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Edição de 31-10-2019
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    Arquivo: Edição de 31-10-2016

    SECÇÃO: Destaque


    ENTREVISTA

    Casa do Povo de Ermesinde mostra-se aos 75 anos como um pilar essencial no âmbito das respostas sociais junto da comunidade local

    É ainda de semblante um pouco abalado pelo recente desaparecimento do seu histórico dirigente António Vasques, que a Casa do Povo de Ermesinde assinalou neste mês de outubro os seus 75 anos de existência. Uma data histórica para uma instituição não menos histórica, não só pela sua longevidade como também pela sua importância no seio da comunidade, sobretudo ao nível da área da ação social, mais concretamente na prestação de serviços à população idosa, o setor onde se tem notabilizado nas décadas mais recentes. Como a data em questão e acima de tudo o seu papel de agente ativo no campo da ação social assim o justifica, o nosso jornal esteve de visita à sede da Casa do Povo, onde conversou com o atual presidente da Direção da instituição, Jerónimo Pereira, e com uma das duas técnicas que ali trabalham, no caso Inês Nogueira, que é um dos rostos da coordenação de uma equipa pequena mas empenhada em levar o barco a bom porto. E pelo que vimos e ouvimos, e a julgar inclusive pela própria opinião formada na comunidade, têm-no conseguido com distinção, apesar das dificuldades que aqui e ali se lhes deparam no caminho.

    Fotos MANUEL VALDREZ
    Fotos MANUEL VALDREZ
    Fundada em outubro de 1941 a Casa do Povo de Ermesinde é hoje do alto dos 75 anos acabados de cumprir uma das instituições mais antigas da nossa freguesia em atividade. Ao longo da sua existência desenvolveu inúmeras atividades, como o desporto e a cultura, a título de exemplo, direcionadas, essencialmente, para os trabalhadores rurais e da previdência. Com o 25 de Abril de 1974 abriram-se novos caminhos, e nos anos 80 a instituição projeta-se na área da ação social, essencialmente no apoio prestado à população mais idosa. Atualmente, a Casa do Povo de Ermesinde é precisamente conhecida e reconhecida pela comunidade por este seu trabalho de âmbito social junto desta franja populacional, trabalho esse que é desenvolvido através de duas valências, o Centro de Dia e o Serviço de Apoio Domiciliário.

    TRABALHO SOCIAL

    ASSENTA EM DUAS

    VALÊNCIAS

    Foto CPE
    Foto CPE
    Inês Nogueira é uma das duas responsáveis técnicas da instituição - a outra é Isabel Sousa - que de uma forma pormenorizada nos descreve o dia-a-dia, a essência, de cada uma destas duas valências. O Centro de Dia - serviço criado em 1988 - serve atualmente 50 utentes, o número limite que é permitido à instituição no âmbito dos acordos de cooperação celebrados com Segurança Social, e a sua missão visa, sobretudo, proporcionar aos utentes que dele usufruem um envelhecimento ativo, oferecendo-lhes, por um lado, e nesse sentido um vasto leque de atividades, e por outro promover a interação entre todos e combater o isolamento tão comum nestas idades.

    Como já foi referido são várias as atividades que a Casa do Povo proporciona aos seus utentes, algumas delas diárias, como é o caso da ginástica, dos jogos cognitivos, das atividades sensoriais, da mímica, do canto, ou da hora do conto. Há claro, quem desta meia centena de utentes que diariamente frequenta a instituição, e cuja média de idades ronda os 75 anos anos, prefira estar sossegado no seu canto a jogar um dominó ou cartas. Aliás, aquando da nossa visita à Casa do Povo de Ermesinde três dos utentes da valência encontravam-se a competir na sede do concelho num torneio de dominó juntamente com utentes de outras instituições concelhias, sinal de que a "coisa" é mesmo levada a sério.

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    O campo das atividades é ainda alargado ao teatro, um dos ex-libris das galas anuais que a instituição leva a efeito, e onde é exibido à comunidade algum do trabalho que é desenvolvido pelos utentes. Para além disto, o grupo de utentes desta valência da Casa do Povo responde afirmativamente aos desafios que lhes são colocados pelos diversos agentes da freguesia e do concelho ao longo do ano, como é o caso do concurso de decoração das rotundas, promovido pela Junta de Freguesia local. E por falar em desafio o famoso calendário para 2016 em que as idosas da Casa do Povo foram fotografadas em poses sensuais foi um exemplo que gerou, acima de tudo, momentos de divertimento entre as utentes que deram vida a uma ideia que tão simplesmente visava a angariação de alguns fundos para a valência. Só que a brincadeira ganhou contornos gigantescos. O dito calendário sexy foi um fenómeno nas redes sociais. Um fenómeno, há que sublinhá-lo, internacional, e que trouxe a comunicação social do país em peso à pacata Casa do Povo de Ermesinde. As utentes da instituição passaram de um dia para o outro a ser autênticas estrelas, chegando inclusive a ir a um programa televisivo, uma experiência galvanizante para estas senhoras, conforme recorda Inês Nogueira, assistente social de formação que há cerca de uma década trabalha na instituição.

    Quanto a uma eventual repetição da experiência a técnica é perentória em dizer que não, até porque a brincadeira atingiu proporções difíceis de controlar, como por exemplo o facto de os calendários editados não terem chegado para uma semana de encomendas, e como tal não haver muita disponibilidade das técnicas em dedicar-se única e exclusivamente à comercialização de calendários, como estava a acontecer.

    DIFICULDADES

    E PROJETOS

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    Brincadeiras à parte, a Casa do Povo depara-se com a dificuldade de não conseguir dar resposta às solicitações que lhe chegam para acolher mais utentes na valência Centro Dia. Dificuldades que se prendem sobretudo com a falta de mais transportes, já que as duas carrinhas de nove lugares de que a instituição dispõe (existe uma outra mas de apenas dois lugares) são insuficientes para dar resposta aos (possíveis) utentes que se encontram em lista de espera. Ora, sendo o transporte uma das exigências das famílias dos utentes candidatos, até porque muitos deles não conseguem movimentar-se sozinhos, a lista de espera para entrar no Centro de Dia é grande. «Não podemos iniciar um serviço onde não esteja garantido o transporte», lembra Jerónimo Pereira, que após o desaparecimento de António Vasques ocupa o cargo de presidente da Direção.

    A outra resposta social que atualmente é dada pela Casa do Povo à comunidade é o Serviço de Apoio Domiciliário (SAD), mais virado para o exterior. Valência que atualmente é integrada por 35 utentes, número limite imposto pela Segurança Social, e em que os serviços contratualizados com esta entidade passam pelo fornecimento de refeições e pela higiene pessoal do utente.

    No entanto, a resposta dada vai em muitos casos muito além destes dois serviços, já que a Casa do Povo assegura igualmente a higiene da habitação, o tratamento de roupa, ou o acompanhamento a consultas. Alargar a resposta do SAD - cuja lista de espera é também grande - a mais utentes, bem como a instituição ser ressarcida por parte da Segurança Social pelos tais serviços prestados que não são contratualizados com este organismo, e por consequência desse acréscimo de serviços contratualizados haver um aumento das receitas provenientes desses acordos de cooperação, passa por um alargamento de infraestruturas, mais precisamente da cozinha. «O aumento das instalações da cozinha é um projeto que já vem do tempo do senhor António Vasques, e que ainda não foi concretizado ora por razões de ordem técnica, ora porque não há disponibilidade (financeira) para assegurar a obra. Por si só a Casa do Povo não consegue levar isto adiante, já que são precisos alguns milhares de euros. No entanto, não vamos desistir deste objetivo, pelo contrário, vamos insistir apresentando uma nova candidatura para a execução desse projeto. Esse aumento das instalações da nossa cozinha, e estamos a falar de um aumento de cinco ou seis metros quadrados, iria permitir que alargássemos o nosso leque de utentes, e pudéssemos ir além das 90 refeições diárias que por lei somos autorizados a servir», explica Jerónimo Pereira, que salienta ainda que a Casa do Povo irá em breve pedir junto da Segurança Social uma revisão dos serviços que presta, uma vez que, e como já foi referido, a resposta social da instituição no âmbito do SAD vai mais além dos dois serviços contratualizados com o Estado.

    Isso iria fazer, como também já foi sublinhado, com que a instituição aumentasse as suas receitas, até porque, e como refere Jerónimo Pereira, a grande fatia das receitas da instituição provêm das comparticipações com a Segurança Social e da mensalidade paga pelos utentes (ajustadas, por assim dizer, aos rendimentos de cada um). Salienta que as receitas provenientes das cotizações são quase insignificantes, até porque a Casa do Povo hoje em dia não tem mais do que cerca de 150 associados, quando no passado, nos anos a seguir à sua fundação, teria tido o triplo, ou mais, em relação ao atual número.

    Eram anos em que a instituição servia de "abre latas", conforme recorda o atual presidente, isto é, os sócios da Casa do Povo beneficiavam de descontos noutras instituições/entidades, e só isso fazia com que o número de associados fosse bem mais significativo do que o atual.

    Além disso, a instituição tinha uma forte intervenção nas áreas do desporto e da cultura, algo que por si só também aumentava o número de sócios. Tudo isso mudou em finais da década de 80, altura em que a Casa do Povo "adquiriu" o estatuto de instituição particular de solidariedade social e passou a direcionar o seu trabalho essencialmente para a área da ação social.

    Foto CPE
    Foto CPE
    Questionada sobre a razão da existência de longas listas de espera tanto para o SAD como para o Centro de Dias, Inês Nogueira explica que além de haver um envelhecimento crescente na freguesia há mais situações de dependência, e muitas dessas situações acontecem com pessoas ainda jovens, mas que estão na tal situação de dependência. E perante este cenário as respostas sociais ao nível institucional em Ermesinde são poucas.

    Um outro abalo ocorrido recentemente nas receitas da instituição, prendeu-se com a perda da renda mensal proveniente do aluguer de um espaço ao balcão de Ermesinde da Segurança Social, serviço que passou a funcionar na recém inaugurada Loja do Cidadão da nossa cidade. Mais do que dar origem à perca de uma fonte de receita, este facto trouxe um dilema à Casa do Povo. Jerónimo Pereira explica-o da seguinte forma: «Gostávamos de poder alargar a instituição, aproveitando as instalações que eram usadas pela Segurança Social. No entanto, isso iria implicar não só que deixasse-mos de ter uma receita proveniente do aluguer desse espaço como também implicaria um aumento de custos no sentido de ampliar para ali as nossas instalações. Neste momento estamos a analisar o que será melhor para a Casa do Povo», diz o presidente da Direção.

    Recorda, uma vez mais, que as receitas da instituição advêm na sua maioria dos utentes e dos acordos com a Segurança Social, e é com essas receitas que têm de ser pagos os vencimentos dos funcionários e as despesas com a água, luz, telecomunicações, alimentação... «não é fácil, e por isso temos de pensar muito bem no que vamos fazer com as instalações que eram do balcão da Segurança Social».

    Por falar em funcionários, pormenor que nos chamou à atenção foi o facto de a instituição desenvolver o seu trabalho com apenas 11 funcionários, estando já incluídas neste quadro de recursos humanos as duas técnicas superiores, no caso Inês Nogueira e Isabel Sousa, sendo que esta última desempenha o cargo de Diretora Técnica das valências SAD e Centro de Dia. Depois, há duas cozinheiras, um motorista, e as restantes exercem funções de auxiliares de ação direta e auxiliares de serviços gerais. «Somos uma equipa reduzida, mas com organização temos conseguido desenvolver o nosso trabalho.

    Temos conseguido levar o barco a bom porto», frisa com orgulho Inês Nogueira.

    A VERTENTE

    CULTURAL...

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    Como tem sido possível notar até aqui, a Casa do Povo de Ermesinde é hoje essencialmente conhecida e acarinhada no seio da nossa comunidade pelo seu trabalho na área social e no apoio concreto à população idosa.

    No entanto, existe uma vertente cultural que também tem tido bastante relevo de há 14 anos a esta data, e que se prende com o Rancho Folclórico da Casa do Povo de Ermesinde. Criada precisamente em 2002, esta valência de âmbito cultural da instituição é integrada atualmente por 32 elementos, com idades compreendidas entre os 9 e os 72 anos. As suas atuações têm catapultado o nome da Casa do Povo um pouco por toda a região, e anualmente é realizado na nossa cidade um Festival de Folclore que tem granjeado bastante sucesso. Também no que concerne ao rancho a Casa do Povo enfrenta algumas dificuldades, a maior de todas a falta de mais infraestruturas para efetuar os ensaios. Uma vez por semana, por norma de 15 em 15 dias, o rancho faz os seus ensaios no palco instalado no piso superior da sede da instituição, período que no entanto é insuficiente. «Gostávamos de ter outras instalações para o rancho, pois não podemos ceder mais tempo do nosso salão a esta valência cultural sob pena de afetarmos as nossas atividades com os nossos serviços de ação social», refere Jerónimo Pereira, figura que está ligada à Casa do Povo de Ermesinde desde 2006 enquanto dirigente, primeiro na Assembleia Geral e agora na Direção, a convite de António Vasques.

    … E O

    RECONHECIMENTO

    PÚBLICO

    A ANTÓNIO VASQUES

    Foto CPE
    Foto CPE
    Sobre este histórico dirigente da instituição, falecido em junho passado, que esteve à frente desta enquanto presidente da Direção ao longo dos últimos 20 anos, Jerónimo Pereira não se poupa em elogios e palavras de gratidão num tempo que ainda é de luto. «O senhor António Vasques é uma figura incontornável da história da Casa do Povo. Tenho uma profunda admiração por ele. Dirigiu esta instituição com muita devoção e empenho. O seu relacionamento com os vários agentes políticos, sociais, culturais e de outros órgãos institucionais locais fez com que a Casa do Povo nunca vassilasse e ao mesmo tempo conseguiu granjear a estima desta gente toda para com a instituição. Foi ele que conseguiu muitos apoios de cooperação com a Câmara e a Junta de Freguesia no sentido de que estas entidades nos atribuíssem subsídios anuais para a realização de atividades, e foi também ele que conseguiu que os apoios sociais fossem uma realidade. A Casa do Povo de Ermesinde deve-lhe muito», diz Jerónimo Pereira, que sublinha ainda que até final do mandato, que irá até dezembro de 2017, a atual Direção vai seguir as diretrizes do plano traçado por António Vasques aquando da sua reeleição em dezembro de 2014. Depois disso Jerónimo Pereira diz que não vai continuar à frente dos destinos da instituição, justificando esta decisão com o facto de acumular em simultâneo cargos de responsabilidade noutros organismos. «Mas, até ao final deste mandato, e se os sócios assim o entenderem, vou continuar como presidente da Direção. Não será por mim que vai haver um vazio diretivo na Casa do Povo. Com a ajuda da restante Direção vamos continuar o trabalho que o senhor António Vasques deixou», diz.

    Para lá dos sonhos e projetos já aqui mencionados a Casa do Povo de Ermesinde ambiciona continuar a ser olhada pela comunidade local com simpatia e estima, e por outro lado prosseguir o seu caminho na minimização do problema da pobreza e da solidão dos cidadãos mais carenciados da nossa comunidade.

    «SOMOS COMO UMA

    GRANDE FAMÍLIA»

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    Nesta visita à Casa do Povo de Ermesinde foi-nos possível trocar algumas palavras com alguns utentes da valência do Centro de Dia.

    De uma forma geral foi possível perceber que a instituição é vista por todos como uma grande família, vital para o bem estar e felicidade de cada um deles. «A Casa do Povo faz-me muito bem», é desta forma que José Alexandre descreve a sua relação com a instituição. Uma relação que dura há já 12 anos, e que teve início numa altura em que este utente andava perdido de café em café. Hoje em dia, José Alexandre é dos utentes mais ativos da Casa do Povo, é ele o "cromo", conforme o próprio se define, das animadas peças de teatro que os utentes levam à cena por alturas da gala anual da instituição. Aproveitando a nossa presença deixa não só um elogio público a toda a equipa que ali trabalha, e que é responsável por proporcionar aos utentes momentos de alegria num ambiente que segundo as suas palavras é muito bom, como também uma palavra de gratidão para o "eterno amigo" António Vasques, recentemente falecido.

    Quem também já não vive sem a Casa do Povo de Ermesinde é a Dona Alexandrina, como faz questão de ser chamada. Com 81 anos de idade esta transmontana de nascimento é atualmente a utente mais antiga da instituição, tendo ali chegado há exatamente 21 anos, numa altura em que vivia a braços com uma depressão após a morte do marido. De lá para cá melhorou, como faz questão de dizer, e muito graças às múltiplas atividades que ali são desenvolvidas. «Aqui estamos muito bem, gosto muito de todas as colaboradoras, são todas muito simpáticas. Somos como uma grande família», frisa.

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    Por: Miguel Barros

     

     

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