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Edição de 20-10-2017
Jornal Online

SECÇÃO: Desporto


ENTREVISTA

Equipa de natação adaptada do CPN projeta o nome do clube e da cidade no plano nacional... e internacional

A secção de natação do CPN vive por esta altura dias felizes. Depois de dois anos de inatividade - devido aos muitos problemas relacionados com a piscina do clube num passado não muito distante - eis que sensivelmente há um ano a secção reabriu as portas… com relevante evidência. E assim o é se atendermos aos muitos sucessos desportivos alcançados neste primeiro ano após o recomeço de atividade, um ano que mostrou que o CPN continua a ser um verdadeiro alfobre de campeões no que à natação diz respeito. Para este cenário de triunfo muito contribuiu o brilhante desempenho da equipa de natação adaptada do clube - uma novidade no universo cepeenista de há um ano a esta parte -, um grupo de 20 atletas que vive em estado de graça pela chamada de dois dos seus elementos à seleção nacional da modalidade que irá participar no Campeonato da Europa de Natação Adaptada - Síndrome de Down, que terá lugar em Paris entre os próximos dias 28 de outubro e 4 de novembro. Este facto serviu de pretexto, digamos assim, para o nosso jornal visitar neste mês de outubro a equipa de natação adaptada do CPN, ficando ai a conhecer de perto não apenas a ambição do José Ribeiro e da Carina Moreira - os dois atletas selecionados - para o Europeu, como também, e sobretudo, os contornos do sucesso deste grupo que se intitula como uma "grande e unida família" composta por autênticos campeões das piscinas e…da vida.

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José Ribeiro e Carina Moreira estão de malas aviadas para Paris, onde aí vão representar a seleção nacional que vai competir nos Europeus de Natação Adaptada - Síndrome de Down. Aquando da nossa visita à piscina do CPN as expectativas eram elevadas quanto a esta presença dos dois nadadores na competição continental, mas já lá iremos.

Antes de testemunharmos in loco a alegria, motivação e espírito de conquista que reina entre os elementos da equipa de natação adaptada cepeenista, A Voz de Ermesinde esteve à conversa com Ana Querido e Luís Rato, respetivamente, a treinadora do combinado de natação adaptada e o responsável pela secção de natação do clube.

Luís Rato começaria precisamente por fazer uma introdução com um balanço «bastante positivo» do primeiro ano de atividade da equipa de natação adaptada no seio do CPN, clube com forte e mais do que reconhecida tradição na modalidade, mas que até há sensivelmente um ano atrás nunca havia tido no seu ADN uma equipa nesta área específica da modalidade. «Tivemos alguns êxitos, temos aqui vários atletas internacionais e para já podemos dizer que as coisas estão a correr bem, sendo que o nosso objetivo nesta nova temporada passa por não fazer pior do que na anterior», aponta o coordenador.

Ana Querido vai um pouco mais ao pormenor neste balanço introdutório, informando que no ano de arranque a equipa de natação adaptada conquistou 13 títulos de campeão nacional de absolutos, oito vice-campeonatos nacionais também em absolutos, 20 recordes nacionais foram batidos por estes atletas, cinco nadadores integraram a seleção regional e agora a chamada dos dois atletas inicialmente citados à seleção nacional. «Muito bom, para um ano de arranque», refere Ana Querido, que além de treinadora da equipa de natação adaptada orienta igualmente os grupos mais novos dos escalões de formação cepeenista. Ana Querido que, refira-se a título de curiosidade, está ligada enquanto treinadora à natação adaptada há sensivelmente uma década, para além de no âmbito académico ter um doutoramento precisamente nesta área específica da modalidade.

TRABALHO GRATIFICANTE

QUE CRIA FORTES

LIGAÇÕES HUMANAS

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Detentora de um currículo desportivo digno de registo, a treinadora não esconde o gosto que tem em desenvolver este trabalho com este tipo de atletas, um trabalho que classifica de gratificante, já que são criadas ligações humanas muito fortes com os seus pupilos. «Enquanto que na natação pura e nos escalões de formação os atletas vão passando por vários treinadores à medida em vão subindo de escalão, na natação adaptada os atletas mantêm-se sempre com o mesmo treinador, e inevitavelmente as relações acabam por ser muito fortes, e isso acaba por ter comprovado no facto de quando eu saí do meu último clube e tive a oportunidade (há um ano atrás) de vir para o CPN, a maior parte dos atletas que na altura estavam comigo nesse clube acompanharam-me para aqui».

Na realidade tivemos a oportunidade de testemunhar esta proximidade, uma ligação de cumplicidade entre a treinadora e os elementos que integram a equipa de natação adaptada cepeenista, pouco antes do treino ter início. Brincadeiras, abraços, ou palavras de amizade e carinho, foram alguns exemplos que atestaram esta forte ligação entre todos, ficando a perceber-se o porquê de um dos atletas que connosco trocou algumas palavras ter-se referido a este grupo como uma "grande e unida família". Isto explica não só a razão da maior parte deste grupo trabalhar junto há alguns anos, e de ter acompanhado Ana Querida até Ermesinde e ao CPN em particular, como também explica a motivação pela procura permanente de sucessos desportivos (que vêm sendo alcançados com regularidade) e, sobretudo, pela superação de obstáculos que se lhes deparam pela frente em face da sua condição física/mental.

VERTENTE DESPORTIVA

VERSUS

VERTENTE TERAPÊUTICA

Ana Querido sublinha precisamente a «evolução brutal» que tem notado nestes atletas, sobretudo ao nível da autonomia. Nas suas palavras isso acontece em primeiro lugar porque é importante para estes atletas sentirem que estão num clube inclusivo, como é o caso do CPN, um clube onde são tratados de maneira igual e onde têm os mesmos direitos e deveres que outros atletas que não são portadores de deficiência. Depois há o trabalho que é desenvolvido ao nível das competências sociais e da autonomia (frisar que a maior parte dos atletas que compõem a equipa de natação adaptada do CPN é portador de deficiência intelectual), um trabalho que vai além da vertente desportiva, e é neste ponto que a treinadora sublinha a tal evolução brutal que tem notado em muitos dos nadadores, sobretudo aqueles com quem trabalha há menos tempo, dando o exemplo de um jovem que inicialmente tinha dificuldades em despir-se, vestir-se ou tratar da higiene pessoal sem ajuda de outras pessoas no balneário, mas que a pouco e pouco vem superando essa dificuldade. «São pormenores muito importantes», frisa a treinadora no sentido de explicar que o papel da natação vai muito para da além do plano desportivo. Aliás, segundo nos é dito, a natação adaptada do CPN tem duas vertentes, uma mais competitiva, que é composta pelos nadadores que entram nas competições, e outra mais terapêutica, integrada por atletas que ainda estão a iniciar-se na modalidade ou que não tenham propriamente pretensões em competir.

CONTINUAR A COLECIONAR ÊXITOS

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Naturalmente que a razão que nos levou à sede do CPN para conhecer este grupo de campeões, prendeu-se com a chamada de José Ribeiro e Carina Moreira à seleção nacional que irá competir nos Europeus de Paris. Um facto que não só enche de orgulho a secção de natação cepeenista, como ficou vincado, como também abre portas a outros objetivos para a nova época desportiva. Nesse sentido, Luís Rato e Ana Querido começam por lembrar que para o ano há Campeonato de Europa do IPC (para atletas com deficiência física) e que o CPN tem um atleta, no caso Nuno Alves, que há dois anos participou nesta competição que na altura decorreu no Funchal, e que volta agora a ter aspirações a uma nova participação internacional. Já no plano nacional, a secção tem por objetivo continuar a colecionar o maior número de títulos nacionais possíveis, bater novos recordes nacionais e levar o número máximo de nadadores aos campeonatos nacionais.

Claro que para competir a este nível a secção necessita de apoios, sendo que neste ponto Ana Querida e Luís Rato laçam, através do nosso jornal, um apelo não só à comunidade local como também às autarquias (Câmara e Junta de Freguesia): «precisamos de mais apoios. A secção é autónoma e ao fim do mês temos contas para pagar», dizem os nossos interlocutores, que sustentam esta sua argumentação com alguns exemplos, como é o facto de na natação adaptada as inscrições de atletas na Federação Portuguesa de Natação serem mais caras, além de que há as despesas de deslocações aos campeonatos realizados em vários pontos do país.

Como já foi referido no início, a secção de natação do CPN reabriu portas há cerca de um ano após um interregno de dois anos. Aproveitando a presença do coordenador da secção, Luís Rato, quisemos saber como tem sido este recomeço, de um modo geral, em relação a todos os outros escalões da secção. Na resposta, o responsável traça um balanço positivo, a julgar pelas inúmeras conquistas alcançadas no ano transato, onde destaca o título de campeão nacional da 4ª Divisão obtido pela equipa feminina. Atualmente a secção é composta por um total de 60 atletas, distribuídos pelos escalões de infantis, cadetes, juvenis, juniores, seniores, masters e da natação adaptada, sendo que para a nova temporada Luís Rato ambiciona - à semelhança do que acontece com a equipa de natação adaptada - trazer para Ermesinde o máximo de títulos nacionais que conseguirem, bater recordes nacionais e levar o máximo de atletas possíveis aos campeonatos nacionais. No fundo, melhorar as prestações do ano anterior e aumentar ainda o número de atletas na secção, «pois é isso que nos faz crescer», diz Luís Rato.

O TESTEMUNHO DOS CAMPEÕES

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Após a conversa com Luís Rato e Ana Querido fomos até ao terreno, isto é, conhecer de perto este grupo de campeões. Antes de mais um treino pudemos então testemunhar a alegria contagiante que reina no seio deste grupo de 20 atletas (nota: não estavam todos presentes no dia em que ali estivemos) que integram a equipa de natação adaptada cepeenista. José Ribeiro e Carina Moreira foram os primeiros nadadores com quem falámos, até porque estão de malas aviadas para Paris, onde vão então representar as cores de Portugal. Quisemos conhecer as ambições dos dois nadadores para o Europeu, sendo que para José Ribeiro esta é já a terceira participação num Campeonato da Europa, para além de ter também já no currículo uma presença num Campeonato do Mundo (realizado no México) onde no plano individual arrancou um recorde nos 1500 metros. E quanto a Paris? «Quero dar o melhor e ficar entre os primeiros», diz o atleta oriundo de Rio Tinto que não perde a oportunidade para lançar elogios ao CPN mas também a Ana Querido, treinadora que com quem trabalha há já algum tempo e que acompanhou nesta vinda para o clube ermesindense.

Também Carina Moreira tem por estes dias elevadas expectativas quanto à participação nos Europeus de Paris, ela que ao contrário de José Ribeiro faz a sua estreia neste tipo de competições internacionais. «Gostava de trazer uma medalha de Paris», confessa-nos Carina. Para além destes dois nadadores a equipa conta com mais alguns elementos com vincada experiência internacional, como é o caso de Pedro Ribeiro, que regista no currículo uma presença num Campeonato da Europa, ocorrido na República Checa, onde atingiu uma final e bateu dois recordes nacionais. Quanto ao futuro, este nadador ambiciona voltar a um Europeu e quem sabe trazer alguma medalha para Portugal.

Nuno Alves, de quem já falamos, vive em Vila Real, viajando todas as semanas (!) até Ermesinde para treinar no CPN. A razão que o leva a fazer esta longa viagem todas as semanas é simples: «gosto de trabalhar com a professora Ana Querido, que já conheço há alguns anos», refere Nuno, cujos objetivos desportivos passam pela qualificação para o Campeonato da Europa do IPC do próximo ano.

Mas no seio deste grupo há quem não esteja ali pela vertente competitiva, como é o caso de Miguel Ribeiro, que nos conta que o seu objetivo quando entrou nesta equipa foi para continuar a sua recuperação física após há 15 anos ter sofrido um acidente de viação. Miguel salienta que a natação o tem ajudado muito nessa recuperação, sobretudo ao nível da mobilidade, aproveitando a oportunidade para agradecer a ajuda que Ana Querido lhe tem dado nessa recuperação. Lança igualmente elogios a todo o grupo, «é uma equipa composta por pessoas fantásticas, para mim eles são tudo, somos uma grande e unida família, e tenho um enorme orgulho e privilégio em trabalhar com a professora Ana Querido, uma excelente profissional», concluí Miguel Ribeiro.

Por: Miguel Barros

 

 

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