magrinho, a espanhola D.ª Lola na localidade de Banhõs, que me diz: “Hombre dou-te valor, por vires até aqui de bicicleta, toma estes pantalones e vai para a piscina natural que amanhã tens as pernas de um jovem”.

    E porque Natal é todos os dias, conto o que me aconteceu nesta viagem com uma criança de cinco anos, de nome Rafael. Deixando o capacete em cima da mochila e junto da bicicleta e estando sentado numa esplanada a tirar as luvas me diz: “Andas de bicicleta? Sabes que é perigoso andar sem capacete? Queres que te dê o meu?”

    Feliz Natal.

    Por: Manuel Fernandes

     

     

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