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Edição de 31-01-2021
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    Arquivo: Edição de 12-07-2014

    SECÇÃO: Destaque


    Jacinto Soares guiou-nos numa deslumbrante viagem pela história do Santuário da Santa Rita

    “Santa Rita do passado ao presente”, foi este o nome da primeira de uma série de 12 tertúlias que o projeto Raízes se propõe edificar no sentido de (re)descobrir – como o próprio nome indica

    – as raízes da nossa cidade.

    Foto MANUEL VALDREZ
    Foto MANUEL VALDREZ
    (Re)visitar o património, as histórias a ele associados, as lendas, ou as tradições, são algumas das missões que este projeto incorporado por guardiões da história local como Jacinto Soares, Manuel Augusto Dias, Augusta Medeiros, ou Fernanda Lage vão levar a cabo uma vez por mês durante um ano. E a primeira tertúlia teve lugar no passado dia 20 de junho, quando no auditório da Junta de Freguesia de Ermesinde o historiador Jacinto Soares esmiuçou a(s) história(s) em torno da Santa Rita. Diante de uma plateia ocupada por um número muito reduzido de público – quanto a nós o ponto negativo da noite, já que uma iniciativa rodeada de interesse como esta era merecedora de casa cheia, no mínimo – o popular historiador local começou por recuar até ao longínquo 1745, ano em que um abastado negociante portuense, de nome Francisco da Silva Guimarães, decide doar aos Ermitas Descalços de Santo Agostinho a então Quinta da Mão Poderosa no sentido de que ali fosse erguido um convento e uma igreja, tendo exigido, como contrapartida, que ele e seus descendentes fossem sepultados na futura igreja e rezadas duas missas diárias pelas suas almas! A primeira pedra para a construção do idealizado espaço religioso é colocada quatro anos mais tarde, em 1749, começando por ser construídos os dormitórios daquele que viria a chamar-se Convento da Mão Poderosa. Não deixa de ser curioso o facto de um ano antes do lançamento da primeira pedra ter sido realizada a primeira procissão de fé da história de uma igreja que seria posteriormente batizada de Nossa Senhora do Bom Despacho, de quem a congregação ali instalada era devota. Só mais tarde aparece a referência a Santa Rita de Cássia, que havia entrado para um convento agostiniano feminino, tendo a igreja sido rebatizada para Santa Rita, tal e qual a conhecemos nos nossos dias.

    O RIQUÍSSIMO ESPÓLIO

    De arquitetura barroca a igreja possui um riquíssimo e vasto espólio, sobre o qual Jacinto Soares entrou em detalhados pormenores, como por exemplo, as imagens e as pinturas de arte sacra, residindo aqui, no entanto, alguma discordância quanto à autoria de alguns desses quadros, sendo que muitos historiadores apontam o nome de Domingos Sequeira, outros há que discordam desta teoria, por assim dizer. No entanto, e segundo Serralves, Domingos Sequeira terá pintado no Convento da Nossa Senhora do Bom Despacho da Mão Poderosa quatro quadros, a saber, uma Sagrada Família, uma Anunciação, um D. João VI, e uma Madona. Com base neste testemunho pôde-se concluir que pelo menos a Anunciação está representada nos quadros da capela mor. Em relação ao espólio Jacinto Soares atalha ainda para uma outra história, contando que D. Pinho Brandão, bispo, aquando da edificação do Museu de Arte Sacra do Porto, do qual foi fundador, efetuou um preâmbulo pela Diocese do Porto no sentido de recolher algumas peças – as mais bonitas aos seus olhos – para o futuro museu, e ao passar pela Formiga ter-se-á apaixonado de imediato por uma imagem de Nossa Senhora, que mais tarde, e por ação do então Bispo do Porto D. António Ferreira Gomes, voltou a Ermesinde, juntamente com uma Sagrada Família e uma Árvore de Jessé, outros objetos que fizeram a viagem do Igreja da Mão Poderosa da Nossa Senhora do Bom Despacho para o Museu de Arte Sacra.

    Pegando noutras notas históricas – e foram muitas ao longo da noite – lançadas pelo orador, 1812 salta à vista, já que em julho desse ano é tomada a decisão em definitório (assembleia) celebrado no Convento da Boa Hora, em Lisboa, que dali em diante, fossem celebradas, impreterivelmente, as festividades de Santa Rita, apontando para as mesmas o dia 22 de maio. De lá para cá a Santa Rita tornou-se numa das maiores romarias do Grande Porto, trazendo a Ermesinde milhares de forasteiros que vinham – e continuam a vir – venerar a santa conhecida pela advogada das causas impossíveis.

    PALCO

    DE LUTAS LIBERAIS

    Foto ARQUIVO
    Foto ARQUIVO
    Cerca de duas décadas mais tarde – ao ano de 1812 – o local testemunha outro acontecimento da história nacional, as Lutas Liberais (1828-1834). A região do Porto assumiu-se como palco principal desta guerra civil que colocou frente a frente absolutistas e liberais, sendo que nas proximidades da Formiga – zona onde se situa a Igreja da Santa Rita – teve lugar um dos mais trágicos combates travados ao longo da citada guerra, sendo que muitos dos soldados que lá tombaram seriam enterrados em vala comum no adro da igreja, restos mortais esses que após terem sido descobertos, tempos mais tarde, deram aso à edificação de uma lápide – situada junto à escadaria da igreja – que assinala o sarcófago onde repousam os restos mortais dos muitos soldados que ali – ou próximo daquele local – perderam a vida em combate. Aliás, e ainda no que diz respeito às Lutas Liberais, o Convento da Formiga serviu de hospital para as tropas de D. Miguel, que ali esteve, por inúmeras vezes, de visita aos seus homens.

    Avançando quase um século no tempo, 1912 é outro ano merecedor de uma nota vincada, já que o Presidente da República de então, Manuel de Arriaga, assina o alvará que autoriza a construção do Colégio de Ermesinde (situado ao lado da igreja), que é hoje uma das grandes referências da nossa cidade. Sobre o citado estabelecimento de ensino Jacinto Soares traçou algumas curiosidades, entre muitas outras o facto de nos anos 50 ter ocorrido a “democratização” do colégio, isto é, passou a ser frequentado por “toda a gente”, enquanto que antes era sobretudo frequentado por alunos – internos – vindos das colónias.

    Ao longo desta tertúlia vários nomes foram sendo recordados pelo historiador Jacinto Soares como figuras importantes na história da Santa Rita, destacando-se, no entanto, um deles, o de Joaquim Ribeiro Teles, célebre benemérito ermesindense. Este homem tornou-se proprietário da Quinta da Mão Poderosa – onde estava edificada a igreja e mais tarde o colégio – na sequência do seu casamento com a herdeira do anterior dono do citado espaço, de nome Manuel Francisco Duarte Cidade, sendo que Ribeiro Teles deixou – após a sua morte, em 1933 – em testamento, ao então Bispo do Porto, Castro Meireles, todos os seus bens na Formiga, destacando-se, claro, a igreja de Santa Rita, e os terrenos da Quinta da Mão Poderosa. Por sua vez, em 1941, Castro Meireles transfere esses bens para a Diocese do Porto, que é hoje em dia a detentora de todo aquele património.

    Num passado mais recente, outro facto histórico é digno de registo. Recuemos então até 2002, altura em que o hoje denominado Santuário de Santa Rita foi escolhido para a irmanação com o Santuário de Cássia, localidade de onde é oriunda a citada santa, tendo diversas autoridades ligadas ao santuário sido convidadas a visitar aquela cidade italiana. Visita essa que seria retribuída um ano mais tarde, quando um conjunto de personalidades ligadas ao santuário de Cássia visitou a nossa cidade para selar então a irmandade entre os dois santuários.

    Estas foram algumas notas soltas retiradas da longa e pormenorizada palestra levada a cabo pela memória viva da nossa cidade, que é Jacinto Soares, sobre aquele que é sem margem para dúvidas um dos maiores símbolos de Ermesinde, o Santuário da Santa Rita. Apresentamos ainda aqui um pedido de desculpas antecipado ao ilustre historiador local por qualquer eventual lapso na transcrição de algumas destas notas históricas, admitindo – por vezes – ser difícil transcrever a precisão da sabedoria de Jacinto Soares.

    Por: Miguel Barros

     

     

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