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Edição de 30-11-2022
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    Arquivo: Edição de 17-01-2014

    SECÇÃO: Crónicas


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    O bloqueio…

    A vida lá permitiu que eu fizesse a passagem para 2014. É difícil as pessoas entenderem quando eu digo que tenho consciência que este ano vai ser um ano difícil e duro. Nada tem a ver com o “melhor ou pior” porque isso prende-se com o conceito de cada um. Na bagagem que trouxe nesta travessia escolhi os pedidos mais importantes para mim: saúde, trabalho e coragem, muita coragem para o que virá por aí. Não me enganava – começava 2014 a precisar de todos estes condimentos e mais alguns. Para os grandes contratempos com que iniciei este novo ano precisei de me agarrar sofregamente à minha “máxima” – o único caminho é ser forte.

    O povo diz que “o que não tem remédio, remediado está”. Difícil!, porque há coisas que não temos forma de contornar – a única solução é enfrentar, resolver e minimizar danos. Um dos contratempos que trouxe do ano anterior foi o bloqueio a que fiquei sujeita no meu e-mail: a Microsoft alertava-me para o facto de poder estar a ser utilizado por outra pessoa. Depois de duas tentativas para o recuperar, a decisão desta entidade foi que eu ficava bloqueada e tinha que criar um endereço de e-mail novo. Dos dados que me pediam para confirmar, para ver se efetivamente o endereço de e-mail era o meu, precisava fornecer dados mais pessoais e tão pessoais como por exemplo um número de identificação bancária, caso tivesse o hábito de fazer compras on line – senti-me de mãos atadas.

    Com a perda deste e-mail perdia tudo o que lá estava – registo de tudo o que era importante documentar e que eu arquivava em “pastas”. Por uma questão ambiental não é aconselhável a impressão em papel, daí que eu guardava tudo em texto digital e também confiava que, ao fazê-lo, para onde quer me deslocasse, não ficava pendente de uma pen (que poderia ficar esquecida). Momentaneamente teria tudo o que precisasse para consulta. Numa pessoa com as minhas características, que só produz texto se o sentir, isto foi como ter perdido parte de uma vida e demorei a reagir. Confesso que também fiquei assustada, porque a invasão de algo tão pessoal como o correio eletrónico era algo que eu não previa possível.

    Percebi que embora já tivesse ficado com o pé atrás aquando do fenómeno Wikileaks e Edward Snowden, não me tinha acautelado suficientemente – não tinha feito cópias de segurança nem me tinha ocorrido a ausência de garantia de total confidencialidade, que não existe nas “caixinhas mágicas”. Não são nossas no seu todo, pois algures existe um olho indiscreto que também é humano, porque escolhe e divulga somente “o que” e “quando” lhe ditar a motivação ou a desmotivação, os interesses ou a ausência deles. É certo que nós somos utilizadores somente porque assim queremos e dessa decisão está implícito que aceitamos as regras de quem nos disponibiliza o servidor que nos faculta o acesso a esta janela para o mundo.

    Aldous Huxley diz que «a ditadura perfeita terá as aparências da democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão sequer com a fuga. Um sistema de escravatura onde, graças ao consumo e ao divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão». Tem razão, e dei por mim a pensar que criamos uma dependência, pois eu não sabia o que fazer sem o meu e-mail. Também, por exemplo, o “mister Google” tornou-se na minha porta de acesso para o mundo e numa ferramenta de trabalho imprescindível para o desenvolvimento da minha própria mente. Precisei de voltar a submeter-me às regras, aprendendo contudo a acautelar-me cada vez mais – criei um novo endereço de e-mail.

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    Porque existe o estigma de que as redes sociais são para os desocupados (não podendo eu falar pelos outros), compete-me dizer que, para mim, são uma excelente companhia. Pode não ocorrer que nem sempre nos possamos ausentar de responsabilidades familiares e frequentar assiduamente locais de convívio. Também, pela exigência atual no tipo de entrega ao trabalho, cada um de nós vê-se forçado a fazer mais e melhor para o manter e isso afastara do contacto amigos e até família, não fosse o caso de existirem estas redes sociais. Não nos podemos alhear também de que o custo diário com a sua utilização pouco distará do preço de um café o que, em tempos de hoje, não pode ser descurado.

    À parte de laços familiares e de amizade que se podem estreitar através das redes sociais, é também através delas que tenho assistido ao surgimento de grupos que se ligam às saudades de tempos que já lá vão e que graças às tecnologias destes tempos, já modernos, vão postando fotografias antigas que nos emocionam. Em terras de Ermesinde, onde trabalho, isso acontece com um bairrismo saudável e que desperta a lembrança aqui dos meus “três mosqueteiros”, que espreitam as suas próprias memórias quando tentam perceber onde será isto ou aquilo, e ouço-os a trocarem lembranças do que por aqui ou por ali se passava.

    Não me senti excluída porque, além de pertencer a diversos grupos por afinidades lúdicas e culturais, também eu tinha encontrado um grupo da minha terra com idênticos objetivos – avivar lembranças das terras de Vermoim. Ao fazer parte, comecei a ver postadas fotografias que trazem a saudade – de tempos, de locais e de pessoas. Sentir a pertença dá-nos uma sensação de conforto que – confesso – sabe bem.

    Falando dos tempos que já lá vão, à altura de tempos da minha “geração bonsai” isto seria pouco provável – era menina e as meninas guardavam-se (tal como pude registar no apontamento “E tu mãe?”).

    Fazê-lo agora, em tempos em que regresso às minhas origens e em idade madura dá-me o bom senso de escolher o que me faz sentido, o que se identifica comigo e o que me faz feliz. Tive ainda o cuidado de escolher pelos princípios a que se destinam e gostei da abrangência do público-alvo: os naturais da terra, os seus descendentes e residentes. Percebi que tentaram incluir todos, os que de uma forma ou de outra ajudam ao desenvolvimento da “nossa terra”. A riqueza de conteúdo no que é postado nestes grupos tem a ver com a colaboração das pessoas.

    Eu não tinha espólio fotográfico para participar – em famílias numerosas como a minha, a fotografia era considerada um bem supérfluo. Resolvi contribuir com os registos fotográficos que fazia em formato de texto, dando-lhes alguma utilidade. Ao fazê-lo, o respeito que tenho sentido fez-me tentar reencontrar e citar uma frase de Voltaire: «Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até à morte o direito de você as poder dizer» – será por tudo isso que me sinto em casa.

    Por: Glória Leitão

     

     

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