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Edição de 30-11-2022
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    Arquivo: Edição de 17-01-2014

    SECÇÃO: Crónicas


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    Ser e parecer

    Desde o alvorecer dos tempos que aparência e essência surgem associadas, sendo embora realidades distintas, inúmeras vezes contraditórias. Parecendo comuns a todos os reinos da natureza, é nos seres vivos, em particular nos humanos, que constituem objeto de reflexão, tendo em conta que só nestes importa que sejam compreendidas e analisadas. Nem sempre são vistas do mesmo modo por cada um de nós e a apreciação coletiva é igualmente diversa, o que sucede também quanto a outras categorias. Mas é possível cotejá-las e estabelecer o que as aproxima ou afasta em cada caso. Abundam as expressões que aludem a essa semelhança ou divergência: “o que parece é” ou “nem sempre o que parece é”, “as aparências iludem”, “mais vale ser do que parecer”, “à mulher de César não basta ser honesta, é preciso também parecer”, “quem vê caras não vê corações”…

    Como sempre acontece, o gosto pessoal e as circunstâncias determinam, em cada momento, o juízo que se faz acerca de alguém ou de algo. O que agora nos permite a formulação de uma opinião positiva pode, em ocasião posterior, ser alterado no todo ou em parte. Quantas vezes ouvimos ou proferimos uma frase do género: «Tive boa impressão dele (dela) mas já começo a mudar de opinião», ou «parecia tão boa pessoa mas, afinal, é um grande traste». Quem se deixa guiar só pelas aparências arrisca-se a grandes desilusões. O tempo e as circunstâncias encarregam-se de lho demonstrar. As boas aparências facilmente se deixam corromper pela vaidade, pelo egoísmo, pelo oportunismo interesseiro. Trágico é apercebermo-nos tarde demais, quando já não há remédio ou este se transforma em veneno. O mesmo pode acontecer quando nos referimos a um animal, por exemplo. Outrora, nas feiras de gado, quem estivesse interessado na compra de um cavalo, de um jumento ou de um bovino podia deixar-se seduzir pela “pinta” decerto positiva, mesmo depois de examinado por critérios pré-definidos, e mudar de opinião ao lidar com ele no trabalho. Os ciganos, regidos por normas de moralidade duvidosa, eram mestres em truques que, frequentemente, ludibriavam os agricultores levando-os a adquirir um animal mais velho, sem força ou difícil de lidar. Porque os autores intencionais do engano eram nómadas, por conseguinte difíceis de localizar, não havia outro remédio senão acomodar-se depois de soltas umas quantas pragas e injúrias e umas vergastadas no lombo do animal, já que não podiam fazer algo semelhante ao causador da vigarice.

    Fixando-nos apenas nas pessoas, sabemos quão importante é a presença exterior no campo da sedução interpessoal ou na capacidade de convencer outrem a adquirir um bem ou a fazer alguma coisa que, no imediato, pudesse dispensar ou recusar. Amor à primeira vista ou mal administrado pode ser um terrível logro se a emoção não for acompanhada de igual ou superior dose de racionalidade. Da mesma sorte é também a importância de uma esmerada apresentação no contacto pessoal direto, em entrevistas para admissão a um posto de trabalho exigente, assim como a preocupação geral em andar bem vestido e combinado em ambientes formais como visitas, celebrações, atos sociais ou religiosos. Quem superintende na secção de “recursos humanos” de qualquer empresa sabe quão valioso é o facto de ter nos seus quadros funcionários com boa apresentação, crendo, naturalmente, que correspondem a desempenhos profissionais equivalentes. Quem lança um produto no mercado sabe que a embalagem é meio caminho andado para o sucesso de vendas. Quantas vezes somos enganados por ela? Embalagem versus conteúdo é a metáfora mais utilizada quando nos referimos ao contraste entre aparência e essência em qualquer relação social.

    Quem madrugasse, vindo da estação de S. Bento ou, regressando do trabalho noturno, em demanda do merecido repouso, subisse ou descesse a rua das Carmelitas, havia de reparar, por certo, naquela mulher sentada num banquinho, sempre no mesmo ponto, de cabeça erguida como se olhasse o infinito, derramando, no quase silêncio da manhã ou no bulício dos dias de trabalho, uma espécie de jaculatória dirigida a quem circulava nas imediações para que deixasse uma esmola na caixa que tinha à frente dos seus pés. Centenas, milhares de pessoas faziam esse caminho e seguiam adiante como o sacerdote ou o levita da parábola, mas os bons samaritanos retiravam do bolso uns trocos que lançavam na caixa. Nenhum agente de autoridade se atrevia a importunar a ceguinha, já bastava a sua desgraça, quanto mais exercer sobre ela qualquer tipo de coação, bem vistas as coisas, era uma forma como qualquer outra de ganhar a vida por falta de saúde ou de emprego, roubar seria bem pior, assim raciocinavam polícias que zelavam pelo cumprimento das normas e simples transeuntes que também eram humanos e sabiam quão difícil era a vida. A ceguinha cumpria um horário, à semelhança de qualquer cidadão, chegava cedo ao posto de trabalho e encerrava o expediente quando aos seus ouvidos os decibéis tinham chegado ao limite reconhecido pelo hábito. Então, pegava na caixa, despejava o conteúdo num saquinho que levava na carteira, pegava na bengala, seu apoio e guia, e dirigia-se à paragem do autocarro. Certa vez, alguém reparou que, ao invés de procurar o transporte público, um táxi vinha buscá-la e o motorista, solícito, recolhia os seus pertences e ajudava-a a entrar no automóvel. Quem viu contou e quem ouviu fez saber a outros que, por sua vez transmitiram a conhecidos seus quando a oportunidade surgiu. Alguém esclareceu que a pessoa em causa morava para os lados da Boa Nova em casa que o marido, encarregado de obras, construíra nas suas horas vagas com a ajuda de amigos. Em torno havia canteiros com plantas de variadas espécies (gladíolos, azáleas, crisântemos, açucenas, dálias, hortênsias…) que a mulher gostava de tratar quando lhe sobrava algum tempo. A pessoas que a questionavam sobre a questão de pedir esmola respondia:

    - Eu não sou rica. Peço esmola porque é a única maneira que tenho de ajudar o meu homem. É um trabalho como outro qualquer.

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    E se lhe diziam que quem lhe dava esmola não acharia bem o que fazia se soubesse que não tinha tanta necessidade como outros desvalidos da fortuna, defendia-se:

    - Ninguém me pergunta se preciso de pedir para comer nem vou escrever num papel que tenho casa e família. Ser pobre não quer dizer que esteja a morrer de fome e que durma abandonada num buraco qualquer. Se calhar, outros pedem e metem o dinheiro dentro da enxerga em lugar de comprar um sítio para viver ou pedem para se drogarem ou para se embriagarem.

    Cada qual ficava na sua e a mulher continuava a esmolar até que, um dia, deixou de aparecer e ninguém se importou com a falta.

    O tio Zezé, durante algum tempo gerente de uma padaria em Botafogo no Rio de Janeiro, mostrava-se admirado ao referir que o embaixador e poeta Olegário Mariano (1) figura tão importante da sociedade brasileira, vinha, diariamente, em calção e chinelos, comprar o pão da manhã nesse estabelecimento como qualquer anónimo morador da zona, mais lógico seria que fosse a empregada da casa a cumprir essa obrigação. Um embaixador – serviu em Portugal nos anos de 1953 a 1955 – deveria sair à rua com terno (2) de bom corte e gravata de seda, talvez acompanhado por seguranças ou figuras importantes como ele. Mas, talvez fosse o poeta e não o embaixador, quem se apresentava naquele traje sumário, pedindo o pão da sua preferência, eventualmente outros artigos, tecendo comentários sobre o tempo ou assunto de ocasião, não esquecendo o polido “muito obrigado” antes de partir. Em Portugal, seria impensável este procedimento descomplexado. O tio Zezé, ele próprio, imigrante havia pouco tempo mas homem de boa aparência e modos educados, granjeava amizades com muita facilidade. Quem o visse fora do trabalho não imaginaria que se tratava de um português nascido em remota aldeia transmontana, apenas com a instrução primária, mas possuidor de discurso fluente e variado, um carácter moldado por sãos valores éticos, morais e sociais e simpatia irradiante. O cartão de visitas de Olegário Mariano foi juntar-se a muitos outros de gente grada do universo social brasileiro e não só carioca que o tio Zezé, sem querer retirar daí benefício, colecionou ao longo de anos.

    (1) Olegário Mariano – (Recife,1889 – Rio de Janeiro,1958) – Poeta brasileiro, filho de José Mariano, famoso político do Império conviveu, desde jovem, com a melhor intelectualidade do Rio de Janeiro que o elegeu, por concurso público, “príncipe dos poetas brasileiros”. Foi membro da Academia Brasileira de Letras e seu delegado para o Acordo Ortográfico de 1945 celebrado em Lisboa. Pertenceu à corrente do Parnasianismo Brasileiro mas a sua poesia reflete características próprias. Desempenhou o cargo de embaixador do Brasil em Portugal durante dois anos e, apesar de ter atravessado o período do Modernismo iniciado em 1922 manteve-se-lhe indiferente.

    (2) Terno (por ser, inicialmente, constituído por três peças) – fato.

    Por: Nuno Afonso

     

     

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