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Edição de 31-10-2018
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    Arquivo: Edição de 30-06-2018

    SECÇÃO: Desporto


    ENTREVISTA COM O CRIADOR DA LIGA DE FUTEBOL POPULAR DE VALONGO

    Futebol popular evidencia-se no panorama desportivo concelhio

    Apesar de ser órfão do mediatismo e das luzes da ribalta que o seu "homólogo profissional" centra em si, o futebol amador - ou futebol popular - arrebata não apenas paixões despidas de interesses monetários, mas de igual modo dá vida ao movimento associativo no seu estado mais puro e voluntarioso. Ainda em jeito de comparação com a vertente profissional do "desporto rei", o futebol popular não deixa de ser igualmente empolgante, bem jogado e bem organizado.

    Foi um pouco isto o que se viu ao longo da última época desportiva no nosso concelho, no seio da Liga de Futebol Popular de Valongo (LFPV), organismo que em 2017/18 viveu a sua temporada de estreia nos relvados concelhios. No sentido de conhecermos um pouco melhor o fenómeno do futebol popular no Concelho de Valongo, estivemos à conversa com o mentor e homem dos "sete ofícios" da LFPV, João Moreira.

    Foto CANAL REGIONAL DE VALONGO
    Foto CANAL REGIONAL DE VALONGO
    Costuma-se dizer que o futebol é o "ópio do povo", um chavão metafórico que exprime bem a fervorosa devoção que a quase generalidade do globo terrestre nutre pela modalidade. Seja profissional ou amador, o futebol é encarado com vincada paixão não só por quem o pratica como também por quem a ele assiste. E já que falamos na vertente amadora, que é o que nos leva a escrever estas linhas, quem não se lembra do hoje extinto Campeonato de Amadores da Associação de Futebol do Porto, que durante quase cinco décadas (entre 1964 e 2012) transpôs para os poeirentos pelados da Cidade Invicta - e arredores - efervescentes jogos que traziam ao de cima a essência popular de diversas zonas da região.

    Duelos futebolísticos que atraíam multidões, que mesmo privados do conforto dos "estádios do profissionalismo" não perdiam a oportunidade de assistir a clássicos como o "Passarinhos da Ribeira - Mocidade Invicta", "Sporting de S. Vítor - Futebol Clube Os Ribeirenses", ou o “Marechal Gomes da Costa - Paraíso da Foz".

    Com o fim desse mítico campeonato, começaram a surgir em diversos concelhos, não só do Distrito do Porto como de outros distritos vizinhos, os campeonatos de futebol popular, ou amador, como lhe queiram chamar.

    Campeonatos onde o tal povo dá azo a esta sua paixão pelo jogo, defendendo com garra a camisola da equipa da sua rua, do seu bairro, ou da sua freguesia.

    VALONGO ADERE

    AO FUTEBOL POPULAR

    Fotos ALBERTO BLANQUET
    Fotos ALBERTO BLANQUET

    Bom, como já referimos na introdução deste texto, a época de 2017/18 marca a estreia da Liga de Futebol Popular de Valongo (LFPV), um organismo idealizado e fundado por João Moreira, uma figura com longa e larga tradição no nosso concelho no que toca à organização de torneios de futebol (de 11 ou de 7). Muitos desses torneios foram feitos sem apoios nenhuns, conforme recorda João Moreira ao nosso jornal, apenas com o entusiasmo e paixão pela modalidade. Todas as histórias têm um início, e a LFPV também teve o seu. Ciente e conhecedor de que o Concelho de Valongo é terra de muitos praticantes no que diz respeito ao futebol popular, atletas que defendiam as cores de vários clubes amadores locais que estavam a competir em ligas populares de outros concelhos, como Gondomar, Penafiel, ou Ovar, João Moreira concebeu a ideia de criar uma liga por estas bandas. «Valongo tinha várias equipas de futebol de 11 amador a competir noutros concelhos. A minha própria equipa, o Fame, jogava numa liga em Ovar, porque aqui no concelho, e até há bem pouco tempo, não havia campos disponíveis para jogarmos e nesse sentido tínhamos de fazer grandes deslocações para praticarmos futebol. Até que no final da época passada, e atendendo a que havia tanta gente neste concelho a querer praticar futebol, resolvi contactar a Câmara Municipal de Valongo (CMV) no sentido de lhes mostrar a minha intenção de criar uma liga de futebol popular no escalão de seniores, pois todos os concelhos aqui à volta já tinham uma competição dessas. A Câmara gostou da ideia e apoiou-nos com a cedência dos campos municipais», recorda João Moreira, que além de mentor da liga é um homem dos "sete ofícios" dentro da organização, onde faz um pouco de tudo, até «moço de recados sou» (risos).

    Estava dado o tiro de partida para a LFPV, a qual arrancou com 10 equipas, sendo que a esmagadora maioria delas é oriunda do nosso concelho, a saber: o Fame (de Sobrado), o Vilar (também de Sobrado), o Gandra (igualmente de Sobrado), o Calvário (Sobrado), a Ribeira (Campo), o Núcleo Cultural e Recreativo de Valongo (da sede do concelho, como o nome indica), o Clube Desportivo da Palmilheira (Ermesinde), o Mitra (também de Ermesinde), o Recarei (vinda daquela freguesia do concelho de Paredes) e os Ases da Constituição (da cidade do Porto). Foram estes os integrantes da primeira edição do campeonato da LFPV.

    Em jeito de balanço, João Moreira diz que para um primeiro ano «correu bem, embora tivéssemos um ou outro jogo que correu menos bem, mas isso é normal no futebol. Esta primeira época superou as nossas espetativas, pois pensávamos que ia ser muito mais complicado, já que estamos a falar de 10 equipas, cinco jogos por semana, no escalão de seniores, onde os jogadores são adultos, o que por vezes implica mais confusão, pois se fossem atletas das camadas jovens eles obedeciam muito mais facilmente, mas como ando nisto há alguns anos e já ganhei um pouco de prática, acabamos por conseguir orientar bem as "coisas" e tudo acabou por correr bem».

    A boa experiência deste ano de estreia faz antever uma segunda edição ainda melhor, já que a LFPV tem sido sondada por algumas equipas de fora que vêm demonstrando interesse em aqui competir na próxima temporada. «Vamos ver se para o ano alargamos o campeonato para 14 equipas», diz o mentor desta organização.

    EMOÇÃO ATÉ AO FIM

    NO RETÂNGULO DE JOGO

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    Esta primeira edição do campeonato da LFPV foi ganha de forma emocionante pela turma da Ribeira, que lutou "taco a taco" até á última jornada com o Vilar pelo título de campeão. As duas equipas terminaram com os mesmos números de pontos (46), mas o emblema de Campo levou a melhor no confronto direto. E tudo se decidiu na última jornada, no Estádio Municipal de Campo, onde o empate bastava ao Vilar para fazer a festa. Contudo, empurrado pelo seu público o combinado da Ribeira venceu o seu rival direto por 3-0 e entrou na história como o primeiro campeão da Liga. «Foi um campeonato equilibrado. O Vilar, no principio de época, estava em forma, mas depois decaiu um pouco na parte final, enquanto que a Ribeira foi o contrário, ou seja, não começou bem, mas cresceu na reta final do campeonato».

    Na cauda da tabela do campeonato ficaram as duas equipas de Ermesinde, o Palmilheira (9.º) e o Mitra (10.º), ao passo que a encerrar o pódio ficou a equipa de João Moreira, o Fame. Turma esta que teve igualmente motivos para sorrir neste final de época, já que viria a vencer a Taça da Cidade de Valongo, a segunda competição mais importante da LFPV, uma espécie de Taça de Portugal, como explica João Moreira, que viu então a sua equipa levantar o "caneco" após vencer na final, por 4-1, o Calvário.

    Nesta primeira temporada de vida da LFPV estiveram envolvidos 287 jogadores (muitos deles com experiência no futebol federado), com idades compreendidas entre os 18 e os 40 e "tal anos". Requisitos para competir existem alguns, como por exemplo o facto de cada clube ter de pagar uma inscrição e os jogadores terem de fazer um seguro, tal e qual como numa qualquer associação de futebol. Ah, e também é preciso pagar (a presença) aos árbitros, também eles amadores e/ou ex-homens do apito, sendo que alguns «têm algumas manhas (risos) e por isso tivemos de correr com eles», lembra João Moreira.

    HORÁRIOS TARDIOS

    AFASTAM PÚBLICO

    Como já foi referido, e de acordo com as palavras do nosso interlocutor, para uma primeira época as coisas correram bem, no entanto, houve um senão: a falta de público (em número elevado) nos jogos. Este aspeto pode ser explicado, por um lado, pelo facto de esta ser uma organização nova, pouco conhecida ainda, embora João Moreira tenha dito que com alguma publicidade que ao longo da temporada foi sendo feita quer no Canal Regional de Valongo (o canal de televisão on-line parceiro da LFPV) e na página oficial do facebook da organização, a pouco e pouco as provas começaram a ser faladas e conhecidas. Por outro lado, o facto de os jogos - de cada jornada - serem realizados aos sábados ao final da tarde acaba por afastar o público. «No inverno, às 18H00, já é noite, e com o frio e chuva é normal que as pessoas não se desloquem aos estádios nessas alturas», diz. Relembra que os horários tardios dos jogos se devem essencialmente ao facto de os clubes que habitualmente jogam (futebol federado) nos estádios do concelho ocuparem todos os tempos (de utilização) com as suas equipas (de vários escalões), ficando os clubes da LFPV com as sobras! É pois objetivo da organização para a próxima temporada desportiva realizar os jogos um pouco mais cedo, no sentido de cativar mais público.

    MUNICIPALIZAÇÃO

    DE ESTÁDIOS FOI BENÉFICA

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    A não muito distante (no tempo) municipalização dos estádios de Ermesinde e de Campo - os quais se juntaram aos já municipais Estádio de Sobrado e Estádio de Valongo - trouxe grandes benefícios à LFPV. Desde logo porque os clubes amadores têm agora um espaço no seu concelho para praticar futebol de 11, sem precisar de ir competir para ligas vizinhas, como dantes. «Estes novos espaços (estádios) municipais vieram beneficiar a liga, vieram dar condições para desenvolver o nosso projeto, além de que vieram beneficiar a população que gosta de jogar futebol nos tempos livres, já que em clubes como o Ermesinde 1936, o Sobrado, o Sporting de Campo ou o Valonguense não o podem fazer porque esses clubes têm equipas seniores federadas, algumas com jogadores que vêm de fora e até são remunerados e a população (em geral) ali não pode jogar. Aqui sim, nesta liga podem jogar. Na LPFV o povo está a jogar futebol».

    Mesmo com a maior parte dos atuais campos relvados de futebol de 11 do concelho a estarem sob a gestão da autarquia, não foi fácil a esta organização arranjar períodos de tempo (para jogos e treinos) para levar a "carta a Garcia". «Foi uma luta", recorda João Moreira, explicando que "os clubes pensavam que por jogarem ali os estádios eram só deles, esquecendo-se que agora é a Câmara que gere esses espaços. No início tivemos muitas chatices com os clubes que atuam nesses estádios, mas agora tudo ficou bem, está tudo na paz do Senhor (risos)».

    Outra novidade no âmbito do futebol popular é a criação da seleção concelhia. Isto é, a LFPV tem a sua própria seleção, composta pelos melhores jogadores de cada um dos 10 clubes que participaram no campeonato e na taça, sendo que este grupo esteve em ação em finais de maio e principio de junho no III Torneio de Seleções (concelhias) da Federação de Futebol Popular do Norte - entidade à qual a LFPV e outras organizações idênticas estão filiadas. Apesar de os resultados terem ficado aquém do esperado - duas derrotas, com as seleções de Penafiel e Guimarães, e um empate com o selecionado de Santo Tirso -, João Moreira tem esperança de que para o ano a seleção do nosso concelho vai estar mais forte e chegar mais longe na competição da federação.

    SEDE PRECISA-SE

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    Com a conversa a chegar ao fim foi tempo de projetar o futuro, tendo João Moreira sublinhado de pronto que um dos grandes objetivos da LFPV para a próxima temporada passa, em primeiro lugar, por arranjar uma sede própria, dando assim um cariz mais organizado a estas competições. Recorda que nesta primeira temporada, a sede da liga era o seu próprio escritório e que muitos assuntos eram resolvidos pelo telemóvel. Neste momento, a LFPV tem já debaixo de olho um espaço na freguesia de Valongo para instalar a sua futura sede. «Esperamos que a Câmara nos ajude mais uma vez para podermos ter a nossa sede de modo a organizar-mo-nos bem e poder assim angariar mais patrocínios». Outro dos objetivos, passa então por realizar os jogos em horários mais convidativos para o público. Como consequência disto vêm outras metas, como ter mais equipas a competir, aumentar a qualidade das provas e angariar mais apoios. «Este projeto tem pernas para andar», diz-nos João Moreira.

    A paixão pelo futebol é de tal maneira intensa que mesmo com o fim do campeonato e taça da liga e da participação da seleção concelhia no torneio da Federação de Futebol Popular do Norte, a LPFV não pára, e neste momento está a decorrer até início do próximo mês um torneio de futebol de sete, no qual participam algumas equipas que estiveram em evidência na temporada de 2017/18 do futebol popular concelhio, casos do Fame, do Recarei, do Calvário e dos campeões da Ribeira. Nós vamos acompanhá-lo, prometendo que na próxima edição traremos a estas páginas o nome do vencedor, assim como iremos estar muito atentos à próxima temporada de futebol de 11 amador da LPFV.

    Por: Miguel Barros

     

     

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