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Edição de 15-12-2018
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    Arquivo: Edição de 30-11-2018

    SECÇÃO: Destaque


    PEDRÓGÃO GRANDE FOI CAPITAL DA IMPRENSA

    Congresso promoveu a reflexão sobre a Imprensa Regional

    No primeiro fim de semana de novembro (dias 3 e 4) aquele que foi um dos mais castigados municípios do Pinhal Interior pelo incêndio de junho do ano passado recebeu o Congresso da Imprensa Regional, organizado pela ANIR (Associação Nacional da Imprensa Regional), com o apoio da Câmara Municipal local. “A Voz de Ermesinde” que integra também a ANIR, esteve presente.

    Com grande número de títulos presentes, alguns centenários, no Auditório da Casa Municipal da Cultura de Pedrógão Grande, houve tempo para refletir sobre a Imprensa Regional e Local, os desafios que se lhe colocam atualmente bem como as oportunidades que urge aproveitar.

    As primeiras palavras couberam naturalmente ao presidente da direção da ANIR, Eduardo Costa, que para além das boas vindas e dos votos de bom trabalho, justificou a escolha do local, como forma de solidariedade para com o sofrido povo pedroguense e fez uma referência a declarações recentes do Presidente da República, segundo as quais é importante que não se deixe morrer mais jornais. A imprensa regional e local dá informações que mais ninguém dá, porque tem a vantagem de estar mais próxima das pessoas e das suas tradições de raiz popular.

    A vice-presidente da Câmara Municipal de Pedrógão Grande, Margarida Guedes, que acompanhou os trabalhos ao longo de todo o dia 3 de novembro, usou da palavra para dizer ser uma honra para Pedrógão receber este Congresso e não se cansou de elogiar este tipo de imprensa por considerar que é das mais lidas e que para os autarcas é muito importante pois conhece bem as realidades locais de que faz eco, com muita regularidade. Aliás, afirmaria mesmo que nas terras de baixa dimensão não há qualquer hipótese de poder ser substituída. «Mas é preciso falar verdade» diria a autarca, algo queixosa de alguma imprensa que, por sensacionalismo ou gosto de polémica, nem sempre assim tem procedido. A fechar a sua intervenção diria ainda que tem um grande respeito pela imprensa regional, que promove o que de bom existe, mas também faz alarme do que está mal e deve ser corrigido.

    Lino Vinhal, presidente da Assembleia Geral da API (Associação Portuguesa da Imprensa) também interveio para dizer que a imprensa tem preocupações comuns e, em conjunto, pode e deve procurar soluções. De facto, o momento é difícil, como o é o das regiões do interior. Fazendo alusão ao local que nos recebia, afirmou que também Pedrógão Grande há 100 anos, e até há 50 anos, era muito diferente do que é hoje. Criticou os CTT que na distribuição dos jornais chegam a demorar 2 e 3 semanas e «isso é matar os jornais». Deixou, no entanto, palavras de esperança quanto ao futuro, declarando ser dos que acredita que a imprensa escrita não há de morrer.

    As intervenções de entrada terminaram com uma mensagem do Comissário Europeu, Carlos Moedas, gravada previamente, onde afirma a importância da imprensa regional pela proximidade com as comunidades locais, podendo fortalecer as relações com os cidadãos e dar-lhes voz. Recordou que este tipo de imprensa lhe diz muito, porque é filho do fundador e diretor do jornal “Diário do Alentejo” a quem muitas vezes ajudou a rever as provas tendo conhecido de perto o processo de impressão dum jornal, onde os pequenos caracteres de chumbo se transformavam em palavras. Mas reconhece as dificuldades com que se debate, nomeadamente com a falta de recursos financeiros e de colaboradores devido à precariedade da profissão e num tempo em que há a concorrência do on-line. Disse ainda, que devido às funções que exerce conhece bem a imprensa regional de vários países europeus, reconhecendo que a imprensa portuguesa conta com excelentes profissionais.

    1.º PAINEL:

    O DIGITAL

    DA ESQUERDA PARA A DIREITA: MANUEL CARVALHO (NO USO DA PALAVRA), MANUEL MONTEIRO, CORREIA FERNANDES, SALVATO TRIGO E JÚLIO MAGALHÃES
    DA ESQUERDA PARA A DIREITA: MANUEL CARVALHO (NO USO DA PALAVRA), MANUEL MONTEIRO, CORREIA FERNANDES, SALVATO TRIGO E JÚLIO MAGALHÃES
    Os trabalhos do Congresso continuaram com 3 painéis, o 1.º dos quais tratou da importante e pertinente questão do digital. Contou com excelentes comunicadores: Salvato Trigo, reitor da Universidade Fernando Pessoa; Manuel Monteiro, diretor da “Marktest”; Júlio Magalhães, diretor do “Porto Canal”; e Manuel Carvalho, diretor do “Público”. O moderador foi Correia Fernandes, da “Voz Portucalense”. Não havendo espaço para referir pormenorizadamente o conteúdo da intervenção de cada um, usamos um pequeno parágrafo, para uma curta síntese do que disseram.

    Salvato Trigo fez uma rápida história da evolução tecnológica a que se tem assistido nos últimos anos e que também se fez sentir na imprensa que recorre cada vez mais aos meios digitais, uma vez que eles «anulam as distâncias tempo e espaço» o que se torna um atrativo, podendo ser usado como reduto e mercado de cidadania, arma eficaz contra o monopólio do poder. Criticou o sensacionalismo de alguma imprensa, para concluir que «a verdade nem sempre vende».

    Manuel Monteiro, como diretor da “Marktest” divulgou dados que não deixaram dúvidas em ninguém, nos últimos oito anos (2010-2018), o acesso à internet, seja em computador, tablet, telemóveis ou até televisão, não tem parado de crescer, em todas as faixas etárias, sendo que em Portugal, só no mês de agosto de 2018, houve 40 milhões de visitantes únicos, num universo de 6 milhões de portugueses que têm acesso à internet. Os “media” são acessíveis em qualquer lugar e em qualquer plataforma. Mais de 63% dos utilizadores de vários canais leem notícias on-line e mais de 61% nas redes sociais.

    Júlio Magalhães, diretor do Porto Canal afirmou-se um regionalista convicto criticando a centralização da comunicação social em Lisboa, onde há 20 canais de televisão enquanto no Porto há apenas um (Porto Canal). Quanto aos jornais, praticamente a mesma disparidade, vários diários, enquanto o Porto tem um, o “Jornal de Notícias”. As regiões precisam de ser criadas e precisam de meios de comunicação para existirem. «A comunicação social só veio a Pedrógão por causa dos incêndios e por causa da construção das casas, só vêm quando há polémica! Mas há coisas muito interessantes que acontecem no interior e precisam de ser conhecidas». E, como exemplo, referiu uma determinada Exposição que se fez na Guarda e que teve mais de 100 mil visitantes, incluindo portugueses e espanhóis, se fosse no Porto ou em Lisboa, provavelmente o n.º de visitantes não chegaria à centena. Criticou ainda o preconceito de se considerar que o que se faz em Lisboa é nacional, o resto é regional. Constatou, também, que em muita comunicação da capital, os protagonistas são quase sempre os mesmos, num lado são cronistas ou articulistas, para no outro se apresentarem como comentadores. Na sua perspetiva considerou que o digital, apesar das suas inegáveis potencialidades, ainda demorará a dar retorno. Disse que continua a gostar dos jornais em papel, até porque também trabalhou no extinto “Comércio do Porto”. Concluiu afirmando que não há país que possa viver sem jornais, pois «eles fazem parte da Humanidade, em termos políticos, culturais, económicos e patrimoniais».

    Encerrou este 1.º painel, o diretor do “Público”, Manuel Carvalho, que declarou, logo de início, ter uma visão mais otimista do digital do que o orador que o procedeu, considerando que a imprensa local e regional pode e deve aproveitar a era do digital. Deu o exemplo do “Público” que tem cerca de uma dezena e meio de milhares de leitores on-line pagantes e que no mês de junho de 2018, teve à volta de 14 milhões de “visitas”, sem contabilizar os acessos aos conteúdos do jornal, no Brasil (um mercado de 210 milhões de pessoas). Na sua explanação falou de casos de títulos consagrados da imprensa inglesa e norte-americana que têm tido no digital a sua “tábua de salvação”.

    No momento das conclusões relativamente a este painel ficou claro que o digital é o futuro, mas a verdade da notícia deve ser sempre a prioridade do jornalista e não propriamente os lucros do negócio.

    2.º PAINEL: A PROMOÇÃO

    DA LITERACIA MEDIÁTICA

    DA ESQUERDA PARA A DIREITA: CATARINA MENEZES, MARCO GOMES, ROSÁLIA VARGAS, FILIPE RIBEIRO, PAULA SOFIA LUZ (NO USO DA PALAVRA) E NUNO ALEXANDRE FRANCISCO
    DA ESQUERDA PARA A DIREITA: CATARINA MENEZES, MARCO GOMES, ROSÁLIA VARGAS, FILIPE RIBEIRO, PAULA SOFIA LUZ (NO USO DA PALAVRA) E NUNO ALEXANDRE FRANCISCO
    O 2.º painel, já da parte da tarde, contou com oradores de igual relevância ao 1.º painel. Foram eles, Nuno Alexandre Francisco, da Universidade da Beira Interior e diretor do jornal do Fundão; Catarina Menezes e Marco Gomes, do Instituto Politécnico de Leiria; Rosalia Vargas, presidente da Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica – Ciência Viva e Paula Sofia Luz, da direção do Sindicato de Jornalistas. Moderou o painel, Filipe Ribeiro, do jornal “Notícias de Aguiar”.

    Nuno Alexandre Francisco com uma grande ligação académica e profissional à comunicação escrita trouxe ao Congresso um tema bastante atual, a recorrente questão das “fake news”, isto é, a forma de espalhar informações deliberadamente distorcidas ou falsas nos meios de comunicação com objetivos inconfessáveis de perturbar a verdade obtendo dividendos de carácter económico ou político. Apelou, pois, aos jornalistas presentes para a importância da averiguação e divulgação da verdade. Quanto ao trabalho jornalístico, em si, constatou o que todos sabemos, é que, atualmente, para obter a atenção dos leitores/espetadores tem de se diminuir o tempo e, na versão escrita, diminuir as palavras e aumentar o espaço das imagens.

    Paula Sofia Luz, do Sindicato de Jornalistas, que trabalhou em jornais que já desapareceram, como o “Eco de Pombal”, falou da literacia mediática e lamentou estarmos até num concelho que já não tem jornais e lembrou alguns títulos existentes na região e já desaparecidos como “A Comarca” e “O Castanheirense”. Referiu-se ainda ao projeto “Roteiro” do Sindicato que promove o encontro com jornalistas da imprensa regional para ouvir as suas preocupações e sugestões.

    Rosalia Vargas, da Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica – Ciência Viva, falou da ciência na Imprensa Regional, falando de um projeto de parcerias com investigadores, desde agosto de 2011, que já permitiu a disponibilização online de milhares de artigos que tratam vários temas, da Biologia à Astronomia, a que os jornais podem aceder e publicar gratuitamente.

    Usaram da palavra, a seguir, Catarina Menezes e Marco Gomes, do Instituto Politécnico de Leiria. A primeira colocou a interrogação no papel que cabe aos “média”, que, de facto o que fazem é a construção de representações da realidade. Falou da identificação das notícias, da cobertura de eventos e da influência do público na definição da agenda jornalística. Marco Gomes falou da cultura da legalidade, da visão crítica que transparece na imprensa e referiu-se aos mafiosos para também afirmar que eles estão entre nós, conforme resulta de uma pesquisa feita em jornais portugueses, consultados nos anos 2016 e 2017.

    3.º PAINEL:

    A VOZ DOS SEM VOZ

    DA ESQUERDA PARA A DIREITA: DEOLINDA ALMEIDA, HEITOR DE SOUSA, MANUEL MACHADO, ÁLVARO NETO, ANTÓNIO FILIPE E SUSANA LAMAS (NO USO DA PALAVRA)
    DA ESQUERDA PARA A DIREITA: DEOLINDA ALMEIDA, HEITOR DE SOUSA, MANUEL MACHADO, ÁLVARO NETO, ANTÓNIO FILIPE E SUSANA LAMAS (NO USO DA PALAVRA)
    O 3.º painel, a encerrar o Congresso, em termos de palestras, contou com a participação, sobretudo, dos políticos. Estiveram presentes, Susana Lamas, deputada do PSD; António Filipe, deputado do PCP; Manuel Machado, na sua qualidade de Presidente da Associação Nacional de Municípios Portugueses; Heitor de Sousa, deputado do Bloco de Esquerda; e Deolinda Almeida, diretora do Centro de Formação de Jornalistas. Foi moderador Álvaro Neto, do jornal “Gazeta” de Paços de Ferreira.

    Falou em 1.º lugar, Susana Lamas, do PSD, que se congratulou com a escolha do local para este Congresso, uma vez que traz a solidariedade ao povo sofrido de Pedrógão Grande. Relativamente à Imprensa Regional disse que o seu partido tem o maior respeito pela comunicação social pluralista, bem formada, inclusiva, que é basilar para o regime democrático. Uma comunicação social forte pode e deve contribuir para um desenvolvimento mais harmonioso do todo nacional. Lamentou, por fim, que o governo no Orçamento de Estado não preveja incentivos para a Imprensa Regional e Local.

    António Filipe, do PCP, considerou a imprensa regional uma riqueza enorme, com quem tem uma ligação umbilical, sobretudo ao “Notícias da Amadora”, um jornal que teve um historial de resistência à ditadura, e onde trabalharam pessoas que se tornaram figuras relevantes depois do 25 de Abril. Recordou problemas com a censura e a prisão do diretor e redator Sérgio Ribeiro que seria substituído por Carlos Carvalhas. Ele próprio escreve um artigo de opinião que sai mensalmente no jornal “Correio do Ribatejo”. Reconheceu as dificuldades com que se debate a imprensa regional, falando do perigo, em termos de condicionalismos editoriais, com a publicidade camarária, considerando que o maior trunfo da imprensa regional é a sua proximidade às comunidades locais.

    Manuel Machado, presidente da Câmara de Coimbra e aqui na qualidade de Presidente da Associação Nacional de Municípios Portugueses teve uma experiência profissional, como tipógrafo do “República”. Considerou os jornalistas e os políticos como profissões de risco e contou como em Coimbra todos os jornais foram igualmente apoiados pela autarquia, ao divulgarem as deliberações do executivo e da assembleia municipal. Em sede da ANMP irá falar nas dificuldades com que se debate esta imprensa, que também considera muito importante pela sua ligação às comunidades locais.

    Heitor de Sousa, do BE, destacou a relevância desta imprensa, que é “a voz dos sem voz”, levando as notícias aos que estão longe dos locais onde nasceram, noticiando o que mais ninguém noticia. Referiu-se à queda da publicidade, às novas tecnologias, à concorrência do digital, como os maiores problemas que afetam esta imprensa. Disse ser necessário repensar as políticas públicas para com a comunicação social e louvou a resiliência dos que vão conseguindo resistir. Insurgiu-se contra o mau serviço postal dos CTT que não garante, como devia, o serviço público universal postal e ainda vem fechando dezenas de estações dos CTT em todo o país.

    Por último, falou Deolinda Almeida, do CENJOR, assumindo-se como único centro de formação profissional, com sede em Lisboa, mas que vai a todo o lado, sempre que haja necessidade de dar formação, logo que se verifiquem as condições para ela ocorrer e que passa por constituir um grupo de 15 formandos. Deu exemplo de várias formações, com temáticas como “as redes sociais”, “gestão de assinaturas online”, “formação em vídeo ou TV” ou outras que podem ser dadas se houver condições para isso.

    No final de cada painel houve intervenções por parte de alguns congressistas que se encontravam na plateia, cheia de interesse, mas que por falta de espaço não podemos reproduzir aqui.

    Este Congresso da Imprensa Regional, cuja organização é merecedora dos maiores elogios prosseguiu à noite, com um jantar alusivo à tragédia dos incêndios de 2017, contando com alguns depoimentos feitos na 1.ª pessoa, como foi o caso da vice-presidente da Câmara de Pedrógão Grande, ou dos escuteiros que contaram como foram ajudando no socorro às pessoas nos dias seguintes à tragédia.

    E no domingo de manhã (dia 4), os congressistas tiveram a oportunidade de visitar “in loco” as aldeias do concelho que foram mais afetadas pelo fogo, verificando que as casas que eram primeiras habitações estavam praticamente todas reconstruídas e os seus moradores realojados. A paisagem, essa continua negra a mostrar de forma bem evidente o inferno que foram aqueles dias de meados de junho de 2017.

    Por: Manuel Augusto Dias

     

     

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