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Edição de 31-03-2020
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    Arquivo: Edição de 31-07-2018

    SECÇÃO: Crónicas


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    As peúgas desaparelhadas

    De repente lá surge a figura franzina da menina com as peúgas desaparelhadas que trazia calçadas. Não passava despercebida a ninguém, ainda mais que o contraste de tonalidade na cor se salientava a olhos vistos. Muito próximo dos seus 27 anos de idade e ela não abria mesmo mão do hábito que já se tornara na sua imagem de marca. Sorria esta menina e explicava que quem dela gostava aceitava esta sua irreverência - a única extravagância com que se identificava, dizia ela.

    Não era o facto de ser "maior de idade" que levava a que a sua mãe respeitasse esta forma livre que ela tinha de se posicionar perante o pandã que faz parte do nosso conceito de harmonia e estética. Porque tudo o que é diferente incomoda, também a sua mãe tinha tentado dar a volta a esta mania. Um dia deita-lhe ao lixo todas as peúgas desaparelhadas e substitui-as por novas, de cor que não comprometem e iguais para que a tentação desaparecesse. Infrutífero. Passados alguns dias lá andavam uns pés esguios calçados com peúgas diferentes uma da outra - teimosas, como a sua menina.

    Teve que se render a sua mãe. Afinal, esta menina que há muito lhe tinha saído do regaço merecia a sua liberdade. Nem foi preciso muito para apelar à sua memória o respeito que este ser, sempre franzino lhe granjeou desde jovenzita. Em lutos sucessivos porque tinha passado (que iam desde a mana mais velha que voava para fora do ninho, o "Pongo" que com ela tinha crescido e partia à guarda de um canil, a despedida abrupta da avó que a tinha amado por mais do que duas mães e por aí fora) eis que de repente lhe surge o luto mais agressivo de todos - um amor que ele pensava concentrado num "dois em um" e que de repente se rachava em dois.

    Ainda estava ela a aprender a suster-se em pé, numa juventude precoce quando lhe "saía na rifa" a tarefa mais difícil de todas - aprender como gerir e dividir equitativamente um amor filial por dois, em pessoas que passavam a ser distintas, tal como as cores das suas peúgas, mas que nunca seriam fator impeditivo de a fazer caminhar.

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    Ao fazer esta recuada no tempo percebeu a sua mãe que a coragem de que esta menina precisou para enfrentar olhares reprovadores neste "mau gosto" de combinação da cor das suas peúgas terá sido crucial para a ajudar a enfrentar os estigmas, julgamentos, tentativas de manipulação de sentimentos, devassa nas paredes da sua alma e a que socialmente se passa a estar sujeito, se o "sujeito" não tiver a capacidade de driblar este lixo tóxico para passado.

    Não é de surpreender que na lembrança de um aniversário que se avizinha apareça um pequeno embrulho com um ou dois pares de peúgas - desaparelhadas. Simbolizarão a tal coragem de se ser diferente. A lição de que a vida quase nunca funciona em pandã. A capacidade de se gerir a equidade em sentimentos profundos como será o do amor de um filho, quanto tem que o multiplicar por dois. O respeito pelos caminhos que passam a ter novas e diferentes escolhas.

    Aquela mãe, percebeu também olhando para a sua menina, a ver a qualidade de um ser humano edificado sobre si mesmo e assente em pés bem firmes no chão, do qual emergem uma meras peúgas desaparelhadas - coloridas, berrantes e alegres, que também gosta de concertos, numa cabeça por vezes demasiado consertada para a sua idade pelo invulgar conceito de família que sempre defendeu de forma acérrima, pelo sentido de responsabilidade elevado, pelo respeito que lhe merece "o outro" e por uma autonomia que também cedo se transformava no estandarte que orgulhosamente carrega, ladeada porque quem a adota, igual a si mesma.

    "Na vida é preciso ter coragem para ser diferente e competência para fazer a diferença" (Ângela Beirão).

    Por: Glória Leitão

     

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