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Edição de 31-10-2020
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    Arquivo: Edição de 31-03-2019

    SECÇÃO: História


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    MEMÓRIAS DA NOSSA GENTE (4)

    Tradições agrárias: o linho (parte 3)

    O estudo da cultura e tratamento do linho é um dos trabalhos mais apaixonantes para os etnógrafos e todos aqueles que querem conhecer o que foi a cultura tradicional desta herbácea. Em Ermesinde, embora a sua prática não fugisse aos modelos e costumes das Terras da Maia, a sua cultura tomava certas particularidades que vamos continuar a realçar e explicar.

    Continuamos a recordar as várias fases por que passa o linho, desde a sementeira até à tecelagem. Depois de termos visto, nas edições anteriores, como se prepara a terra, como se faz a sementeira, se processa a “arranca”, como se faz a ripa, se leva o linho ao engenho e a operação da espadela, vamos lembrar hoje as seguintes operações: o assedar, o fiar do linho, o ensarilhar e a cozedura do linho.

    O ASSEDAR

    A operação seguinte é desempenhada, exclusivamente, por mulheres. O linho é agora separado em várias partes, através de um aparelho chamado sedeiro (ver imagem). Um cepo de madeira de forma paralelepipédica, revestido de chapa, onde estão implantados duas ordens de dentes de aço.

    Passando a estriga através desses dentes vai-se separando o linho puro, que fica na mão de quem faz o serviço, da parte restante que se acumula no sedeiro. Assim, num sedeiro com os picos muito juntos (geralmente pregos), obtinha-se o linho fino (fibras longas), destinado à confecção de travesseiras e lençóis, enquanto num outro, com os picos mais espaçados se fazia a estopa fina e, finalmente os tomentos, ou estopa grossa.

    A estopa, como dissemos, é a parte residual do linho que ficou na assedagem das estrigas e compõe-se de fibras curtas e mais grosseiras. Do tomento fazia-se uma espécie de «vestimenta», tipo casaco, que os lavradores usavam nos trabalhos mais sujos, como, por exemplo, «o ir à água choca». As estrigas são posteriormente pesadas e divididas em meadas, devendo ter cada uma destas cerca de um quilograma. A medida utilizada em Ermesinde era geralmente o arrátel(2), recorrendo-se para esse fim a uma balança de pratos que o seu utilizador segurava, com um dedo num gancho.

    Com a estopa fazia-se, entre outras coisas calças, toalhas de cozinha, sacos, enxergas, etc.

    Refira-se que, nestas redondezas, havia o costume de incluir logo no acordo da «soldada»(3) , quando se contratava um moço (criado), o fornecimento de roupa, geralmente dois pares de calças, de estopa. Aproveite-se para dizer que os nossos lavradores iam contratar os seus criados à célebre «feira dos moços», que se fazia na Corujeira – Campanhã.

    Outra conhecida feira destinada à contratação de criados era a da Areosa, embora esta mais para aqueles que já a servir, na zona do Porto, tivessem sido despedidos, ou abandonassem o patrão.

    UM PEQUENO SEDEIRO USADO EM ERMESINDE
    UM PEQUENO SEDEIRO USADO EM ERMESINDE

    O FIAR DO LINHO

    O fiar é um trabalho da responsabilidade das mulheres da casa. Uma cena idílica de se ver, nas noites de Inverno, com a família toda reunida à volta da fogueira, com as donas da casa de roca na mão, à luz da candeia. Era um quadro real do que, aqui, se desenrolava. Desses tempos perdura ainda na memória das nossas gentes, uma quadra(4) que mostra quão trabalhosa era esta fase:

    Ó Leça dos meus amores

    Ó Leça do meu penar,

    Tu, sem descanso, a correr.

    Eu, sem descanso, a fiar.

    Os instrumentos utilizados nesta operação são a roca, feita em cana e o fuso em madeira, com um terminal em metal, embora se usassem, aqui, outros de tipo diferente.

    Para carregar a roca, a estriga do linho é colocada ao comprido sobre os joelhos e a roca molhada com saliva, encosta-se a ela e roda-se com a mão direita, enquanto que com a esquerda se agarra a estriga, para evitar que as fibras fiquem enoveladas.

    Enfia-se o cabo da roca na anca, molhando-se novamente com saliva o indicador e o polegar da mão esquerda e destacam-se algumas fibras e torcem-se até formar uma pequena ponta de fio. Aproxima-se desta o fuso, pondo-o em seguida em movimento, com a mão direita. De vez em quando o fio é passado na boca, para o humedecer. Quando o comprimento do fio obriga a afastar demasiado o braço direito, interrompe-se a fiação e enrola-se esse pedaço do fuso.

    As rodas de fiar, no entanto, tornavam este trabalho mais rápido e mais fácil, pois representam em si mesmas uma certa evolução. Havia dois tipos de rodas que se distinguiam, genericamente, pela forma como eram movidas. Uma em que a roda de ferro ou madeira era accionada por uma manivela, sendo o seu movimento transferido, por meio de uma corda fina ao carretel do fuso, fazendo-o girar.

    O segundo tipo era mais elaborado e mais avançado tecnologicamente. O fuso é substituído por uma peça complexa que executa simultaneamente a torção e o enovelamento do fio. A roda é accionada por um pedal, o que facilita a vida à fiadora, permitindo-lhe, por um lado, que trabalhe sentada e por outro que fique com as duas mãos livres para distribuir as fibras.

    Feitas as meadas penduram-se na “loja”, onde, ao mesmo tempo que secam, ficam guardadas.

    O ENSARILHAR

    As maçarocas (nome dado ao fio enrolado no fuso), depois de saído daqui e da roca, são postas em meadas, através de um instrumento especial - o sarilho.

    Trata-se de um aparelho em madeira, com quatro hastes (pernas), tendo nas pontas umas peças mais saídas, chamadas «pombas» e que roda na vertical, que por sua vez está assente num suporte especial a que se dá o nome de «pé». Feitas as meadas, tiram-se do sarilho e guardam-se em casa.

    A COZEDURA DO LINHO

    A cozedura do linho pode-se fazer em forno ou nas próprias panelas. Na nossa terra usavam-se as duas formas, conforme se tornasse mais funcional tratar a quantidade de linho que tinham ao dispor nas meadas.

    A cinza é desfeita em água, nas panelas, até se formar uma massa espessa a que se dá o nome de «emborro», colocando-se, então, aí dentro, as meadas. Mantém-se a água em permanente fervura, acrescentando-a de quando em vez para compensar a evaporação e evitar que as meadas fiquem a descoberto. Uma colher de pau é muitas vezes usada para as apartar e mexer essa espécie de calda. A cozedura, ao lume, anda, geralmente, por um dia.

    Como é natural, quando se utiliza o forno o mesmo tem de ser aquecido, como se de broa se tratasse.

    Feito isto, limpa-se-lhe o chão e forra-se com palha para que as meadas se não queimem. Em algumas terras utilizam-se como lastro certas ervas, como por exemplo, o «perrexil»(5) . Dispostas criteriosamente as meadas, o forno é fechado e a sua porta é tapada, como no pão, com barro ou bosta, mantendo-se assim durante três dias.

    Feita a cozedura, por um processo ou por outro, tiram-se as meadas, lavam-se com sabão, preparando-as assim para uma nova fase.

    (continua)

    1-Este artigo (texto e foto) baseia-se na publicação do autor, “Ermesinde: Memórias da Nossa Gente”.

    2-Arrátel – medida de peso antiga, correspondente a 459 gramas.

    3-Soldada – acordo entre o lavrador e o criado contratado na «feira dos moços». Aí se acertava quanto o criado ia receber por mês.

    4-Quadra muito conhecida, na nossa terra e anotada, entre outros, por H. Beça, na Monografia de Ermesinde.

    5-Perrexil – planta herbácea da família das umbelíferas, muito vulgar no litoral do país.

    Por: Jacinto Soares

     

     

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