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Edição de 31-03-2021
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    Arquivo: Edição de 18-06-2014

    SECÇÃO: Crónicas


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    Ermesinde, cidade hospitaleira

    Vínhamos “das mais desvairadas partes” sobretudo do Norte (nordeste, noroeste) mas também doutros lugares para sul do nosso Grande Rio. Se falo do Norte é porque a cidade do Porto era o grande centro mais próximo de Bragança, de Vila Real, de Chaves, da Régua, de Valença, de Monção, de Braga e de tantas outras terras onde convergiam populares em busca de emprego, comerciantes a tratar dos seus negócios, miúdos aspirantes a marçanos no pequeno comércio, um punhado de estudantes universitários em gozo de férias ou no seu regresso, candidatos a emigrar no cumprimento de formalidades indispensáveis à viagem para países das Américas.

    Tantas vezes aqui passámos na vinda ou de volta às nossas terras que o nome Ermesinde tornou-se-nos familiar a propósito das apetecidas regueifas que mulheres de lenço apertado ao alto da cabeça carregavam nas suas largas cestas circulando pelas plataformas, em resposta a inúmeros pedidos, retornando, logo a seguir, para receberem o pagamento de quem as solicitara. Na minha inocência infantil – vim aqui, pela primeira vez aos dez anos – interrogava-me como conseguiam elas identificar tantas pessoas cujos rostos, frequentes vezes, mal entreviam, apenas feixes de braços estendidos a sair das janelas do comboio. Alguns não lhes ficariam a dever, ora à procura de trocos, ora, maldosamente, demorando-se à espera que a máquina se pusesse em marcha? E como poderiam elas exigir o pagamento se não havia tempo para entrar no comboio sempre tão apinhado de gente, identificar os faltosos e reclamar o dinheiro que haviam sonegado? Impossível saber, com a certeza, porém, de que partilhavam com eles um sentimento de honradez, no íntimo sabiam que aquela gente era de confiança. A verdade é que, se eram muitos os braços que pediam, não pareciam menos os que estendiam as moedas para satisfazer a compra. Duma coisa estou certo: havia uma grande apetência por aquele tipo de pão em forma de rosca para presentear as respetivas famílias que raramente comiam outro que não fosse o negro centeio ou a costumeira broa de milho, um e outra atualmente tão apreciados por gente de todas as idades e procedências. Pois se, ainda hoje, os residentes do concelho de Valongo mantêm o hábito de levar para casa a regueifa, ou roca, “italiana” ou “espanhola”, o designativo pouco importa. O centeio e o milho já não estão conotados com a vida de sacrifício dos aldeões de décadas passadas! Quantos dos que então por cá passavam não vieram, anos mais tarde, fixar residência nesta cidade ou noutra das que bordejam a “nobre, sempre leal e invicta cidade do Porto”?

    O êxodo rural é um fenómeno muito conhecido em todas as épocas e lugares. Neste país, a fuga à vida sacrificada do campo e a miragem da vida citadina, mais limpa e supostamente mais fácil, tem sido uma constante, com frequência defraudada porque assente em alicerces frágeis e óbvios. A História de Portugal dá-nos conta deste fenómeno desde os primeiros séculos em que os reis foram obrigados a legislar no intuito de fixarem as populações rurais ao amanho das terras, sendo a iniciativa mais conhecida a famosa Lei das Sesmarias publicada em 1375 no reinado de D. Fernando. No entanto, em cada época, obedeceu a motivações específicas. A partir dos anos 50 do derradeiro século, as correntes migratórias para os grandes centros populacionais foram impulsionadas pela elevação do nível de vida em países da América do Norte e Canadá e Europa Ocidental decorrente da nova vaga industrial e por um gradual despertar das populações rurais para a importância da instrução como forma de virem a tomar parte nesse promissor bume económico que se vinha registando. No último quartel do século aumentou consideravelmente o número de jovens inscritos nas Universidades e Institutos Industriais e Comerciais de Lisboa, Porto e Coimbra, um pouco mais adiante nas Universidades já referidas e noutras como Évora, Minho, Aveiro, Beira Interior, Nova de Lisboa agora formando uma só com a antiga Universidade de Lisboa, e Institutos Politécnicos em várias cidades, além de outros estabelecimentos de ensino superior desde que foram criadas legislação e condições de funcionamento para a participação de privados no Ensino Superior. Muitos desses estudantes por cá ficaram após a licenciatura. Muitos que não frequentaram estudos superiores mas obtiveram emprego, quer no setor público, quer no privado, estabeleceram residência nas zonas onde as empresas em que trabalhavam estavam sediadas. Em ambas as situações, com eles deslocaram-se as respetivas famílias ou formaram-se novos agregados. Porque o custo da habitação era muito caro no interior das grandes cidades, neste caso no interior do Porto, a procura expandiu-se às localidades limítrofes, de preferência àquelas que dispunham de bons meios de transporte e muito espaço por ocupar.

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    Ermesinde? Ah, sim! Aquele sítio onde passa o comboio e se veem umas mulheres de grandes cestas enfiadas nos braços apregoando um tipo de pão especial enrolado em forma de coroa… Assim pensavam muitos dos que vinham ao Porto ou dali demandavam as suas terras. Como deixei escrito, tinha dez anos quando por cá passei na ida e no regresso duma visita à chamada capital do Norte que o meu pai me ofereceu como prémio pelo bom desempenho escolar. Arrumadinho a uma janela, por via do meu estômago sensível, capaz de ejetar o seu conteúdo em cima dum colo vizinho com o previsível embaraço paterno, olhava com espanto o agitado vaivém daquelas mulheres e o rebuliço que provocavam no interior do cavalo de ferro.

    Decorreram mais de trinta anos desde que elegemos esta terra para nela vivermos, primeiro no exercício da nossa atividade profissional, depois lançando raízes porventura mais duradouras. Era, então, vila – só desde 1938 – e passaria a cidade cinquenta e dois anos mais tarde. Olhamo-la, embevecidos, como quem contempla uma criança que se vai tornando adulta:

    – Como ela está crescida e bonita!

    É verdade que cresceu desordenadamente. Dum núcleo central em torno da estação ferroviária e alguns bairros dispersos foi aumentando com a demanda de novos habitantes que vieram adquirir habitação e a oferta abundante que, em poucos anos, lhe mudaram a face. Terras agrícolas e zonas alagadiças tornaram-se bairros residenciais plantados de edifícios e de belas moradias, todavia, como em muitos outros casos, de forma um tanto assimétrica e algo desumanizada. Crise de crescimento como aconteceu a muitas outras localidades do país. Ainda guarda, aqui e ali, marcas de ancestral ruralidade a par de comportamentos citadinos estereotipados. Lamentavelmente, tem registado significativa contração económica. Muitas fábricas, umas de grande dimensão, outras menores, foram fechando portas, o comércio local luta corajosamente para ultrapassar a poderosa concorrência da grande cidade a seis quilómetros de distância e de acesso fácil e diversificado. O que é vantagem neste sentido torna-se inconveniente por outras razões que derivam da sua condição de cidade-dormitório. A extensão da cidade, atualmente com cerca de 40 000 habitantes, e a estabilização da sua massa populacional reclamam um tratamento adequado quer das pessoas, que frequentemente padecem de individualismo exagerado, quer das autarquias locais tantas vezes mais preocupadas com a defesa dos interesses pessoais e partidários do que com o bem-estar dos habitantes. É necessário que se promova a intensificação das relações interpessoais, a participação nas efemérides locais, a discussão dos problemas que afetam a comunidade e que os autarcas estejam atentos aos novos tempos e à nova realidade, se aproximem dos cidadãos e tentem satisfazer os seus anseios e as suas legítimas reclamações. A população da cidade é, hoje, muito diversa da que foi noutros tempos, a percentagem de autóctones é reduzida face ao número de habitantes acima referido. Devemos todos pensar que a diversidade é uma riqueza e não um óbice ao desenvolvimento harmonioso, assim sejam promovidas as ações necessárias e urgentes para o efeito.

    Por: Nuno Afonso

     

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