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Edição de 31-05-2019
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    Arquivo: Edição de 18-06-2014

    SECÇÃO: Desporto


    ENTREVISTA

    O sonho tornado realidade: Valongo é campeão nacional de hóquei em patins

    Estaremos perante a conquista mais importante da história do desporto do nosso concelho? É uma questão discutível, para uns sim, para outros não. Agora, dúvidas parecem não haver de que foi umas das mais brilhantes e imponentes, e que com toda a certeza irá perdurar pela eternidade fora. Um sonho tornado realidade, pelo menos na voz daqueles que consigo carregam a fervorosa paixão pelo hóquei patins, a modalidade que reina na sede do concelho valonguense há seis décadas a esta parte e que no passado dia 31 de maio conheceu então o tal capítulo brilhante e imponente da sua história, na sequência da conquista do título de campeão nacional da 1ª Divisão por parte da Associação Desportiva de Valongo.

    Um feito que faz com que por esta altura Valongo ande nas bocas do Mundo. São muitos os curiosos – comunicação social à cabeça – que querem conhecer de perto a essência de um êxito que pode ser encarado como o triunfo de David sobre Golias. E para recordar/explicar os detalhe do sucesso ninguém melhor do que Álvaro Figueira, o “número 1” da Comissão Administrativa (CA) que lidera os destinos dos novos campeões nacionais, figura esta com quem o nosso jornal esteve à conversa.

    Fotos ALBERTO BLANQUET
    Fotos ALBERTO BLANQUET
    31 de maio de 2014. Dia em que se decidia o vencedor do Campeonato Nacional da 1ª Divisão. Todos os caminhos iam dar a Valongo, e ao seu pavilhão municipal, que acolhia uma autêntica final entre as duas únicas equipas que poderiam ainda sonhar com o ceptro de campeão, a Associação Desportiva de Valongo e o Futebol Clube do Porto. Aos portistas bastava um empate para revalidar o título, enquanto que para concretizar o sonho de pela primeira vez ser campeão o Valongo precisava de uma vitória. O trajeto que vai do sonho à realidade durou 50 minutos, período de tempo em que o Valongo se tornou gigante e aniquilou por completo o favorito FC Porto, alcançando um triunfo por 5-3 que fez explodir de alegria o para lá de lotado – e infernal – Pavilhão Municipal. Aos 60 anos de idade o Valongo era finalmente campeão nacional de hóquei patins. Ao fim de 60 anos de intensa procura o título mais ambicionado tinha sido encontrado. Hugo Azevedo, André Girão, Nuno Araújo, Telmo Pinto, Miguel Viterbo, Rafa, João Souto, Henrique Magalhães, João Sampaio, Xavi Cardoso, ou Paulo Pereira ganharam a partir daquele dia o estatuto de imortais, de mitos, cujos nomes irão ser recordados para sempre quando de hóquei se falar nas ruas e cafés valonguenses. Hóquei em Valongo é sinal de paixão, sendo pois com sorrisos de orelha a orelha que o povo valonguense extravasa por estes dias o que lhe vai na alma. Um desses valonguenses orgulhoso é Álvaro Figueira, que entre inúmeras solicitações de entrevistas endereçadas por órgãos de comunicação social do norte ao sul do país lá arranjou uns “5 minutos” na sua preenchida agenda para conversar com o nosso jornal. Em discurso direto o líder da CA recorda o momento histórico alcançado pelo clube do seu coração.

    A Voz de Ermesinde (AVE): Ser campeão nacional era a meta que o clube vislumbrava no horizonte na partida da época de 2013/14?

    Álvaro Figueira (AF): Não. O nosso objetivo passava por melhorar o 4º lugar obtido na época anterior, e como tal, nunca assumimos a candidatura ao título. Acontece que durante a época fomos muito regulares, muito competentes, e no final acabámos por ser recompensados por todo este grande trabalho.

    AVE: Muitos foram aqueles que encararam a conquista deste título como uma espécie de vitória de “David sobre Golias”. Uma metáfora que tem alguma razão de ser, visto que FC Porto e Benfica, quiçá os dois crónicos candidatos ao título época após época no passado mais recente, terem orçamentos mais elevados do que emblemas como o Valongo. Face a isto, que armas o “pequeno David” usou para derrotar os “gigantes Golias” do hóquei nacional?

    AF: Fomos uma equipa com muito valor, competente, bem organizada, com estabilidade e apoiada tanto em casa como fora, por uma massa associativa única, o chamado “6º jogador” que nunca se afastou do grupo. Enchemos o nosso pavilhão, enchemos o Dragão Caixa e muitos outros. Quando alguma coisa falhava, lá vinham as palmas e os cânticos da bancada levantar o ânimo aos nossos atletas. Lembro me por exemplo que no primeiro treino depois da derrota com o Turquel 40 ou 50 adeptos surpreenderam tudo e todos ao entraram no pavilhão a cantar e puxar pelos nossos atletas. Sem a pressão de ter que ganhar o campeonato fomos pensando jogo a jogo em alcançar a vitória, e assim chegamos ao primeiro lugar com todo o mérito e justiça.

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    AVE: O trajeto do Valongo neste campeonato foi memorável. A equipa ocupou jornadas a fio a liderança da prova, embora a tenha perdido a meio da segunda volta (terminando a prova no primeiro posto em igualdade pontual com FC Porto e Benfica, embora levando a melhor sobre ambos no confronto direto). Qual foi o momento da época em que vocês sentiram de facto que podiam ser campeões?

    AF: Alguns "entendidos" do hóquei diziam que a nossa equipa só se aguentaria nos primeiros lugares apenas durante a primeira volta. Ainda bem que se enganaram... Eu fui sempre muito cauteloso em relação ao primeiro lugar, porque embora soubesse da qualidade que tinha dentro das portas, também sabia que a reta final do campeonato iria ser muito exigente. Acreditei que poderíamos vencer este campeonato depois do FC Porto vencer o Candelária (na penúltima jornada) e tirar de imediato o Benfica da corrida pelo título. A partir de então a decisão passava única e simplesmente pelo último jogo, que era em nossa casa e aí sabia que não iriamos perder a oportunidade única de ganhar o primeiro campeonato da história deste clube. Um campeonato que devo dizer ter sido dos mais disputados dos últimos anos, tendo nós, inclusive, tido alguns contratempos durante o percurso, o mais saliente de todos, talvez, a inesperada derrota em casa diante do Turquel.

    AVE: Valongo é uma terra que vive o hóquei de uma forma muito peculiar, talvez única no país, estando, como tal, este título a ser celebrado de uma forma muito especial...

    AF: É o concretizar de um sonho. “Alguém” dizia que tinha um sonho, e que esse sonho era ver o nome deste pequeno clube inscrito ao lado do dos clubes campeões. Este título foi um realizar de um sonho para muitos valonguenses, onde eu, naturalmente me incluo. Esta cidade sempre acarinhou esta modalidade, desde o primeiro dia em que ela “aqui chegou”, acolheo-a de uma forma muito especial. Nos cafés só se fala de hóquei e aqui os jogadores são tratados como em nenhum outro lugar.

    Basta assistir a uma partida de hóquei aqui em Valongo para se sentir a forma como as pessoas vivem e gostam da modalidade. Aliás, não só nos jogos em nossa casa como em todos os que realizámos fora, sendo que ao longo desta época vimos muitos adeptos do Valongo em Lodi, Barcelona, St. Omer, ou Lisboa, onde disputámos jogos.

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    AVE: Por falar em St. Omer, Barcelona, ou Itália. Estes foram alguns dos locais que o Valongo visitou nesta temporada em virtude de ter regressado à elite do hóquei patinado europeu, nesta caso a Liga Europeia. Que balanço podemos fazer deste regresso à prova mais importante do calendário da CERH?

    AF: Foi fantástico. Nos últimos anos, já tínhamos sido apurados para a Taça CERS, mas o 4º lugar do ano passado deu nos acesso à Liga Europeia (o equivalente à Liga dos Campeões da Europa no futebol) e aí tínhamos que estar presentes. Também aqui alcançámos o nosso grande objetivo que passava por passar a fase de grupos, tendo posteriormente sido eliminados nos quartos-de-final pelo Barcelona, que viria a sagrar-se campeão da Europa. Mas repito, foi uma experiência fantástica.

    AVE: A carreira do Valongo fez com que os vossos jogadores – e o próprio treinador Paulo Pereira – despertassem à atenção não só de clubes como também da própria seleção nacional, que na convocatória para o último Campeonato do Mundo veio “aqui” recrutar o guarda-redes André Girão. Acha que com a conquista deste título de campeão outros atletas do Valongo podem vir a seguir o caminho de Girão?

    AF: Não tenho qualquer dúvida que mais ano menos ano mais jogadores nossos vão chegar à seleção. Têm muito valor e a nossa seleção tem dado mostras de que precisa de sangue novo. O nosso setor da formação está no seu auge, e a prova disso é não só os jogadores que temos na equipa sénior mas também o facto de nos últimos três anos termos vencido nove de 12 títulos do Distrito do Porto ao nível dos escalões de formação. Além disso fomos campeões nacionais de sub-13, e vice-campeões de sub-20 num passado recente, e esta época já garantimos a presença em mais três fases finais de campeonatos nacionais onde podemos vir a conquistar mais títulos. Ressalvo por isso a nossa excelente organização no plano da formação, e aqui tenho de destacar o Paulo Pereira (que está no Valongo desde os 4 ou 5 anos de idade!), que além de ser o nosso treinador da equipa sénior é juntamente com o João Paulo Almeida o coordenador responsável por todos os escalões. Atualmente temos cerca de 150 atletas nos nossos escalões de formação, mas caso tivéssemos mais espaço tenho a certeza de que podíamos fazer muito melhor.

    AVE: Já que fala em fazer muito melhor, e voltando aos seniores, fazer muito melhor na próxima época seria no máximo repetir a conquista do título de campeão, até porque este é o “melhor” que qualquer clube ambiciona fazer. Como é que está a ser encarada a próxima época?

    AF: Voltar a vencer o campeonato não é impossível mas será muito difícil. Não nós vamos desviar da nossa maneira de trabalhar, que passa por ter equipas competitivas baseadas na matéria prima oriunda dos escalões de formação. Todos os anos temos lançado juniores e vamos continuar a investir nos nossos jovens atletas. Em termos de plantel o Rafa e o Girão vão sair do clube, o primeiro vai para o FC Porto e o segundo para o Sporting, sendo que para os seus lugares já foram contratados o Gonçalo Suissas e o Domingos Pinho, ambos oriundos da Oliveirense. Em suma, vamos continuar a ser muito competitivos e... sem grandes custos.

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    AVE: Os obstáculos financeiros têm sido nos útlimos anos um adversário difícil de ultrapassar para o tecido associativo nacional. O Valongo também se perfila neste cenário de crise?

    AF: Em relação à vertente financeira temos tido muito trabalho, mas tem sido um esforço gratificante. Temos tido apoios provenientes de empresas de Valongo, seja do comércio ou da indústria, todos nos têm ajudado dentro do que lhes é possível. Neste aspeto destaco a Colquimica, o nosso principal patrocinador, sem o qual este trabalho não seria possível. No que concerne a apoios sublinho igualmente o papel da Câmara Municipal de Valongo e da Junta de Freguesia de Valongo, a quem agradeço publicamente nas pessoas dos seus presidentes, os quais têm feito um grande esforço para que o nosso trabalho possa ser realizado. Aliás tenho que realçar que esta época desportiva começou com outro executivo à frente da câmara, e também aí tínhamos todo o apoio da força política (PSD) que estava no poder. Sublinho ainda o apoio dos sócios, que neste momento são quase 1100.

    AVE: No desenrolar desta curta conversa referiu-se a este título como o realizar de um sonho para muitos valonguenses, incluindo o Álvaro Figueira. Consgue exprimir em palavras o que lhe vai na alma por estes dias?

    AF: É difícil de explicar... Sinto uma alegria muito grande porque, realizei o sonho de ver o meu clube em primeiro lugar e mais do que isso completei o trabalho que o meu pai, Carlos Figueira, começou nas duas décadas em que esteve à frente do Valongo. Este sucesso tem e deve ser repartido com as quatro pessoas que trabalharam sempre ao meu lado (na CA) durante toda a época, nomeadamente o João Almeida, o Pedro Barata, o Miguel Pinto e o José Ferreira. Este trabalho em equipa pode ser traduzido por uma frase que eu citei vezes sem conta ao longo da época: “Todos juntos somos mais fortes”.

    Por: Miguel Barros

     

     

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