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Edição de 30-09-2020
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    Arquivo: Edição de 15-12-2018

    SECÇÃO: Destaque


    CICLO DE CONFERÊNCIAS JN TROUXE A ERMESINDE:

    O Poder da Felicidade

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    Inserido no ciclo de Conferências JN, em parceria com a Câmara Municipal de Valongo (CMV), realizou-se no passado dia 6, um debate sobre “O PODER DA FELICIDADE”, tendo como debatentes, o padre Anselmo Borges, o psiquiatra Júlio Machado Vaz e o economista Gabriel Leite Mota.

    Com o auditório do Fórum de Ermesinde a abarrotar, Pedro Ivo Carvalho, diretor adjunto do Jornal de Notícias (JN), abriu a sessão com as saudações costumeiras e antes de passar a palavra aos “pais” da iniciativa, perguntou: «Ser feliz é um conceito em mutação? Ser feliz é a mesma coisa que estar feliz? A procura incessante da felicidade, não pode ter efeitos perversos?». Passou a palavra citando Confúcio: “Escolhe um trabalho de que gostes e não terás de trabalhar um único dia”. Estava dado o mote para o que se seguiria.

    Domingos de Andrade, diretor do JN, enalteceu a parceria com a CMV e, numa intervenção com algum humor, que começou logo com o facto de a sala estar cheia – tem tudo para correr mal – agoirou, referiu a parafernália de publicações de auto-ajuda e glosou com os efeitos da dopamina. Para provar que a felicidade é relativa, instou José Manuel Ribeiro a baixar o IMI, as taxas e as taxinhas, para ver os seus munícipes felizes. Mas… ficariam todos felizes? E quando as bibliotecas começassem a fechar, ou os buracos da rua nunca mais fossem tapados?

    O presidente da Câmara Municipal de Valongo realçou a função do Canal JN na valorização da região e concedeu que esta iniciativa nasceu na sequência de muitas conversas tidas com o diretor do JN, que, invariavelmente, focavam assuntos do dia-a-dia, confusos, aborrecidos, pouco apelativos. Porque não discutir o ponto F (de Felicidade – por contraponto com o ponto G), desafiou. É preciso discutir as cores todas, atalhou. Do negro às mais coloridas. É complicado interpretar o sentir das comunidades, disse, daí a importância destes debates. Assim é a democracia. José Manuel Ribeiro não esqueceu a Constituição dos EUA (de 1787), que consagra o direito à “busca da felicidade” como um direito semelhante ao direito à vida ou ao direito à liberdade. Terminou a sua intervenção dizendo ser preciso o “toque de Midas”, após o que, afiançou estar o Município sempre disponível para prosseguir a discussão de temas que não se discutem.

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    De seguida, subiu ao palco César Mourão, que, ainda antes de abrir a boca, foi alvo de uma estrondosa salva de palmas.

    No entanto, não era a sua vez de brilhar. Quem brilhou, foram os catraios, de 9 e 10 anos, da Escola Básica do Outeiro e da Escola Básica da Retorta, que em registo vídeo, deram a sua opinião, certeiros e lapidares.

    O João, diz que felicidade é a «alegria de estarmos a conviver com os nossos amigos». Já a Bianca afirma com doçura: «o meu corpo fica mais quente». Por sua vez, o Dinis, não alinha em sentimentalismos e vai daí, sobre a felicidade, afirma: «é quando chega o Natal e à noite quando abro as prendas, recebo uma play station 4 com o jogo…». A Clarisse pergunta: «Sabes como fazer alguém feliz?». A Yasmine responde com um sorriso rasgado: «dando abraços e carinho». À mesma questão, responde o Rafael: «é ter liberdade e é quando não estamos bem e um amigo ajuda-nos e depois ficamos felizes». A Sofia confessa o que acontece, quando está feliz: «o meu coração vai explodir».

    Na sequência do vídeo, surge o depoimento do psicólogo Eduardo de Sá, onde, em relação às crianças, é possível respigar: «Nós queremos insuflá-las para a felicidade e não lhes damos espaço para errar, para aprender, para poderem estar tristes as vezes que quiserem e para, de alguma forma, nos desafiarem a pensar com elas. Às vezes os pais parecem espetadores comprometidos em relação à felicidade dos filhos. Eles não são espetadores: eles são a porta e a janela da felicidade dos filhos. Enquanto os pais não assumirem isto, puf!.., o mundo está virado de pernas para o ar». Bem podia terminar por aqui a sessão, pois a plateia já tinha matéria suficiente para meditar.

    Nova salva de palmas, não para os putos, que bem as mereciam, mas para o humorista, que entusiasmado com a receção, afirma,entre o categórico e o meio comprometido: «não há felicidade sem infelicidade». Habituado aos truques e habilidades de quem conhece palcos e plateias, interagiu com a assistência, que entreteve durante longos minutos. Fazendo o papel de médico, terminou a sua vinda a Ermesinde com um “improviso”, auxiliado por uma assistente saída da plateia, que, a seu pedido, ia fornecendo as letras com que iniciava as frases do seu discurso.

    O DEBATE...

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    Após um breve “intervalo para o café”, tem início o prometido debate.

    Acreditar na vida eterna é um salvo-conduto para a vida eterna? Foi a questão lançada pelo moderador e dirigida ao Padre Anselmo Borges. «É do Sagrado que esperamos salvação», disse, lembrando que, «como humanos somos o melhor e o pior». Admitindo que a felicidade, em sentido lato não existe, afirma que «às vezes fazemos experiências daquilo que, efetivamente poderá ser a felicidade, no seu sentido estrito. Essas experiências são aquelas feitas nos instantes de plenitude, perante a beleza, por exemplo, ou o amor. Instantes tangidos, tocados pela eternidade. Aí, nós sabemos que somos feitos para a plenitude».

    Plenitude foi a palavra que Júlio Machado Vaz pegou para início da sua intervenção. «Palavra ao mesmo tempo pesada e etérea. Implica simultaneamente bem-estar, e transcendente. Transcendente, não necessariamente no registo do divino, já que nós podemos transcender-nos. Ter a ideia que o podemos fazer, 7 dias por semana, 12 meses por ano, é de um otimismo extraordinário». Nesse sentido, concorda com o padre Anselmo Borges. Não acredita em felicidade, só acredita em momentos felizes. Aliás, lembra, quando há muitos anos, num programa televisivo, fez uma afirmação semelhante, viu toda a gente torcer o nariz. Hoje, já é comummente aceite. A busca é inerente ao ser humano. Confessando-se agnóstico, o psiquiatra, acredita que no dia em que a ciência descobrir a origem do universo, Deus morrerá. Naturalmente, as redes sociais não ficaram de fora da sua intervenção. Sem as exorcizar, tão pouco aos seus seguidores, lembrou que nós «nos construímos em relação aos outros», daí a necessidade, por muitos sentida, de mostrar a sua felicidade. No entanto, lembrando Eugénio de Andrade, alertou para os perigos “da procura de carniceiro”.

    Gabriel Leite Mota pegou na palavra dizendo que «devemos perseguir a busca pela felicidade e não pelos números». Na sua condição de economista verificou que ao longo do século XX, foi a procura do crescimento, dada pelo indicador PIB, que as sociedades perseguiram. No entanto, afirma, não é linear a relação PIB/Bem-estar. É natural, disse que quando os países mais pobres experimentam crescimentos do PIB, exista uma relação próxima entre esse crescimento e a satisfação que as pessoas estão a usufruir. No entanto, acentuou, a partir de certos montantes, essa relação tende a ser esbatida. Certamente os países mais ricos tenderão a ter povos mais felizes, porém não importa referir o montante de riqueza. O que conta é o que se faz com essa riqueza. Lembrou a propósito o Butão, que embora não seja um exemplo em termos de democracia, usa uma bitola alternativa, que é a FIB (Felicidade Interna Bruta) que tem em vista o bem-estar, o ambiente, a ecologia, a educação, a saúde, entre outros.

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    Nova ronda pelos intervenientes, com Anselmo Borges a esclarecer que o seu livro Deus/Religiões/(In)Felicidade não responde se as religiões contribuem para a felicidade. Evocou o conto “A camisa do homem feliz” para referir a importância de saber distinguir o ter e o ser, na hierarquia de valores. Faz falta o recolhimento no meio de tanto rebuliço, aconselhou. Por seu turno, Júlio Machado, à questão colocada sobre a relação entre o número de divórcios e a tolerância, admite que temos baixa tolerância à frustração, à tristeza, à angústia. Até porque, estamos a ser empurrados para lidar com os outros como produtos de consumo. Há 120 anos, inventamos o casamento por amor, quando até então só servia para fortalecer alianças. Isto foi uma revolução, disse, como que a provar que o conceito de felicidade varia ao longo dos tempos. Quis ainda deixar claro que é hipocrisia dizer que o dinheiro não dá felicidade. Pode não dar, admitiu, mas ajuda. Gabriel Leite Mota corrobora esta opinião. Os mais ricos, visto que têm maior poder de escolha, podem ser mais felizes. Os menos ricos veem diminuído o seu poder de escolha, o que os torna menos felizes. Quanto aos índices que medem a qualidade de vida e satisfação dos povos, referiu que Portugal, apesar dos queixumes, não estando perto dos lugares cimeiros (cujos líderes habituais são os países nórdicos), também não está próximo da cauda do pelotão. No entanto, é preciso mudar de paradigma, referiu. O bem-estar não é injetar mais dinheiro, mas sim dar mais tempo às pessoas. «Ainda há quem dê uma risada quando se fala de pôr a felicidade na lei. Os economistas do séc. XX, fecharam-se num casulo. Os do séc. XXI começam a falar com gente de outras ciências (filosofia, psicologia, sociologia…). É preciso estar em harmonia com as circunstâncias», concluiu.

    Terminada a sessão, todos saíram mais ricos, mesmo os que não fixaram o caminho ou o sentido da felicidade. Mas o Gonçalo de 9 anos, estudante no Agrupamento Escolar de Campo, lembra: «Felicidade, para mim é um aconchego, uma alegria». Mais à frente, com a voz embargada: «sou feliz quando dou um abraço, ou quando vejo a minha mãe».

    Por: Alfredo Silva

     

     

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