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Edição de 28-02-2021
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    Arquivo: Edição de 16-05-2014

    SECÇÃO: Destaque


    40 ANOS DO 25 DE ABRIL

    Carlos Basto – militante da ARCO, preso político antifascista e organizador de VAFs

    Voltando ainda a debruçar-nos sobre o período imediatamente anterior ao 25 de Abril, antes de nos determos no que era o propósito principal desta série de artigos – uma recordação dos tempos de brasa pós-revolucionários em Ermesinde antes que mergulhem no esquecimento, abordando com os próprios protagonistas os eventos que aqui resgatarmos desse limbo – evocamos neste segundo texto outra figura incontornável dessa altura, Carlos Basto, hoje em dia membro do Bloco de Esquerda, que foi também deputado municipal (tal como Diomar Santos, que ainda hoje o é, e a quem nos referimos já, no primeiro texto).

    Foto LC
    Foto LC
    Proveniente de uma família de gente republicana e antifascista, natural do Porto (zona da Lapa), Carlos Basto fez a sua iniciação política na tropa quando, destacado em Timor--Leste, em 1964, um alferes antifascista o pôs em contacto com o “Avante”, o jornal do Partido Comunista Português.

    Colocado em Balibó, radiotelegrafista, foi aí testemunha dos esforços da PIDE para tentar impedir a chegada dos refugiados do golpe de Estado de Suharto na Indonésia, quando o regime de Sukarno foi derrubado e começou uma vaga de perseguições aos membros do poderoso Partido Comunista indonésio, o maior do mundo depois dos partidos no poder na URSS e na China (as vítimas do golpe são estimadas entre 500 mil a 1 milhão de mortos, tal a carnificina que se lhe seguiu).

    De regresso a Portugal, e já instalado em Ermesinde, na zona da Travagem, vai aí participar, em 1968, junto com outros jovens opositores do regime, na criação de uma pequena organização política, a ARCO – Ação Revolucionária Comunista, cuja larga maioria dos seus membros se centrava precisamente aqui, em Ermesinde.

    Descoberta pela PIDE em 1971, a pequena organização, com cerca de meia dezena de militantes, é praticamente toda desmantelada. Carlos Basto, então com 27 anos, é preso e condenado a oito meses de condenação efetiva.

    A ARCO, maoista, é classificada como «organização terrorista, que se propunha atuar no Norte do País», embora a sua atuação se tenha cingido aos arredores da cidade do Porto, num corredor entre Espinho e Ermesinde. Também a acusação de organização terrorista teve por base a apreensão de “material de guerra” que, afiança Carlos Basto, mais não passava de recordações militares – «coisas da tropa», daquelas com que muitos soldados regressam – fio de tropeçar, algumas balas dispersas, uma granada de instrução sem percutor.

    Mas o mais significativo caráter da ARCO, e que causou alguma inquietação na PIDE, foi o facto da grande maioria da organização ser de origem social operária.

    O próprio Carlos Basto, à altura da prisão, era trabalhador dos armazéns do “Primeiro de Janeiro”, onde era fácil perceber uma maioria clara de oposição ao regime, sobretudo entre os jornalistas, onde contava com algum apoio, mas também, de certo modo, no setor gráfico e nos armazéns.

    Foi precisamente no “Janeiro” que a PIDE o foi prender. Um colega, da redação, conhecendo um dos pides, percebeu o que estava para se passar e ainda correu para o avisar, mas já Carlos Basto estava na rua a ser detido.

    A sua adesão ao maoismo deu-se como uma reação da inutilidade da farsa eleitoral de 69, e também um pouco como resultado da recente invasão da Checoslováquia, conta o nosso conterrâneo. Talvez a proximidade com que viveu o drama do partido Comunista da Indonésia tenha tido também algum contributo.

    A ARCO era uma organização cheia de vontade de fazer coisas, mas cujo comportamento estava minado por uma imperdoável ausência de cuidados conspirativos mínimos e pelo aventureirismo, é ainda Carlos Basto quem o afirma. E conta a história de uma situação em que um carro cheio de propaganda política da ARCO se foi abaixo em plena ponte de D. Luís, com o seu condutor a conduzir sem carta. Daquela vez safaram-se...

    Na cadeia a luta continuou.

    Tal como os pides faziam a vida negra aos seus prisioneiros, também estes tentavam levar a guerra social contra aqueles tão longe quanto podiam, ao ponto mesmo, conta Carlos Basto, de chegarem a apanhar bichos do chão, que eles próprios punham na sopa, para desse modo criarem um facto motivador de revolta e agitação.

    Juntamente com Fernando Moura, outro dos membros da ARCO, tentou a fuga das cadeias da PIDE no Heroismo (Porto), mas depois de bem ensebado o corpo com manteiga e tendoconseguido retirar as telhas e passar pelo estreito buraco, chegados ao telhado, perguntaram-se o que iriam fazer, sem dinheiro ou qualquer apoio, casa de recuo ou plano de sobrevivência e, por fim acabaram por decidir regressar ao cárcere.

    A luta na cadeia contava, por vezes, com conivências inesperadas, sobretudo por parte dos guardas prisionais, muito mal pagos e que, por vezes se deixavam subornar.

    Recorda-se ainda de uma história passada com Rosa Casaco, o chefe de brigada dos pides que assassinaram Humberto Delgado. Numa vinda ao Porto tirou uma uva do saco de um dos presos, o que motivou uma enorme algazarra e o protesto destes. Então friamente, o pide avisou-os: Eu encosto-vos à parede, dou-vos um tiro e depois digo que foram vocês que se atiraram a nós!

    Cumprida a pena regressa a Ermesinde, mas a vida é muito difícil e não consegue arranjar emprego. Nem no “Janeiro” nem noutro sítio qualquer (Leonesa, Efacec e muitras outras). Primeiro diziam-lhe: Venha amanhã, mas depois era sempre o mesmo: Desculpe lá, afinal já não precisamos! Era sempre assim.

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    Mas as atividades, agora potenciadas por novos contactos e cumplicidades criadas na prisão, continuam. Avisado de que iria ser novamente preso, foge para o Minho, com José Paiva, outro ex-membro da ARCO que viveu em Ermesinde. O apoio veio-lhes de António Adérito, outro elemento que, sem nunca entrar na ARCO, esteve próximo. A ideia era darem o salto e rumarem a França.

    Mas, entretanto, avisados pelos advogados Mário Brochado Coelho e Raul Castro, sabem que tudo não passou de um falso alarme. E o 25 de Abril foi logo ali!

    Com o 25 de Abril tudo mudou. Emprega-se na Vassouraria de Ermesinde, depois é o pintor Manuel Carneiro quem lhe dá a mão. Mais tarde vai para a Eurofer, na Maia, uma grande empresa com cerca de 700 trabalhadores, bem à medida das necessidades da «reconstrução do partido». Tinha entretanto, já antes do 25 de Abril, aderido ao CARP (m-l) – Comité de Apoio à Reconstrução do Partido (marxista-leninista), dirigida por Francisco Martins Rodrigues e que, com a URML (União Revolucionária Marxista Leninista) e os CCRML (Comités Comunistas Revolucionários Marxistas Leninistas) estarão na génese da criação da UDP em dezembro de 1974.

    Em Ermesinde, mas sobretudo na zona da Travagem, surgem comités de vigilância anti-fascista (VAFs), que chegam a juntar cerca de 30 pessoas, com 9 ou 10 em Alfena, na altura facilmente recrutadas e sobretudo vindas dos meios operários e populares.

    Chegou mesmo a ser ponderado o assalto ao quartel da GNR em Ermesinde, revela.

    Tanto os VAFs como a Eurofer, onde a sua corrente sindical chegou a ter alguma influência, foram então terreno fértil de recrutamento da UDP (e chegando a afrontar, na Eurofer, o domínio sindical do PCP. Em Ermesinde participou ainda, embora brevemente, na experiência da Frente Democrática e Popular de Ermesinde, mas o esforço principal foi para os VAFs, como apontava a linha política defendida pelo CARP (m-l).

    Foi depois militante da ORPC (m-l) - Organização para a Reconstrução do Partido Comunista (marxista-leninista) e do PCP (R) - Partido Comunista Português (Reconstruído), que resultou da fusão da ORPC com a OCMLP (Organização Comunista Marxista Leninista Portuguesa), em fins de 1975 – PCP (R) que entretanto se dissolveu no seio da UDP em 1992, quando se transformou na associação Comunistas pela Democracia e Progresso. E, com a UDP, mais tarde aderiu ao Bloco de Esquerda, em 1999/2000.

    Por: LC

     

     

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