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Edição de 31-03-2020
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    Arquivo: Edição de 31-07-2018

    SECÇÃO: Crónicas


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    PASSEIOS DE BICICLETA À DESCOBERTA DO PORTUGAL REAL…

    Negro, Negro até ao horizonte!

    "Deixei de pedalar, travando até, de estarrecido que fiquei. Os rails eram negros, o alcatrão derretido junto da berma, solidificou como se tivessem pintado a estrada. Parei. Os meus olhos procuraram com inquietação encosta acima e, pelos vales, outra cor que não fosse aquela negritude."

    Tudo começou com um desafio.

    Vamos buscar uma bicicleta ao bike tour Porto? Não respondi de imediato. Não sabia andar bem de bicicleta, já não me lembrava da última vez que me tinha sentado num selim. Sim era bastante jovem.

    Não me digas que não sabes? Voltou ele à carga. Isso é vergonhoso. Não há ninguém que não saiba. Olhei-o fixamente e as palavras soltaram-se da boca sem minha autorização. Ok! Vamos lá buscar as ditas. Mal cheguei a casa telefonei ao meu sobrinho. Luís, emprestas a tua bicicleta ao tio por umas semanitas? Do outro lado recebi a resposta concordante.

    Uns dias na estrada sem movimento automobilístico, a fazer dela quase um "voador" como se de uma criança se tratasse a aprender a andar. O equilíbrio estava conquistado, agora era mantê-lo com os movimentos dos pedais. Pronto, vamos lá buscar a dita, desde que tenha algum espaço livre já não caio nem provoco quedas.

    Depois de "burro velho" fiquei viciado nos passeios que dava aos fins-de-semana. Se falhasse algum ficava ansioso a aguardar pelo próximo. A quilometragem ia aumentando. Não que seja bom ciclista, antes pelo contrário, limito-me a fazer força nos pedais e a ir mudando as velocidades consoante o menor esforço que consiga. Tinha que alargar os horizontes ou, melhor dizendo, aumentar os quilómetros por estradas que nunca tivesse percorrido.

    Em 2017 percorri a mítica estrada nacional N.º 2. A terceira maior do Mundo, com a extensão de 738,5 Km, da cidade de Chaves a Faro, através de 11 distritos e 34 concelhos.

    AS PAISAGENS DO PINHAL INTERIOR FICARAM PINTADAS DE NEGRO
    AS PAISAGENS DO PINHAL INTERIOR FICARAM PINTADAS DE NEGRO
    Ora a estrada nacional N.º 2 atravessa Pedrógão Grande,onde ocorreu o devastador incêndio há um ano (17/06/2017), pois eu passei por lá nos primeiros dias de agosto de 2017.

    Na véspera acampara na lindíssima vila de Góis, cortada pelo rio Ceira. Rio de águas límpidas e pouco profundas, com praias artificiais. Nele se caminha com água pelo joelho ou por meio das coxas, com os peixes a nadarem ao nosso redor. Mas tinha que me por a caminho. Há sempre o vício de inquirir como é a estrada!? Para quê? Se a temos que fazer! Coisas.

    Fui informado da quilometragem e com ar de malandro lá me foi dizendo: - Vai ter uma boa etapa, a subida de 17 km começa mal saia de Góis. Assim foi. Subida constante, feita pela fresca da manhã. O arvoredo também ajudava a esconder o sol que entretanto tinha despertado. Após uma subida, e a estrada rasgando as entranhas do monte, mudei para a pedaleira maior à procura de maior velocidade, na descida que se adivinhava, para me vingar da lentidão da subida e eis que, de repente, me vejo noutro mundo.

    Deixei de pedalar, travando até, de estarrecido que fiquei. Os rails eram negros, o alcatrão derretido junto da berma, solidificou como se tivessem pintado a estrada. Parei. Os meus olhos procuraram com inquietação encosta acima e, pelos vales, outra cor que não fosse aquela negritude. Percorri as bermas à procura da mais ínfima flor, da mais pequena ilha de erva verde. Mas o que viram os meus olhos? Negro, Negro até ao horizonte. Troncos abandonados das suas folhagens e das raízes, atirados ao solo em todas as posições que o vórtice do fogo os deixou. Subi para o selim. Mas por ter uma sensação estranha desmontei e por ali fiquei parado em silêncio. Sim era isso. O Silêncio. Não se ouvia o canto de uma ave, a brisa nas folhagens, nada, absolutamente nada.

    Desci em direção a Pedrogão, lentamente, pensando se nós, ao criticarmos por vezes os bombeiros, não estamos a ser um pouco assassinos, no pensamento, a pedir que eles apaguem estes fogos? Quem entrasse ali estaria desde logo condenado. Sempre houve temperaturas elevadas, matas por limpar e muito menos fogos. Hoje sabemos que a área queimada foi de 53.000 ha e que vitimou 66 pessoas. Fogo Posto?

    Passei por Pedrógão e não parei, segui pela barragem de Cabril, subindo para Pedrógão Pequeno onde parei num café. Pedi um sumo e um dos bolos mais doces que tivesse. Em reposta apanhei um ralhete. A estas horas a comer um doce em vez de almoçar? O meu marido está a chegar e vai fazer-nos companhia. Escusei-me, agradecendo. Mas eis que chega o marido e questiona-me: - Em sua casa não é a esposa que manda? Não temos outro remédio, senão acatar as suas ordens. Vai um copito de tinto?

    Por: Manuel Fernandes

     

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