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Edição de 30-09-2020
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    Arquivo: Edição de 31-03-2019

    SECÇÃO: Destaque


    Mineração Romana em Valongo: um legado histórico em exposição

    Uma fantástica e enriquecedora “viagem no tempo” para conhecer um ímpar e precioso património. Foi um pouco esta a sensação com que saímos do Museu Municipal de Valongo após termos visitado a exposição “Mineração Romana em Valongo”, inaugurada em outubro passado e que estará patente até ao final deste ano. A exposição conta-nos a história da presença romana no território hoje conhecido como Parque das Serras do Porto, onde outrora existiu um dos maiores complexos mineiros subterrâneos de todo o império romano! Ao longo de uma cativante “viagem” ficamos não só a conhecer quem eram os Romanos, que legados culturais nos deixaram, mas também de que forma aqui exploraram o metal precioso. Estes foram alguns dos aspetos que nos foram explicados, de forma bastante pormenorizada, por Paula Machado, museóloga da Câmara Municipal de Valongo, que nos guiou nesta fascinante incursão a um passado com mais de 2000 anos.

    Fotos ALBERTO BLANQUET
    Fotos ALBERTO BLANQUET
    As boas-vindas a esta exposição são-nos “dadas” por dois Romanos, um legionário (um soldado comum) e um centurião (um dos primeiros oficiais na hierarquia do comando), que guardam a “estrela” desta mostra, e que serviu de mote para criar todo este espaço. Falamos de uma vistosa pepita de ouro, ou melhor da réplica de uma pepita, porque a original, por motivos de segurança, está bem guardada pelo Município.

    E essa pepita (com dois gramas de ouro) conduz-nos à primeira curiosidade desta visita. Segundo a museóloga da autarquia, esta raridade geológica terá sido encontrada num ribeiro na Serra de Santa Justa. Sobreviveu a diversos períodos complicados da História, como a II Guerra Mundial, sem que o seu proprietário se desfizesse dela.

    Pouco antes de morrer, esse cidadão valonguense revelou o seu sonho: doar aquela relíquia ao Município de Valongo. E assim foi. Doação que aconteceu sensivelmente antes da abertura do Museu ao público, em 2001. Esta história serviu então de ponto de partida para uma exposição que está dividida em duas partes, ou duas fases, por assim dizer.

    Uma primeira (no piso inferior) de contextualização. Quem eram os Romanos (?), quando aqui chegaram (?), que influências nos deixaram: a questão da língua, das práticas agrícolas, as leis, ou diversos objetos (dos mais diversos âmbitos) que exprimiam os seus hábitos e convivências sociais. É como que descobrir um Mundo novo através dos objetos que nos legaram. Pelo menos essa foi a sensação que nos invadiu à medida que íamos avançando na exposição. À vista saltou igualmente uma cronologia que ajuda a conhecer um pouco melhor a história dos romanos, desde a formação mítica de Roma, por Rómulo e Remo, no século VIII antes de Cristo, passando por vários períodos até ao início da expansão política em que os Romanos vão “chocar” com os Cartagineses, que, a par dos Romanos, eram na época as duas grandes forças a nível mediterrânico.

    A ROMANIZAÇÃO DA PENÍNSULA IBÉRICA

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    É então que os Romanos chegam à Península Ibérica, fixando-se na região que é hoje o sul de Espanha, uma zona muito ativa no que concerne ao comércio, até então dominada pelos Cartagineses, mas de que os Romanos rapidamente se apoderaram. Aos poucos avançam na Península, com maior ou menor sucesso, tal como aconteceu na hoje denominada região centro de Portugal onde se depararam com a resistência dos povos das montanhas e de um tal de Viriato, chefe dos Lusitanos. Estávamos no século II antes de Cristo. Perante esta adversidade os Romanos optam por dominar o resto da Península fazendo a viagem pela costa desta zona do continente, chegando então à região que é hoje denominada de Parque das Serras do Porto.

    Rapidamente percebem que esta é uma boa fonte de ouro... e como tal há que explorar esse metal precioso. Roma era já por estes dias o centro do Mundo, e os Romanos senhores de um vasto império, do qual gradualmente a Península Ibérica fez parte, com a submissão paulatina dos povos das montanhas. O que se seguiu foram seis séculos de romanização da Península. Mas Roma não se limitou a explorar economicamente este território. Durante a sua ocupação os Romanos desenvolveram uma ampla ação de romanização, isto é, modificaram as bases da economia, o tipo de povoamento (aos povoados das colinas da época castreja sucedem as cidades, em que a telha substituiu na cobertura das casas o colmo, por exemplo); introduziram novas técnicas de trabalho, lançam as bases da agricultura, rasgam-se estradas e constroem calçadas; mudam-se os costumes e a cultura; surgem as indústrias da olaria, pedreiras, tecelagem e a exploração mineira. E é aqui, no território das Serras do Porto, que os Romanos têm a sua maior “mina de ouro”. Há relatos de que os Romanos chegaram a esta zona no século I antes de Cristo, numa época em que o expansionismo do império dá lugar a um período de paz.

    VESTÍGIOS ROMANOS EM VALONGO

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    Em suma, na primeira fase desta exposição podemos perceber que os Romanos não estiveram aqui só a minerar, a explorar ouro tão necessário para cunhar os áureos (nota: moeda da época. Registe-se aqui a similaridade entre a palavra áureo e o nosso euro atual!) de modo a pagar a “peso de ouro” as suas legiões espalhadas pelo continente.

    Os objetos/documentos que compõem esta primeira fase da exposição mostram precisamente isso, a vivência e o quotidiano dos Romanos na sua passagem por estas terras. E como já foi dito atrás, essas marcas estão presentes na língua, na escrita, na habitação, nas técnicas de fazer roupa, ou nas técnicas agrícolas.

    Eles aproveitaram aquilo que de bom os povos castrejos já faziam e, com o tempo impuseram uma cultura nova da qual ainda hoje existem vestígios no nosso modo de vida. No rés-do-chão do Museu podemos ver objetos do quotidiano romano, como um oenokoé, que é um jarro em bronze de origem romana que era utilizado para servir vinho; algumas sítulas, que são peças em cobre semelhantes a um balde com aro de suspensão para retirar água dos poços, também de origem romana, entre outros objetos. De rara beleza são também as ânforas, que servem para o transporte de vinho e de outros líquidos, estando igualmente expostos fragmentos de vidro azul, o que nos leva à conclusão de que os Romanos só bebiam por copos de vidro e só comiam em baixela de qualidade. Pelo menos os que tinham mais rendimentos, pois o mineiro, propriamente dito, bebia água, percebendo-se isso através de mais alguns objetos ali expostos.

    Dois estratos sociais, aqui presentes. Há igualmente referências a instrumentos agrícolas aqui introduzidos pelos Romanos, como por exemplo, um arado em ferro.

    Esta primeira parte da exposição retrata pois a maneira de viver dos romanos, e mostra também que eles também aproveitaram os recursos aqui já existentes, como o xisto, por exemplo, utilizando esta matéria para peças de um jogo de tabuleiro, ou para fazer os pesos dos teares.

    No total, nesta primeira fase da exposição encontramos um conjunto de 17 peças/artefactos de valor patrimonial incalculável que saíram do Fojo das Pombas nos anos 60 do século passado, a uma profundidade de 42 metros, debaixo de quase 30 metros de entulho e que hoje constituem um “retrato” importantíssimo para contextualizar o quotidiano romano no nosso território.

    Contudo, não há ideia do número exato de homens que aqui terão trabalhado e vivido no tempo da “romanização”. Supõe-se que muitas centenas. E isto por uma simples explicação: não foram ainda descobertas nesta região necrópoles, se bem que os Romanos praticavam incineração, tendo aliás na zona da Corredoura (Campo) aparecido meia dúzia de vasos cinerários (com cinzas). Outra razão para desconhecermos o número de pessoas que aqui terão minerado e vivido, prende-se com o facto destes terrenos serem muito ácidos, e como estamos a falar de uma janela temporal de 2000 anos é muito provável que essa acidez tenha destruído os vestígios de ossadas humanas.

    (...)

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    Por: Miguel Barros

     

     

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