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Edição de 31-12-2020
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    Arquivo: Edição de 12-07-2014

    SECÇÃO: Destaque


    40 ANOS DO 25 DE ABRIL

    A Comissão de Moradores dos Montes da Costa

    O jornal “A Voz de Ermesinde” prossegue neste número uma série evocativa dedicada à memória dos primeiros tempos que se sucederam ao 25 Abril em Ermesinde. O que interessará mais focar nestes artigos é a parte mais desconhecida das atividades desses tempos, correspondente a uma organização popular muito genuína, mas porque não (ou ainda não) organizada de uma forma partidária, ausente desses registos e, por isso mesmo, em perigo dessa memória se perder para sempre.

    ELES FORAM MEMBROS DA COMISSÃO DE MORADORES DOS MONTES DA COSTA
    ELES FORAM MEMBROS DA COMISSÃO DE MORADORES DOS MONTES DA COSTA
    Uma das atividades práticas da Frente Democrática Popular de Ermesinde, a que aludimos no último artigo, foi o apoio aos processos de autoconstrução de habitação que, em algumas zonas de Ermesinde, como nos Montes da Costa, os moradores encetaram.

    Os Montes da Costa eram então muito diferentes daquilo que são hoje; então a urbanização do local era inexistente, e essa foi uma das dificuldades que então os populares, que se organizaram em Comissão de Moradores, tiveram que encontrar.

    O correio não era ali distribuído, os bombeiros não podiam lá chegar porque se atascavam na lama, não havia ali nenhuma escola, não havia luz elétrica, etc., etc.. Mas havia uma grande vontade e união entre todos para se ajudarem uns aos outros na construção da sua casa e, a pouco e pouco, uma nova “cidade” foi nascendo e as infraestruturas lá foram aparecendo.

    Ali, antes, eram só pinheiros, recordam. Quanto aos terrenos que compraram, embora os lotes já estivessem organizados, tudo o mais faltava. Por isso as escrituras dispunham sempre que dada a sua urgência, todas as responsabilidades incumbiam ao comprador.

    Participaram na Comissão de Moradores Manuel Pereira, em cuja cave o grupo se reunia, sendo a “sede” daquele órgão, Fernando Moutinho, Luís Ferraz, Libório David, Armando Dinis, Agostinho Teixeira, António Sousa, António Sousa, Manuel Salabert, Leonor Mota – uma mulher a quem os homens reconhecem o empenho para levar avante as iniciativas da Comissão de Moradores – e mais um ou outro, seriam à volta de uns onze.

    Diomar Santos, António Vilas Boas e Fernanda Lage, sobretudo a última, como ainda hoje reconhecem os velhos companheiros desta aventura, foram alguns dos que os apoiaram no processo.

    Manuel Pereira recorda ainda agora o conselho da arquiteta para nunca aprisionarem as águas, porque o local era muito húmido e chegou a passar-lhes pela cabeça cimentar tudo para as reter.

    No processo de urbanização que, mais ou menos espontaneamente, foram levando a efeito, coube-lhes também fazer a escolha dos nomes das novas ruas que, a pouco e pouco, iam tomando forma. Foi assim que batizaram as novas artérias com nomes como António de Spínola, Álvaro Cunhal, 21 de Julho, Saraiva de Carvalho, 9 de Agosto, Humberto Delgado e Catarina Eufémia.

    Depois, com a formalização autárquica, a toponímia de alguma destas ruas não foi aceitável para a autarquia, e novos nomes foram aparecendo por sugestão então aceite dos moradores. A Rua António de Spínola passou a ser a Rua D. Afonso Henriques, a Rua Álvaro Cunhal passou a Rua da Liberdade, a Rua Saraiva de Carvalho a Rua Nuno Tristão (o navegador português do século XV que atingiu a Guiné; foi também um explorador e traficante de escravos, um pormenor provavelmente desconhecido para estes lutadores dos Montes da Costa)...; a Rua Catarina Eufémia passou a Florbela Espanca, a 21 de Julho a Aquilino Ribeiro, mas 9 de Agosto e Humberto Delgado conservaram o nome.

    Curiosamente, se para a toponímia concelhia, 21 de Julho não foi aceitável, 9 de Agosto ficou consagrada.

    Mas que datas são estas? Manuel Pereira esclarece: «Para a Câmara 21 de Julho não tinha nenhuma importância, mas era para nós importantíssima, porque foi a data em que criamos a Comissão de Moradores».

    Aliás Manuel Pereira conservou anos a fio, até muito recentemente, as atas da Comissão, entretanto destruídas, com pena dele.

    Fotos URSULA ZANGGER
    Fotos URSULA ZANGGER
    Mas a outra data, a que ainda hoje permanece numa das ruas, 9 de Agosto, é verdadeiramente curiosa, uma espécie de fóssil toponímico que deve ter passado despercebido.

    Trata-se de relembrar a data de um ato de resistência violenta levado a cabo contra o regime de Salazar, quando uma bomba colocada pelas Brigadas Revolucionárias do PRP, mandou pelos ares um poste de alta tensão que existia nos Montes da Costa.

    Numa coincidência macabra, foi também a data (em 1945) em que os Estados Unidos lançaram a segunda bomba atómica, sobre Nagasaqui, no Japão, causando – crê-se –, cerca de 80 mil mortos.

    Nestas ruas que então a organização popular fez aparecer, a Câmara limitou-se a ajudar a pôr a brita, os moradores é que fizeram o trabalho.

    No início as casas eram de acesso muito difícil, as ruas não passavam de um caminho estreito onde uma ambulância ou um médico dificilmente chegavam.

    Outro facto que recordam: quando puseram a eletricidade tinham-lhes prometido que ela viria para todas as casas ao mesmo tempo, mas ao invés do prometido, apenas duas ficaram ligadas. Então foram à cabine e desligaram tudo, levando a chave, que ninguém sabia quem tinha. Mas de repente o assunto resolveu-se e houve luz para todos.

    Uma outra luta que recordam, esta de uns anos depois, foi quando, reclamando melhores transportes, desviaram o autocarro 94, que veio pelos Montes da Costa. “Porto via Ermesinde”, era esse o percurso, situação que terá sido relatada no “Correio do Douro” de então.

    A Comissão manteve-se ativa por muitos anos, organizava festas, chegaram a ter um campo de futebol onde jogavam, com a permissão do proprietário, o abastado lavrador Manuel António, de uma das casas de lavoura mais conhecidas de Ermesinde. E criaram também um grupo de atletismo. Chegaram ainda a criar um rancho – este durou aí uns 14 anos.

    Depois, sem meios nem auxílio – o Governo Civil e Junta deixaram de os apoiar, lamentam – acabaram por o deixar cair. Os Montes da Costa cresceram, já eram outros tempos, e a Comissão acabou por desaparecer. Mas Manuel Pereira, por exemplo, recorda ainda os comunicados que tiravam na vietnamita lá na sua cave, e os olhos ainda brilham a relembrar esses tempos de atividade tão entusiástica.

    Por: LC

     

     

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