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Edição de 30-11-2022
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    Arquivo: Edição de 31-12-2013

    SECÇÃO: Crónicas


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    A verdade e os meios para a realizar

    Ortega y Gasset disse que o homem é ele e a sua circunstância, pensamento largamente divulgado mas poucas vezes objeto de madura reflexão. A vida de cada ser humano deve, pois, ser analisada com base nesse pressuposto. Que não é indiferente para o sucesso ser mais ou menos dotado intelectualmente é ponto assente e indiscutível, mas outras características como a simpatia, a curiosidade, a sagacidade, o desembaraço, o equilíbrio emocional, a pronta reação diante do imprevisto, podem ser relevantes e até decisivas para o êxito de alguém com vantagem sobre outro porventura mais inteligente. Quantos cérebros privilegiados se perdem enquanto sujeitos medíocres prosperam? Não é indiferente o lugar em que nascemos, a família de que procedemos, os amigos que tivemos, as escolas que frequentámos, as possibilidades de acesso ao conhecimento de que dispusemos, os lugares que visitámos, em suma: o processo de socialização que nos foi proporcionado. Os líderes nem sempre irrompem de meios favorecidos, os fracassados não provêm necessariamente de famílias humildes. Se consideramos que é mais fácil singrar quando os progenitores são pessoas de nível material e cultural favorecido, já não é lícito concluir que de pais sem grandes meios não podem brotar vergônteas capazes de se alçarem a grande nível.

    E há tantas outras circunstâncias dimanadas da época histórica em que tudo aconteceu, dos valores, normas e padrões morais, sociais e culturais vigentes, aceites ou impostos, da situação geográfica em que o agente se move ou moveu, da sua posição face ao grupo social ou nacional, das inter-relações grupais ou étnicas, dos meios tecnológicos ao seu dispor e ao dispor da comunidade, da fluidez e alcance comunicacional existente e de infindáveis pormenores que podem tornar-se de extraordinária importância num determinado tempo e num determinado espaço. O homem que hoje desperta emoções positivas e se eleva ante nossos olhos com um gigantismo impressionante pode, amanhã, não ser mais do que uma entrada de enciclopédia ou um simples nome em compêndio de história. Quantos se lembrarão hoje daqueles que sonharam novos mundos – como o Infante D. Henrique e seu sobrinho-neto, o rei D. João II, “el hombre”, como Isabel, a Católica, se lhe referia – e tudo fizeram para ir ao seu encontro, dos que chefiaram as expedições venturosas que os deram a conhecer ao mundo, excetuando, talvez, Cristóvão Colombo, mais pelo objeto da descoberta do que pelo nome de quem primeiro ali chegou, esquecendo pois, um Bartolomeu Dias que, ao vencer o Cabo das Tormentas, redesenhou o mapa do planeta e que, fora de Portugal, mereceu, ao menos, uma estátua num local tão honroso como Trafalgar Square no centro da capital britânica; Vasco da Gama que, na sequência do anterior e de muitos outros, descobriu o Caminho Marítimo para a Índia e abriu a rota que levaria os portugueses às terras do sol nascente, «muito além da Taprobana» (Camões, “Os Lusíadas”), um século antes dos competidores ingleses e holandeses, e mereceu de historiadores eminentes como Arnold Toynbee tal relevância que propôs uma nova divisão da História em dois grandes períodos, o pré-gâmico e o pós-gâmico; Pedro Álvares Cabral que, em nome de Portugal, descobriu oficialmente “esse gigante Brasil” com tudo quanto representa e há de representar no futuro? Atrevo-me a dizer que grande parte da população mundial ignora os nomes dos cientistas responsáveis pelos grandes marcos da evolução humana em domínios como a medicina, as ciências naturais, a matemática, a física, a química, as ciências sociais e humanas, a filosofia e outros, que têm proporcionado uma vida mais longa e menos difícil a milhares de milhões de criaturas ao longo dos tempos, sobretudo na época em que vivemos, embora os resultados desses avanços tenham sido, muitas vezes, usados para fins perversos. Convém não esquecer a relevância dos grandes estadistas que souberam liderar os respetivos povos de olhos fitos no bem comum, contribuindo eficazmente para ultrapassar dependências e antagonismos raciais e/ou étnicos, diferenças de credo e de pensamento político, esquecidos de agravos pessoais e arredando do espírito tentações de benefícios próprios.

    Em todos os tempos existiram homens e mulheres cuja ação provocou alterações profundas na vida da humanidade, ultrapassando as circunstâncias adversas que lhes empeceram o trajeto. O mundo seria hoje um lugar bem pior para se viver não fossem esses seres de eleição. Jesus instituiu a Lei do Amor entre os homens, contrariando a lei de talião já presente no Código de Hamurábi de 1780 a.C. no reino da Babilónia, e prolongado no tempo até à Sua vinda. Jesus transmitiu-nos, entre outras, as seguintes mensagens: «Ama a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo»; «Perdoa o teu inimigo»; «perdoa o teu irmão não sete vezes mas setenta vezes sete»; expressão que não aponta para um resultado matemático exato mas para um número infinito de vezes; «Vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres, depois vem e segue-me» e, por amor, ofereceu-se em sacrifício por todos nós. Ao contrário do que muitos poderão pensar, a lei de talião condensada na conhecida fórmula “olho por olho, dente por dente” já significou um avanço importante relativamente aos castigos infligidos por crimes e delitos praticados até então, quase sempre desproporcionados e, com frequência, aplicados pelas mãos dos próprios lesados ou por outrem a seu mando. A expansão do Cristianismo representou extraordinário progresso no relacionamento entre os homens o que não obstou a que, muitas vezes, a doutrina fosse denegada pela própria instituição e pelos seus praticantes. Regimes políticos totalitários ou ditatoriais utilizaram-no como justificação para os seus crimes. Hitler, Mussolini, Franco, Salazar e tantos outros não se coibiram de, em seu nome, cometer toda a espécie de atrocidades sobre os povos que governavam ou, ilegalmente, invadiram e ocuparam. Atualmente, a ganância desenfreada do grande capital escraviza boa parte dos menos favorecidos para tal usando os mais torpes embustes e as mais incríveis justificações.

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    Nelson Mandela, que recentemente nos deixou, representava o que de melhor existe no ser humano. Apesar de ter nascido numa família de nobreza tribal, ainda que de escassos haveres, aos 23 anos abandonou um destino que tudo indicava lhe seria cómodo para viajar até Joanesburgo, onde enfrentou dificuldades económicas e, sobretudo, tomou mais nítida a perceção dum regime e duma sociedade opressivos que segregavam negros e outros grupos étnicos minoritários – o odioso apartheid. Cedo manifestou inconformismo com tal imposição, tornou-se rebelde enquanto frequentava a instituição onde se licenciou em Direito e se tornou líder da resistência da juventude em luta. «Acabou como réu num infame julgamento por traição, foragido da polícia e prisioneiro», tornando-se, a breve trecho, o mais famoso detido do orbe. Sofreu um total de 27 anos de encarceramento. Em 1963, ano da sua prisão, a África do Sul possuía 17 milhões de habitantes dos quais 20% eram brancos (3 250 000), 68,3% negros (11 640 000) e o restante (1 650 000) constituído por mestiços e asiáticos em geral, com predominância de indianos. Os brancos arrogavam-se o direito (divino?) não só de governar mas de menosprezar e desumanizar todos os outros que, afinal, constituíam a imensa maioria da população. John Carlin, autor do livro “Invictus – o triunfo de Mandela”, utilizou o vocábulo “tribalismo” como ele próprio escreveu, «no seu sentido mais lato, referindo-me, portanto, às raças, às religiões, ao nacionalismo e à política». Cita George Orwell, que definiu o tribalismo como «o hábito de presumir que os seres humanos podem ser classificados como insetos e que grupos inteiros de milhões ou dezenas de milhões de pessoas podem ser facilmente classificados como “bons” ou “maus”», concluindo que a «África do Sul é, em todo o mundo, o país onde este hábito desumano mais se enraizou desde o fim do nazismo». Mandela, considerado um perigoso terrorista pelo regime branco da África do Sul, foi capaz de convencer os duros africânders de que era um ser humano invulgar, começando pelos dirigentes de então, Presidente Peter Botha incluído, e que era chegada a hora de voltarem a página da História, de encetar negociações que acabariam por ditar a sua libertação em 1990, já com Frederik de Klerk como presidente, e o fim do apartheid e de todas as barreiras segregacionistas. Mandela e De Klerk haveriam de receber, em conjunto, os prémios Houphouet-Boigny (Paris, 1992) e o Prémio Nobel da Paz no ano seguinte. Foi eleito presidente da República da África do Sul em 1994, cargo que exerceu até 1999. Continuou, no entanto, a ser, não apenas o homem mais conhecido e venerado do mundo, como o maior e mais atual exemplo de que é possível resolver todos os problemas com que a Humanidade se defronta por meios não-violentos e pelo diálogo construtivo.

    Mandela tem muitas semelhanças com outra grande figura do século XX, Mohandas Karamchand (Mahatma – A Grande Alma) Gandhi que, utilizando também a não-violência, conduziu a Índia à libertação do jugo colonial inglês. Também ele nasceu num território ocupado por uma potência estrangeira e liderou o seu povo para a independência alcançada em 1947, pagando com a própria vida dois anos mais tarde. Seduzido, durante algum tempo, pelo Cristianismo, optou por continuar no hinduísmo em que fora educado, embora se identificasse com a doutrina cristã. Estudou em Inglaterra, formou-se em Direito e viveu e exerceu a advocacia na África do Sul. Ele próprio assim se definiu: «A minha religião baseia-se na verdade (Satya) e na não-violência (Ahimsan). A verdade é o meu Deus e a não-violência o meio de alcançá-lo. Para mim, Deus é verdade e amor, Deus é ética e moralidade, Deus é intrepidez /…/ Deus é consciência. Ele está presente no próprio ateísmo do ateu». Também Martin Luther King foi um grande lutador não-violento pela causa dos Direitos Cívicos dos negros norte-americanos e morreria assassinado em Memphis, liderando uma grande marcha pacífica tendente à realização do seu sonho que deu enorme impulso à mudança que, desde então, se operou.

    Jesus, Gandhi, Luther King, Mandela, homens que transcenderam as suas circunstâncias e contribuíram eficazmente para mudarem o mundo e alcançarem a Verdade.

    Por: Nuno Afonso

     

     

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