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Edição de 31-01-2020
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    Arquivo: Edição de 31-01-2017

    SECÇÃO: Crónicas


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    Empresta-me os teus olhos

    Passavam-se cerca de 5 anos de escrita regular neste pequeno arauto e eu sentia a necessidade de fechar um ciclo. Sair da escrita e entrar na leitura, principalmente de opiniões diferentes, de sentires diferentes e vivenciadas de forma diferente. Surpreendia-me porque em textos que percorria (bem mais reduzidos do que aqueles por onde gostava de divagar) o produto final - a conclusão, era em muito idêntica. O tamanho! Sim, não conseguia mesmo dar-lhe a volta, encurtando-os. Não sei se esse facto influenciava algum complexo que começava a interiorizar: como meter tanto pulsar de vida, com vidas dentro, em poucas linhas? De repente, numa das tertúlias a que ultimamente me delicia assistir pela forma divergente de pensares mas tão convergente na vontade de contribuir e trabalhar para a mudança ouvia um nome de autor: Júlio Dinis. Leituras da minha juventude e que naquele tempo me faziam saltar para dentro dos livros. Nestas narrativas "à Júlio Dinis", sentia o cheiro até do feno dos campos. Terão sido estas leituras catalisadoras da minha vontade de trazer as pessoas para dentro dos meus textos.

    Percebia que afinal era este o caminho que me fazia sentido. Encurtá-lo, era cortar sonhos, luta, coragem ou abnegação de alguém. As personagens de vidas reais que me tinham inspirado na escrita sempre me mereceram o maior dos respeitos, mesmo as que encriptei em personagens onde precisei colocar--me eu, na primeira pessoa. A vida e os seus ensinamentos ensinaram-me que as etapas não se devem saltar. Os tempos têm a sua cadência própria e se não tivermos que olhar parar trás é mais fácil, leve e rápido seguir para nova etapa. Daí andar na procura de um lugar digno onde os deixar. Um dia ouvia uma jovem mãe cega dizer que quando precisava que a filha de oito anos a ajudasse a conjugar cores no vestuário que havia de vestir pedia-lhe: "empresta-me os teus olhos". Olhei-a e de repente, "fez-se luz" - os pedacinhos de escrita que ia escrevendo em construção feita ao longo do tempo em textos por aqui publicados foram compilados e enviados a concurso de escrita, com o título "Empresta-me os teus olhos".

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    Afinal era o que vinha tentando fazer ao longo do tempo: emprestar os meus olhos às pessoas que - por origens generosas de berço, por conquistas legítimas de patamares elevados em estabilidade financeira, qualidade de vida e de estatuto social, dificilmente acederão à emoção genuína destas vidas, repletos de vida lá dentro. Tinham sido dedicados a quem, a todo custo, luta para se defender de conotações que lhes hipotequem muitas vezes aquilo que os outros sabem, menos eles. Permiti-me partilhar realidades que muitas vezes têm nuances de romance, mesmo que repletas de vicissitudes de vida. Não podia mesmo deixar passar em branco a angústia dos que optam (numa grande parte das vezes) por atos de amor e proteção que os levam até ao fundo, a única forma de enxergar e perceber que o amor, verdadeiro, conquista-se mas não se compra. Lutaram e ainda lutam contra o relógio do tempo para ganhar a coragem de enfrentar aquilo que damos como certo, porque faz parte da atitude convencional que por hábito se adota - julgar, estigmatizar, apartar e abandonar.

    Ir a concurso nunca terá sido o prémio ou o pretensiosismo de editar, pagando por esta vaidade (quando é este o único motivo que nos move). Ao ter escolhido este caminho para encerrar um ciclo de escritas, só espero com veemência ter estado à altura de aqui dignificar as minhas personagens com vida própria, sem plágios, pontos ou contrapontos. Nesta altura, à distância de textos em que as conclusões valem aquilo que valem para cada um eu, penso sempre que tinha sido uma pena não refletir sobre estas lições de vida. Aprendi que se formos dentro de nós, se apelarmos à nossa humildade e abnegação, se aproveitarmos o quanto a vida nos proporciona, se tivermos o bom senso de pedir ajuda, se aprendermos a olhar para as pequenas coisas e ter a capacidade de deixar que se transformem em grandes salva-se uma vida, salva-se uma pessoa e uma pessoa, vai sempre valer mais do que o mundo.

    Olhar para o outro, que assume precisar de ajuda, que tem a coragem de tentar mudar e dizer-lhe: "eu já estive desse lado", dando-se como exemplo, não é humilhação - é exemplo, de romances estranhos, em vidas que nem sempre poderão ser feitas em linha reta. Será também uma questão de honra e dignidade. Aquela que não se deve recusar a quem tudo faz para a conquistar ou, reconquistar. Aqui, como a culpa nem sempre morre solteira, vou fazer sorrir a Dª Alcina nesta nostalgia do regresso à escrita, resultado que foi de um mero pedido de boleia feito à porta da sede deste pequeno arauto. "Um dia a senhora ainda vai tirar a carta e comprar um carrito". Compreendeu quando lhe disse que não. Onde encontrava eu tantas histórias? Nos transportes públicos (mesmo que em introspeção), quase nunca viajamos sozinhos, quase nunca estamos sozinhos. Temos sempre alguém que nos "empresta os seus olhos". Sobre elas, pensar no seu melhor ou no seu pior é mesmo o reflexo de quem somos.

    Por: Glória Leitão

     

     

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