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Edição de 30-06-2022
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    Arquivo: Edição de 31-01-2016

    SECÇÃO: Crónicas


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    Feliz aniversário menina

    Há mais de 20 anos atrás celebrava-se o aniversário de uma pessoa única e de traço único (como seremos todos nós). A doença não o poupou e um AVC, associado a diabetes, remeteu-o para o estado de dependência com o qual teve que aprender a lidar. Ao casal de madurinhos, valia-lhes uma menina de quem se tinham tornado cuidadores dos tempos livres da escola e que o tempo a transformou no seu raio de luz. Certo é que por vezes se entrava porta dentro e lá estava o patriarca da casa com molas presas ao cabelo, com xailes enrolados e quando dizíamos àquela menina que parasse de o aborrecer ele não deixava - o brilhozinho dos olhos dava para perceber que essas brincadeiras o deliciavam e divertiam.

    Neste dia especial, como são as datas de aniversário, a menina pergunta pela prenda que se lhe deveria oferecer. A resposta é que depois se compraria uma lembrança e naquele momento a festa que se estava a organizar já seria uma prenda suficiente. Percebi que esta resposta não a satisfez e isto porque mais tarde, já em grupo, num convívio com gente bem-disposta, preparava-se o bolo para a canção de parabéns e eis que esta menina chega junto do aniversariante e lhe faz a entrega de um bilhete que lhe tinha preparado como prenda de aniversário. Ele não o leu e incumbiu-a dessa tarefa. Ela anui e perante o silêncio que se fez sentir naquela sala a uma dada altura ouvíamos-lhes os soluços que foram afagados pelas mãos doces de uma menina que o amava como só ela o sabia fazer.

    Muito mais tarde, fui buscar esta lição e transferi o peso do sentimento que a escrita pode conter para os meus apontamentos. Escolher rostos que de alguma forma o meu coração identifica terá sido a opção encontrada à prenda que nem sempre nos será permitido comprar, para quem nos dá o suficiente que nos faz agarrar de novo à vida. A uma dada altura, aquela em que temos que ancorar em algo que algum dia tenha feito sentido, ter-me-ei "abastecido" destes pequenos detalhes que me ficaram registados na memória, felizmente para mim. Sentir que a pessoa se transfere para dentro dos meus textos provoca-me a mesma emoção que anos atrás vi na substituição inigualável de uma prenda que estou certa nunca surtiria o mesmo efeito. Daí, se calhar, a dor que provoca o pouco respeito que merecerá a escrita a uns, e emoção na força e impulsão na coragem que ela origina noutros.

    O tempo voou. A menina cresceu, em tamanho, em atitude, em sentimento. De caráter vincado lutava por tudo aquilo em que acreditava. Isso levou a que não tivesse só voado o tempo mas a menina também, atrás dos seus sonhos e dos seus ideais de vida. Num tempo que é o de hoje, os seus olhos verdes, da cor das esmeraldas não deixam margem para dúvidas - o caminho está encontrado, ainda mais que já é percorrido dando a mão a uma outra menina, esta de olhos azuis da cor de um mar, que compõe o oceano que as separa de um país que sempre estará à beira-mar plantado e repleto de corações presos a um sentimento que também nenhum oceano separa.

    Janeiro é o primeiro mês do ano e no seu dígito 27 a menina de quem já podemos ter um beijo e um xi-coração sem nada ter que dar em troca (suprimido pela timidez ultrapassada pelo crescimento de quem passa praticamente todo o ano a milhares de quilómetros de distância) festeja os seus 5 aninhos de vida. Nesta idade ainda tão tenra, não lhe compete perceber que tem junto dela o maior tesouro de todos - uns pais que a sabem amar por inteiro. Da maior prenda que vai receber está lá a que não é de menor valor e aqui falamos do tempo - aquele de que se dispõe para escolher a lembrança que lhe fará brilhar o rosto de felicidade e o tempo para degustar em pleno de momentos que mais que inigualáveis, são irrecuperáveis.

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    A milhares de quilómetros de distância lembrei-me de repetir o gesto da menina que já foi a sua mãe e dedicar-lhe este texto (que só lhe será estendível em idade adulta), como se a sentisse escutá-lo, com aquele sorriso que nos envolve até ao âmago de nós mesmos. Imagino que a impaciência nem a deixaria chegar ao final do primeiro parágrafo. A pergunta seria - "avó, os meus tesouros?". E lá andaríamos nós à caça de tesouros compostos de coisas muito simples (cujo valor monetário ela ainda não distingue), que são espalhados em lugares recônditos e permeáveis às gargalhadas cristalinas com que ela acompanha a alegria e a emoção quando os encontra.

    Sempre que olho o rosto desta menina lembro-me do tão justo seria que todas as crianças fossem bem-amadas. Infelizmente não existe fórmula para o amor, nem mesmo na forma como se ama um filho. Tenho-me dado conta que cada um dá o melhor ou o pior de si e isto se calhar na proporção em que também receberam, no tempo do seu tempo. Quando pensei que este dialeto do amor era universal, equivoquei-me pois percebi que este sentimento tem a forma como cada um o perceciona. Certo é que mesmo as crianças amadas duma forma que as penaliza, desculpam tudo e acredito que bem no fundinho do seu coração esperam que o amanhã seja diferente e que, talvez, as coisas mudem, mesmo num tempo de espera que será em vão, feito de vãs promessas que se desfazem em menos tempo do que saborear um pequeno chupa-chupa.

    E se eu, adulta que sou, achava escabroso que "as trocas", em relação a laços afetivos ou simples relações de amizade tivessem implícito a permuta de algo, ou de alguma coisa, em tempos maduros é a vida que agora me fez mudar de opinião. Percebi que é mais uma das coisas que catalogamos na classe do "cultural". Infelizmente parece que afinal isso é da praxe - "faz parte" e "ninguém dá nada a ninguém, sem moeda de troca". As exceções que se encontram (que também existem entre adultos), passam pela genuinidade de uma criança (enquanto não for formata), que consegue partilhar tudo o que tem dentro de si mesmo a "troco de nada" - um mero sorriso ou um afago, que significará tanto.

    Em "Feliz como uma Criança", corroboro o que escreveu Mário Sá Carneiro in 'O incesto':

    "Oh! A idade venturosa da infância! Onde há outra mais feliz e mais tranquila, mais sorridente - isto é, mais egoísta?... Em volta de nós podem suceder as piores catástrofes. Se elas nos não arrancam nem os brinquedos nem os bolos, não nos atingem de forma alguma... não as compreendemos sequer...

    Quando muito, correm-nos lágrimas vendo chorar as nossas mães. No entanto, é só ainda vagamente que percebemos a dor humana. Por isso as nossas lágrimas secam depressa diante dos brinquedos. E se o quadro em que nos agitamos é risonho, a infância transforma-se-nos então num jardim maravilhoso. Para as crianças felizes, só para elas, existe realmente um céu - o céu dos seus primeiros anos."

    Vida longa e feliz para ti menina de olhos azuis da cor do céu e do mar. Se puderes e a vida assim o permitir, tenta que o crescimento não te faça abandonar essa menina dos teus primeiros anos, que conviverá contigo no jardim maravilhoso em que dessa forma transformarás a tua vida.

    Por: Glória Leitão

     

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