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Edição de 31-07-2019
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    Arquivo: Edição de 31-05-2019

    SECÇÃO: História


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    MEMÓRIAS DA NOSSA GENTE (6)

    Tradições agrárias: O MILHO – A BASE DA RIQUEZA E PROGRESSO

    Muitas eram as actividades, ligadas, directa ou indirectamente, à agricultura que, embora semelhantes ao que se passava em seu redor, se revestiam na nossa terra de alguma particularidade devido, não só a certas designações, às práticas usadas, como até à importância que lhe era atribuída. Depois de nos termos referido, nas últimas edições, ao trabalho do linho vamos hoje, e nas próximas edições, recordar todo o trabalho que era desenvolvido na produção do milho.

    A cultura do milho foi durante anos, podemos mesmo dizer séculos, um dos factores mais marcantes e fundamentais do desenvolvimento de toda esta zona.

    Com efeito, estamos perante uma terra, integrada em duas bacias hidrográficas: Leça e Rio Tinto, linhas de água estas, aqui, com vários afluentes e inúmeras nascentes e, portanto com as condições ideais para a cultura do milho. Havia muita água, a baixa profundidade (qualquer poço com quatro metros, em algumas zonas, já mantém um caudal razoável) e o sistema de regadio foi melhorando ao longo dos anos, através de inúmeras minas e aquedutos que iam buscar o precioso líquido, a grandes distâncias.

    Ainda há bem pouco tempo se viam um pouco por toda a cidade vestígios de “presas”, que se destinavam à retenção de água e que depois era distribuída pelos respectivos consortes(2), através de um sistema de «tornas»(3), de cariz comunitário.

    Testemunhos desta época rica eram as grandiosas e imponentes casas agrícolas, os moinhos e todas as construções ligadas ao sistema de irrigação, hoje à semelhança do que acontece com as casas agrícolas, praticamente destruído. O grande herói deste desenvolvimento ímpar foi sem dúvida o lavrador ermesindense.

    OS CAMPOS DE MILHO, NUMA DAS QUINTAS DA ZONA NORTE DA CIDADE
    OS CAMPOS DE MILHO, NUMA DAS QUINTAS DA ZONA NORTE DA CIDADE

    ALGUNS DOS

    TRABALHOS QUE

    O MILHO DÁ

    Mas os trabalhos e canseiras da cultura deste cereal eram muitas. O terreno tinha que ser devidamente preparado, antes de semear o grão, seguia-se a sacha, a monda. A rega também não podia faltar, nomeadamente, quando o tempo a justificava. O “pendão”(4) era cortado, ainda em verde, antes de se proceder ao seu corte. Transportado para casa, o milho, era então esfolhado e debulhado. Finalmente depois de seco e limpo era guardado devidamente. As caixas e os sacos de linho eram os meios utilizados nesta armazenagem(5). À palha, ao folhelho e à moinha era dado finalidades diversas, cabendo ao lavrador a sua conservação. Estes trabalhos vão sendo referidos, ao longo dos capítulos, embora de uma forma superficial. Contudo, aqueles a que demos mais projecção, figuram, desde já, como temas e, portanto, objecto de um maior desenvolvimento.

    A FERTILIZAÇÃO DA TERRA

    O lavrador destas terras, já de si ricas em húmus, gostava de as estrumar bem, para que a sua produção fosse ainda maior, do que aquela que normalmente estava prevista. Para isso, aproveitava o “esterco” que tirava dos aidos(6) e mesmo do quinteiro(7), recorrendo ainda a fertilizantes naturais que ia buscar a outras partes, como a água choca, ao Porto e o caranguejo, a Matosinhos, embora este mais para os nabais.

    A ÁGUA CHOCA

    Diga-se, em primeiro lugar, que era o mesmo homem que mourejava nos campos de sol a sol que aproveitava a noite que deveria ser de descanso, para fazer uma longa caminhada à «Cidade Invicta» para que o seu milho desse mais e maiores espigas e as suas hortícolas fossem mais tenras. Um trabalho duro e sujo que se realizava, várias vezes ao ano, principalmente para salpicar os campos, antes de entrar o arado na terra que ia preparar a sementeira e depois no tempo das regas para se misturar com a chuva que caía, ou com a água do poço, ou da presa, pois este líquido malcheiroso, em estado simples, podia queimar as «novidades».

    Numa altura em que a entrada na cidade era condicionada, para cobrança de impostos dos vendedores que aí entravam e até por outras razões, (nas epidemias, por exemplo(8)) pela chamada «barreira», com os seus postos de vigilância, ao longo da actual Circunvalação, o lavrador tinha que entrar no Porto antes da meia-noite e sair antes das quatro da madrugada.

    (...)

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    1Este artigo (texto e foto) baseia-se na publicação do autor, “Ermesinde: Memórias da Nossa Gente”.

    2Consortes – nome dado aos lavradores que tinham direito a utilizar determinada água.

    3Tornas – Aqui usa-se torna (pedaço de terreno de cultivo, separado por um rego), como substantivo equivalente a distribuição. Dizia-se «tornar a água» no sentido de a mudar para outro consorte, no dia que estava combinado.

    4Pendão – inflorescência terminal do milho.

    5Era com milho que, na Páscoa, se pagava a côngrua ao padre e as pensões, quando os pais «passavam» a casa ao filho mais velho, costume vulgar em Ermesinde, em determinada época. A caixa correspondia a oito sacos de milho e o saco de milho correspondia a cinco arrobas.

    6Aidos – o mesmo que cortes.

    Por: Jacinto Soares

     

     

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