Subscrever RSS Subscrever RSS
Edição de 31-10-2019
Jornal Online

SECÇÃO: História


foto
MEMÓRIAS DA NOSSA GENTE (10)

Tradições agrárias: A matança do porco

Ainda sobre esta temática das tradições agrárias de Ermesinde, vamos referir-nos, nesta e na próxima edição, à «matança do porco» que é, de resto, uma tradição comum a praticamente todo o país. Está intimamente ligada aos hábitos alimentares dos portugueses (e não só...), enquadrando-se naquilo a que se pode chamar lei da sobrevivência.

Era costume, os lavradores desta terra criarem um ou dois porcos, conforme a grandeza da casa, isto é, em função do número de pessoas que aí viviam. Outros habitantes procediam do mesmo modo desde que tivessem condições mínimas para a instalação do animal e possibilidade de o alimentar.

A CRIAÇÃO E OS CUIDADOS COM OS SUÍNOS

A criação dos suínos para abate, que geralmente eram comprados, directamente, em pequenos, nas feiras, como em Santana (Leça do Balio) ou na do «Cô»- (Paços de Ferreira) (2), ou trazidos por vendedores de gado que nessa altura frequentavam muito as casas de lavoura da terra. Alguns provinham de criações caseiras, embora houvesse um certo receio em adoptar este sistema, devido ao receio de doenças muito vulgares, há uns anos atrás, nas «ninhadas de bacorinhos». A exploração agrícola do Colégio de Ermesinde (Quinta do Sr. Teles), situada a Sul da E.N.208, que abastecia com carne de porco toda esta unidade escolar, com centenas de alunos internos e semi-internos e dezenas de criados, o que não acontece hoje, matava dezenas destes animais por ano, todos eles nascidos e criados nas suas instalações.

Para tão grande criação utilizava mesmo um «porco de cobrição», suíno este que, como se deve calcular, tinha uma corpulência e porte fora do normal, tornando-o assim preferido para ser o pai de numerosos suínos, o que obrigava os proprietários de fêmeas de quem quisessem criação a ir com elas, à Formiga. Já agora refira-se, também, que esta instituição diocesana para o abate de tantos destes animais contratava um matador muito conhecido em Ermesinde nestas lides –«O Ti. Norberto Quelhas»(3).

VISTA GERAL DA QUINTA DA FORMIGA, QUANDO ERA SEU PROPRIETÁRIO RIBEIRO TELES
VISTA GERAL DA QUINTA DA FORMIGA, QUANDO ERA SEU PROPRIETÁRIO RIBEIRO TELES
Nas casas onde tinham adquirido um bacorinho, ou simplesmente reservado um para consumo próprio, depois de venderem o resto da ninhada, este lá ia engordando com o balde da «lavagem» que, duas ou três vezes por dia, a lavradeira ou outra mulher lhe ia deitando na pia de pedra, ou na gamela de madeira, dado que este era um trabalho marcadamente feminino. Neste recipiente de madeira para transporte da alimentação do animal, espécie de meio pipo em aduelas, com pega, era deitada água quente, farinha e mergulhadas folhas de couve-galega, pedaços de abóbora e outros vegetais. Restos de comida e algumas mãos cheias de milho, ao dia, completavam esta rica ementa.

O CAPADOR À ESPREITA

Na altura própria, se o proprietário o desejava, aparecia o capador(4), o que à partida era garantia de um animal com muito melhor carne. «O cio tira o sabor à carne» - dizia-me o Sr. Manuel, um capador que conheci, há uns anos. Não havia idade para esta operação, embora se praticasse mais, quando eram pequenos que, consistia na abertura dos testículos do animal «retirando-lhe o canal», através de um canivete, dobrado na ponta. A cura para esta intervenção era feita com o lançamento de água fria, às vezes misturada com vinagre, durante três dias, embora, mais tarde, se começasse a utilizar injecções, para tratamento da ferida, evitando-se, assim, infecções. A preocupação por obter boa carne não se reduzia só aos machos, pois com as fêmeas acontecia o mesmo, nomeadamente com os cuidados a ter em relação à menstruação do animal, pois o seu abate não poderia coincidir com este ciclo, sob pena da «carne se estragar toda, na salgadeira». Havia também quem procedesse, embora não fosse tão vulgar, pelos riscos que acarretava, a uma «operação» aos órgãos genitais das porcas, para evitar contratempos e melhorar a qualidade da carne, feita pelos mesmos capadores e que obrigava, na maior parte das vezes, à cosedura do orifício aberto.

Na parte norte os lavradores e particulares recorriam aos serviços do Malápio e até do Sr. Pegas, enquanto, na parte sul da freguesia, actuavam mais os capadores(5) de Baguim, do Monte.

1-Este artigo (texto e foto) baseia-se na publicação do autor, “Ermesinde: Memórias da Nossa Gente”.

2-Feira do Cô era muito conhecida. Um lugar, que integra a freguesia de Penamaior, de Paços Ferreira. Era vulgar dizer-se, por brincadeira: «Quem quer porcos vai ao Cô a eles».

3-Este conhecido matador de porcos integra o nosso capítulo: «Rostos da Nossa Gente».

4-Homem que tem por missão castrar um animal do sexo masculino, inutilizando-lhe os órgãos reprodutores.

5-Capadores de Baguim eram os mais conhecidos. Apareciam nas feiras, onde faziam, muitas vezes, este trabalho a pedido dos próprios compradores destes animais.

(...)

Leia este artigo na íntegra na edição impressa.

Nota: Agora pode tornar-se assinante da edição digital por 6 euros por ano. Após fazer o pagamento (de acordo com as mesmas modalidades existentes na assinatura do jornal impresso) deverá enviar-nos o nome, o NIF e o seu endereço eletrónico para lhe serem enviadas, por e-mail, as 12 edições em PDF.

Por: Jacinto Soares

 

 

este espaço pode ser seu Este espaço pode ser seu Este espaço pode ser seu
© 2005 A Voz de Ermesinde - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital.
Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.