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Edição de 30-09-2019
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    Arquivo: Edição de 30-06-2019

    SECÇÃO: História


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    MEMÓRIAS DA NOSSA GENTE (7)

    Tradições agrárias: O MILHO – OS TRABALHOS COM A SUA CULTURA

    Muitas eram as actividades, ligadas, directa ou indirectamente, à agricultura que, embora semelhantes ao que se passava em seu redor, se revestiam na nossa terra de alguma particularidade devido, não só a certas designações, às práticas usadas, como até à importância que lhe era atribuída. Depois de nos termos referido, na última edição, ao trabalho que o milho dá, desde que é semeado, vamos hoje lembrar o estrume que se deitava à terra para a tornar mais fértil, a sacha do milho e a festa da merenda, começando também a falar da “desfolhada” que retomaremos na próxima edição.

    O CARANGUEJO DA COSTA

    A Matosinhos ia o lavrador da nossa terra buscar o caranguejo para igualmente estrumar as terras. Devido ao seu preço elevado, era pouco utilizado no milho, preferindo alguns agricultores usá-lo, somente para determinadas culturas. O caranguejo era preferencialmente utilizado como estrume nas terras, onde se ia fazer a sementeira do nabal e que antes estavam ocupadas com cereais. Diz-nos quem trabalhou com esses crustáceos que, como fertilizante(2), tornam a terra macia e altamente produtiva. Os nabos e os grelos deles saídos eram bem vendidos nas feiras, devido à sua qualidade e grandeza. Os caranguejos eram recolhidos,pelos pescadores que viam nessa actividade uma forma de aumentar os seus magros rendimentos e eram transportados em carros de bois, com empanas(3) altas. Se a sua ida a Matosinhos coincidia com a salga da sardinha, aproveitavam a viagem para as trazer. Eram metidas em barricas próprias e entremeadas em sal grosso.

    Nesta zona o milho era semeado nos finais de Abril, princípios de Maio. Costume curioso, que eu não conhecia, mas que me foi relatado por um lavrador desta terra(4) era o facto de durante as festas das «Cruzes»(5) , de Barcelos não se tirarem os bois dos aidos para se lavrar.

    A MERENDA NA SACHA

    Por alturas do S. João, o milho era, então mondado, para que ele pudesse crescer com espaço e depois sachado. Este último trabalho, ao contrário do que possa parecer, exigia muita mestria e paciência, pois os homens não só tinham que cavar junto da raiz, para que os «espigões» do pé se agarrasse melhor à terra, como retirar as ervas daninhas, sobretudo a grande praga que era a «junça»(6). Muitas vezes aproveitava-se este momento para fazer uma primeira monda às plantas mais fracas. A terra era depois «arrendada», isto é, aplanada, abrindo-se os regos, para que logo que possível pudesse ser efectuada a rega. Com o «arrendar» semeava-se o azevém(7). Uma erva que tinha o seu maior crescimento, após o corte do milho e que, durante o Inverno, se misturava com a palha no «penso»(8) do gado.

    Um dos aspectos que queríamos salientar era o facto de nesta fase, totalmente de trabalho manual, porque ainda não se utilizava o «sachador», puxado por um boi, haver uma paragem no trabalho destinada à merenda.

    Uma mulher, geralmente a lavradeira, deslocava-se ao campo, ao meio da tarde, com uma giga à cabeça, tendo no seu interior, azeitonas, uma, ou duas broas e um recipiente de vinho, na maior parte das vezes «americano», da sua própria produção. O patrão mandava, então, parar o trabalho e convidava todos os trabalhadores, criados, jornaleiros ou quem tenha ido «dar uma mão», a encostar a sachola e a sentarem-se para comer «uma bucha». Era um momento de convívio, onde se contavam histórias, se diziam piadas, se falava das épocas anteriores e que se repetia todos os anos, nesta altura.

    GRUPO DE TRABALHADORES PROCEDE À SACHA DO MILHO
    GRUPO DE TRABALHADORES PROCEDE À SACHA DO MILHO

    A DESFOLHADA

    Os trabalhos com o milho não se ficavam por aqui. A rega era um dos cuidados maiores a ter em conta, pois da sua eficácia dependia o bom resultado da colheita. A água era necessária durante o crescimento do cereal e sempre que o calor apertava. Quando o milho estava alto, entre Julho e Agosto, era preciso cortar o «pendão», tarefa feita à mão e que se destinava a evitar que a espiga enfraquecesse com um rebento que lhe tirava força ao crescimento. Posto aos molhos era carregado para casa, pois as vacas e os bois comiam-no muito bem. Braçadas destas hastes verdes eram deitadas na sua manjedoura. Por finais de Setembro começava então a «sega» do milho, que se fazia à foucinha.

    (...)

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    1Este artigo (texto e foto) baseia-se na publicação do autor, “Ermesinde: Memórias da Nossa Gente”.

    2Nesta altura, não havia adubos químicos. O primeiro a ser utilizado, em Ermesinde, foi o sulfato de amónio.

    3Empanas - protecções laterais em madeira colocadas nos carros de bois e que geralmente são presas aos fueiros.

    4Mais uma vez, agradecemos ao Sr. Alberto Capitão, que figura nos «Rostos da Nossa Gente», esta prestimosa informação.

    5Cruzes - festas grandes de Barcelos, que se realizam, nos primeiros dias de Maio.

    6Junça - planta herbácea da família das Ciperâceas, espontâneas em Portugal, também conhecidas por “juncinha” (semelhante ao junco).

    7Azevém - planta espontânea em Portugal, também semeada e que é utilizada como forragem.

    8«Penso» - palavra que em Ermesinde significava braçada de palha, ou erva dada ao gado.

    Por: Jacinto Soares

     

     

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