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Edição de 31-07-2020
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    Arquivo: Edição de 30-09-2016

    SECÇÃO: Destaque


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    ENTREVISTA COM FÁTIMA BROCHADO, COORDENADORA DA VÂLENCIA DAS ATIVIDADES DE TEMPOS LIVRES DO CENTRO SOCIAL DE ERMESINDE

    ATL: Um espaço de partilha, convivência e diálogo que perdura na memória dos adultos do amanhã

    Dando continuidade ao trabalho que temos vindo a desenvolver desde março, em torno daquilo que é, hoje em dia, a realidade das várias valências do Centro Social de Ermesinde, visitámos neste número a valência das Atividades de Tempos Livres (ATL). Ali, além de, uma vez mais - no seguimento do que havíamos visto nas anteriores valências em que estivemos -, termos constatado a grandeza da instituição e o relevo que esta ostenta junto da comunidade local, ficámos a perceber com maior nitidez o porquê de o ATL ser um espaço do qual tantos e tantos ermesindenses que por lá passaram guardam muitas e boas recordações, conforme testemunhos que vamos ouvindo "aqui e ali". Nesta incursão ao seio da valência, conversámos com Fátima Brochado, que de há 11 anos a esta parte, coordena uma equipa coesa, dedicada e empenhada que perante os encarregados de educação se tem evidenciado como uma garantia de qualidade no processo de educação das suas crianças. Aos seus olhos, a equipa do ATL é tida como alguém amigo que ali está não só para os ajudar - seja no que for - mas sobretudo para lhes proporcionar momentos/experiências de alegria que serão guardados, com saudade, para o resto das suas vidas.

    Fotos MANUEL VALDREZ
    Fotos MANUEL VALDREZ
    «Sem imposições, o mais importante é que as crianças se sintam bem neste espaço, que gostem de o frequentar a ponto de, mais tarde, já adultos, se lembrarem dele e das pessoas que com eles conviveram com saudade e alegria». É desta forma que Fátima Brochado traça, em linhas gerais, aquele que é o papel do ATL, uma valência que desenvolve a sua ação junto da comunidade há mais de vinte anos e que é dirigida a utentes com idades compreendidas entre os 6 e os 14 anos. O ATL, ainda de acordo com as palavras da sua coordenadora, é um espaço de formação, de liberdade responsável e de interação social, diretrizes estas às quais se junta atualmente a componente do apoio ao estudo. E é precisamente neste último ponto que o ATL do Centro Social de Ermesinde (CSE) está hoje diferente do que era no passado, e mostra que soube adaptar-se à realidade atual da sociedade, às necessidades e exigências do presente. Antigamente o ATL assumia-se, sobretudo, como a sua própria designação indica, como um espaço direcionado para as atividades de tempos livres das crianças. Hoje, além de manter essa missão, acrescenta a tal componente de apoio ao estudo, tendo em conta as dificuldades e as limitações de tempos dos pais. «Quando nos procuram, uma das primeiras perguntas que os pais fazem é se nós fazemos apoio ao estudo, se os filhos podem fazer os trabalhos de casa aqui. Essa é a primeira preocupação deles e só depois com a vertente das atividade de tempos livres», diz Fátima Brochado que, no sentido de explicar esta tendência crescente, aponta o facto de hoje em dia os pais terem pouco tempo livre para acompanhar/apoiar os seus filhos nas tarefas escolares, ao contrário de antigamente, em que não exigiam tanto, até porque as crianças tinham um meio tempo em casa. Hoje com as AEC's (Atividades Extra Curriculares) nas escolas e com a escassez de tempo livre dos pais, isso não acontece. Fátima Brochado recorda que, no passado, e apesar de também desenvolver a componente de apoio ao estudo, o ATL dispunha de mais tempo livre para a realização de atividades junto dos seus utentes, e que hoje isso não acontece com maior frequência - sobretudo no período letivo - pela tal exigência dos pais em que a prioridade seja o estudo. Apesar de valorizar esta componente de apoio ao estudo, a coordenadora do ATL recorda que a valência não é um centro de estudo, «nós não temos professores, e no fundo o que os pais muitas vezes pedem é que este espaço seja quase uma sala de explicações, o que não é. Claro que a realidade passa por ajudarmos os pais e sermos um complemento à sua tarefa em educar os seus filhos. A minha grande preocupação é que, quando põem aqui as crianças, os pais possam ficar tranquilos. É evidente que a nossa principal vocação, digamos assim, está direcionada para as atividades de tempos livres, mas temos de estar nos dois lados, porque os pais assim o exigem», insiste a coordenadora do ATL.

    Acrescenta que «devemos ter sempre presente que os jovens precisam mesmo de tempos livres. Na realidade, devem usufruir de algum tempo em que nada têm para fazer. Este aspeto é fundamental pois assim podem regular as emoções e agir de acordo com as suas preferências e vontades. A escola e o ATL não são, nem podem ser, um colete de forças».

    A escolha das AEC´s revela-se como um ato a ser devidamente ponderado e os jovens devem fazer parte da sua escolha e seleção. O bem estar dos educandos no presente é fundamental e não preocupações, desadequadas, com o seu futuro. O domínio da língua inglesa não tem de ser total aos dez anos, ou o inscrever os meninos na prática de futebol, para que rapidamente sejam convidados a praticar desporto federado são objetivos desajustados e não são a maior vantagem deste tipo de atividades, diz.

    «Numa altura que a carga letiva é cada vez mais intensa, obrigar as crianças a fazer algo de que não gostam depois de longa permanência na escola durante sete ou mais horas é uma tortura de que ninguém beneficia».

    O ATL do CSE procura incessantemente explorar áreas como a expressão plástica e dramática, xadrez, etc, pois são uma via para controlar o stress bem como as ajuda a conhecerem-se melhor.

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    FOMENTAR O DIÁLOGO,

    A CONVIVÊNCIA E A PARTILHA

    Com o foco direcionado para a vertente de apoio ao estudo a incidir mais durante o ano letivo, é nos períodos de interrupção de aulas que o ATL desenvolve a tal vertente mais lúdica da sua missão. «Além de dinamizar atividades, o nosso papel principal passa por promover a convivência, o diálogo, a partilha de tudo o que envolve o ATL, e isso só conseguimos fazer com maior nitidez nas interrupções letivas». No entanto, todas as sextas-feiras, ao longo do ano, são momentos ainda mais especiais de conversa, convívio e partilha. Momentos em que os meninos e meninas do ATL procuram, em conjunto com a equipa de profissionais que aqui trabalha, fomentar o diálogo, perceber o que correu menos bem durante a semana, corrigir comportamentos, ou simplesmente partilhar os problemas que enfrentam na escola ou em casa. A abertura e o à vontade com a equipa do ATL faz com que muitas ocasiões partilhem problemas - uns típicos da adolescência, outros que envolvem questões com os pais, ou as dificuldades económicas da famílias, para falar nas situações menos complexas - que até os pais desconhecem, sendo que as questões mais preocupantes são comunicadas posteriormente aos encarregados de educação no sentido de os alertar, e em algumas ocasiões levarem ao encaminhamento para a psicóloga da instituição. Outras vezes são os próprios pais que procuram os profissionais do ATL - onde se inclui a psicóloga do CSE - para que os ajudem no sentido de os orientar face aos problemas que os seus filhos apresentam. «O problema de uma criança é um problema da equipa do ATL, o problema da mãe que está com um situação complicada de saúde é vivido por todas nós. Isto para dizer que existe uma união muito grande entre toda a equipa da valência no sentido de dar a melhor resposta ao problema de um qualquer utente», diz-nos a nossa entrevistada.

    VASTO LEQUE DE ATIVIDADES

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    No que concerne às atividades propriamente ditas, elas ocorrem, como já foi referido, com mais ênfase nos períodos de interrupção letiva. Atividades várias, que passam, a título de exemplo, por passeios e visitas, jogos tradicionais, idas à piscina, festas de aniversário, idas à praia, culinária, karaté, piqueniques, atividades de expressão plástica, caças ao tesouro, entre outras. Mas há sobretudo uma que deixa, como nos conta Fátima Brochado, os utentes do ATL eufóricos: as dormidas na instituição de sexta-feira para sábado. Algo que acontece uma vez por ano, em que os meninos e meninas trazem o saco cama, jantam no Centro, e posteriormente fazem uma atividade, que pode passar por uma ida ao cinema, ou uma incursão ao bowling, e, no regresso à instituição, é realizada uma ceia antes de uma noite... às claras, «porque eles simplesmente não dormem, com a euforia de estarem todos juntos a passar a noite no mesmo espaço», diz-nos a coordenadora, que aproveita a deixa para sublinhar que o papel principal do ATL é fazer com que a criança se sinta bem e feliz na instituição, e isso é algo que tem sido conseguido, pois «tem sido usual ouvir da parte de um pai de um adolescente com 14 anos, que é - recorde-se - a idade limite para frequentar o ATL, perguntarem-nos se o filho(a) não pode ficar aqui mais tempo, pois gosta imenso de aqui andar; ou outras vezes termos pais cujos filhos já adolescentes e autónomos para ficarem em casa sozinhos preferem vir para cá no tempo de interrupções letivas de modo a participarem nas nossas atividades. Isso deixa-me contente e orgulhosa do trabalho que aqui desenvolvemos. É sinal que eles são felizes aqui», frisa com orgulho a coordenadora. Ainda no campo das atividades Fátima Brochado destaca três grandes momentos do ano que deixam os utentes da valência em êxtase, mais concretamente as festas de Natal, da Família e do Final do Ano. Esta última festa é aliás aproveitada pelo ATL para levar a cabo campanhas de angariação de fundos junto da comunidade local no sentido melhorar as suas infraestruturas, de angariar verbas para a aquisição de novos equipamentos (recentemente, como nos conta Fátima Brochado, foi comprado um computador e um LCD) ou para efetuar passeios/atividades mais dispendiosas para os encarregados de educação. Neste aspeto a coordenadora da valência aproveita esta nossa visita para endereçar um muito obrigado às seguintes empresas locais que sistematicamente ajudam os menino(a)s do ATL a atingirem alguns dos seus objetivos materiais, digamos assim: Bompiso, Pastelaria Vila Beatriz, Raíz Quadrada, Forno da Estação, Damira, Beta, Vidraria Armando, Padaria Lino, Café Cancela, Confeitaria Catinuno e o Modelo/Continente. Realça ainda o envolvimentos dos encarregados de educação neste tipo de iniciativas de angariação de fundos, referindo-se aos pais e mães como inexcedíveis e sempre prontos a colaborar quando lhes é solicitado.

    NÚMERO RECORDE DE UTENTES

    Atualmente, o ATL do CSE é frequentado por 149 utentes, um número recorde na história recente da instituição. Facto que acontece não só porque no ano letivo que agora arrancou houve poucas desistências e/ou saídas, mas também pelo encerramento da Associação Nova Iniciativa, outra instituição da cidade que fazia o acolhimento a crianças desta faixa etária. Fátima Brochado dá-nos ainda conta de que existe uma lista de espera para entrar no ATL, facto que se explica, de acordo com a coordenadora, não só porque o CSE é uma instituição de referência na comunidade, mas também porque a valência é dotada de condições de qualidade, em termos de espaço e infraestruturas. «E depois pelo trabalho que é desenvolvido por toda a nossa equipa, e lá fora isso passa de boca em boca, e muitas vezes procuram-nos porque alguém que esteve aqui deu boas referências do CSE, e isso é muito gratificante para nós».

    O ATL, no seguimento do protocolo celebrado entre a instituição Ermesinde Cidade Aberta e o Estado Português, está a apoiar a integração dos filhos de duas jovens famílias refugiadas oriundas da Síria. «Estava certa que a equipa iria atingir os objetivos deste novo desafio. No entanto ver a forma como os utentes acolheram os seus novos colegas foi e está a ser tocante. São jovens bem formados e já com valores de cidadania. O meu obrigado à equipa e aos encarregados de educação dos utentes», refere.

    Diz-nos que é com tristeza que muitas vezes assiste à saída de utentes da instituição, porque os pais, por uma razão ou por outra, não têm condições para os manter aqui e procuram outras soluções. Outra das dificuldades atuais da valência prende-se com a questão dos transportes. Isto é: com tantas crianças para ir buscar às escolas, e quase todas elas a saírem das aulas ao mesmo tempo, torna-se complicado aos motoristas estarem a horas nos vários estabelecimentos de ensino - na sua esmagadora maioria situados em Ermesinde - para recolherem os utentes e trazerem-nos para o ATL. «Este ano, com um número tão grande de utentes, precisávamos de ter mais um veículo de transporte. Aliás, se fosse tão fácil como foi comprar recentemente o computador, gostávamos de poder adquirir um pequeno autocarro para transportar mais crianças - um sonho, claro«, diz Fátima Brochado, para quem este serviço do transporte de utentes assume grande importância no serviço global que a valência presta.

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    «SINTO UM ENORME ORGULHO NA EQUIPA DO ATL»

    Ao longo desta conversa Fátima Brochado evidenciou sempre orgulho no trabalho que é desenvolvido pela pequena equipa que dá vida ao ATL do CSE. Uma equipa que segundo a coordenadora da valência desenvolve um trabalho intenso ao longo de todo o ano, de forma dedicada e empenhada, que se apresenta coesa, e que por isso constitui, perante os encarregados de educação, uma garantia de qualidade no processo de educação das suas crianças. «Somos acima de tudo uma família, onde o problema de uma funcionária, seja de índole pessoal ou profissional, é vivido e partilhado por todas. Há uma entreajuda enorme. Posso dizer que muitas vezes algumas estão de férias e ligam para cá no sentido de saber se está tudo bem, se este ou aquele problema já foi resolvido, além de que diversas vezes levam trabalho para casa. Sinto um enorme orgulho nelas», ressalvou. A equipa do ATL do CSE é constituída da seguinte forma: Susana Araújo (Educadora Social), Sílvia Marinho (Educadora de Infância), Rosário Monteiro (Ajudante de Ação Educativa), Paula Virgínia (Ajudante de Ação Educativa), Goretti Correia (Ajudante de Ação Educativa), Fátima Amaral (Auxiliar de Serviços Gerais) e Fátima Brochado (Educadora de Infância).

    Por: Miguel Barros

     

     

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