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Edição de 31-07-2019
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    Arquivo: Edição de 20-10-2017

    SECÇÃO: Crónicas


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    Tempo, lugar e humores

    Ontem, não importa que dia de que mês ou ano, saí de casa para a caminhada que, diariamente, faço exceto em condições que, de todo, a impeçam: indisposição, chuva forte, tarefa imprevista. Convém dizer que o Supremo Artista pusera todo o seu amor nessa pintura a que chamamos dia e que Ele vai repetindo sem cessar, sempre de maneira original, embora nem todos dela tenhamos idêntica perceção. Uns sentir-se-iam encantados como eu, outros porventura contrafeitos, difícil encontrar unanimidade ainda que respondamos em concordância: "Está um lindo dia!" - declara alguém num esplendoroso dia de sol - e outros anuem embora indisposição física ou incómodo de outra natureza justificasse parecer contrário.

    Se eu disser que esse ontem passou há várias semanas que diferença faz? Na realidade,o advérbio só tem significado unívoco quando se trata de uma mensagem em que emissor e recetor comunicam em presença. Na linguagem escrita porém, os intervenientes do ato de comunicação situam-se em tempos diversos, já que a mensagem é diferida, o emissor envia a mensagem mas esta apenas será recebida dias, semanas, meses ou anos depois pelo (s)destinatário (s). Em casos tais, esse ontem deixou de ser referência significativa entre quem escreveu e quem recebeu a mensagem a não ser quando o texto reporta um diálogo em que duas personagens se encontram em situação presencial. Trata-se, em tais casos, não de um só ato de comunicação mas de dois ou mais, formando a mensagem mais ampla. À guisa de exemplo, sirvamo-nos deste texto ou de tantos outros que tenho escrito para o jornal. Trata-se, já de si, de uma composição escrita em diferentes momentos, composta e recomposta até que eu a considere digna de ser publicada. Na redação, na impressão e na distribuição do jornal decorre um período variável que ainda pode ser ampliado desde que o leitor o recebe até que lê tudo o que lhe interessa. A localização no tempo e no espaço é, pois, de reduzido ou nulo significado, a menos que o leitor se deixe transportar pelas indicações do autor como se dele fossem. O ontem, o hoje ou o amanhã podem ser utilizados também em sentido mais amplo referidos a tempos passados, presentes ou futuros." Não somos hoje o que éramos ontem nem seremos amanhã o que hoje fomos" escrevia um autor norte-americano cujo nome não recordo.

    Convenhamos, pois, em aceitar cada qual o "ontem" como o dia imediatamente anterior ao envio ou à receção desta mensagem sem nos preocuparmos com a análise que foi feita no parágrafo acima. Era uma bela manhã de sol, temperatura amena e o bulício natural de qualquer dia de semana: pessoas que subiam transitavam nas ruas; veículos parando nos semáforos e arrancando ao sinal verde; entrega de mercadorias à porta dos estabelecimentos; crianças e jovens de mochilas às costas a caminho das escolas; lojas e repartições atendendo os primeiros clientes; pequenos-almoços servidos no interior de cafés e pastelarias ou nas esplanadas adjacentes; idosos recém-saídos de casa, sentados em bancos de pedra ou de cimento, de língua mais desenvolta do que os seus membros, emitindo cada qual seus desabafos e suas opiniões; comboios que apitam à entrada ou à saída da estação num sai e entra de passageiros; autocarros que se abeiram das paragens para recolherem quem vai para o trabalho na cidade do Porto ou para outros destinos que o comboio não serve.

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    Foi nessa hora de frenesim que encetei a caminhada, inebriado pela glória da manhã. Como eu, alguns vizinhos saíam para levarem seus netos às respetivas escolas trocando comigo saudações envoltas em sorrisos; uns metros adiante, a senhora da loja de etiquetas que vem abrir o estabelecimento endereça-me um alegre bom-dia ela que habitualmente é mais contida, do lado oposto a jovem farmacêutica a caminho do seu posto de trabalho no Centro Comercial a poucas centenas de metros também não quis fazer por menos; amigos que raramente vejo ou pessoas cujo conhecimento ponho em dúvidas aúdam-me como se tivéssemos brincado juntos em crianças; Para lá do viaduto que transpõe as linhas do caminho-de-ferro, o senhor Moreira aguardava-me, no passeio em frente a sua casa, para um bate-papo amigável na sequência de muitos outros de há uns anos a esta parte; na mesma rua em que vive o senhor Moreira, conheço muitas pessoas que me saúdam com grande simpatia; na rua principal da cidade, o homem que descarregava mercadoria à porta de um supermercado, pede desculpa pelo incómodo e desvia os volumes que dificultavam o livre-trânsito; no expositor da papelaria onde me detenho por minutos a ler os títulos dos jornais, recebo cumprimentos de amigos que entram e saem do estabelecimento ou que têm objetivo coincidente com o meu. No que restava do percurso houve ainda vigorosos apertos de mão, palavras simpáticas, sorrisos.

    Hoje sonhei que a história se repetiria mas a realidade, não sendo contrária, teve menos fulgor. O mesmo percurso, a mesma luz, o mesmo cenário, comportamentos outros e estado de espírito menos exuberante. "Não há dois dias iguais" dizia o tio Prudêncio, o filósofo da povoação onde fui criado. É, pois, este contraste que torna a vida mais diversificada, menos monótona. Que importa, então, se o ontem já é hoje ou poderá ser amanhã para qualquer de nós.

    Por: Nuno Afonso

     

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