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Edição de 31-05-2019
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    Arquivo: Edição de 22-11-2013

    SECÇÃO: Desporto


    ENTREVISTA COM A ASSOCIAÇÃO DESPORTIVA E RECREATIVA DA GANDRA

    Passado vivo e glorioso pouco condizente com o pacato e difícil presente

    40 anos repletos de pomposos e inesquecíveis momentos de uma coletividade que, no presente, como tantas outras espalhadas por esse país fora, sobrevive com inúmeras dificuldades. Obstáculos da atualidade que no entanto não ofuscam o orgulho – e a vaidade – de um clube cujo passado figura com brilho nas páginas da história não só da cidade de Ermesinde como do próprio país. Falamos da Associação Desportiva e Recreativa da Gandra, o senhor Gandra, que neste mês de novembro completou então quatro décadas de vida, facto só por si merecedor de uma visita da nossa parte à sede da coletividade nas vésperas da festa de aniversário, tendo ai encetado uma agradável conversa com três dos homens que viveram por dentro estas 40 primaveras do histórico emblema ermesindense.

    Fotos MANUEL VALDREZ
    Fotos MANUEL VALDREZ
    No ar sentia-se o ambiente da festa que dali a poucos dias iria assinalar o 40º aniversário do popular Gandra. Fomos recebidos pelo presidente da Direção do emblema aniversariante, José Nogueira, que cumpre o seu segundo ano de mandato, e que simultaneamente explora o bar do clube. De pronto nos encaminhou para uma mesa onde estavam três simpáticos cavalheiros que, segundo ele, melhor do que ninguém saberiam falar-nos do passado, presente, e futuro da coletividade, sobretudo do passado, como iremos constatar. Um desses conhecedores profundos da vida do clube é Manuel Amaral, que ainda hoje se encontra a ele ligado na qualidade de dirigente, mais precisamente como presidente da Mesa da Assembleia Geral. Ele é o homem do desporto, como já vamos ver. A acompanhá-lo estão António Ferreira e Manuel Cardoso, sendo que o primeiro é atualmente um dos dois elementos ainda vivos de um grupo de 20 cidadãos que a 15 de novembro de 1973 fundou oficialmente a Associação Desportiva e Recreativa da Gandra, ao passo que o segundo elemento entraria alguns meses mais tarde após a fundação, tendo já desempenhado o cargo de presidente da Direção. «Já tivemos mais movimento aqui na sede do que aquele que temos agora», dizem em jeito de início de conversa, ao mesmo tempo que olham em redor do interior da sede, onde se vislumbram cerca de uma dezena de sócios reformados que se vão entretendo com os tradicionais jogos de cartas. «Mas apesar de humildes que somos não devemos nada a ninguém. Sempre pagámos as nossas contas, às vezes com dinheiro dos carolas», é pronto a sublinhar Manuel Amaral, que é, digamos, que o guardião da história do Gandra no que ao desporto diz respeito. É ele que de uma forma minuciosa faz questão de contar a história do nascimento do Gandra, clube para o qual entrou como associado cerca de seis meses após a fundação. Nascimento que esteve na origem de um desentendimento entre dois elementos da hoje desaparecida Associação Académica da Gandra (AAG), coletividade que ao fim de semana reunia um grupo de rapazes amigos do pontapé na bola, vulgo, futebol. Manuel Henrique era um desses elementos, que após ter-se zangado com um seu compincha teve a ideia de criar um novo clube. Convidou o grupo de futebolistas amadores da AAG e pouco tempo depois nascia a Associação Desportiva e Recreativa da Gandra. O futebol foi pois a primeira atividade do novo clube, sendo que na sequência da entrada de Manuel Amaral a modalidade começou a ser devidamente estruturada, por assim dizer. Promoveram-se sorteios de rifas cuja verba angariada deu para comprar os primeiros equipamentos, e o passo seguinte foi colocar o clube a competir um pouco mais a sério do que os habituais encontros com grupos amigos vizinhos. «Jogámos alguns anos no campeonato do Inatel, representando a Casa do Povo de Ermesinde, e posso dizer que não eram campeonatos nada fáceis como possam pensar. Muitas das equipas que ali competiam tinham jogadores que outrora haviam jogado na 1ª Divisão Nacional do futebol português (!), e mesmo assim andávamos sempre pelos 2º ou 3º lugares da classificação, sempre lá em cima», recorda o senhor Amaral que não se cansa de repetir que o Gandra já viveu períodos áureos no que ao desporto diz respeito. Futebol que durou sensivelmente até 1985, para depois dar lugar a outra modalidade emblemática nestes 40 anos de história do clube, o futebol de salão. E nesta hoje extinta modalidade o Gandra já esteve na 1ª Divisão Nacional, frisam com orgulhos os nossos interlocutores. «E no voleibol? Já competimos na 3ª Divisão Nacional», faz lembrar António Ferreira. Com o fim do futebol de salão nasceu o futsal, e também aqui o Gandra fez história já que foi dos (poucos) primeiros clubes em Portugal a praticar a nova modalidade. «Nós fomos os fundadores do futsal em Portugal! Nós e mais uma ou outra equipa. Não foi o Benfica, nem o Sporting, fomos nós», sublinha Manuel Amaral, ao mesmo tempo que acrescenta que é bom que este facto seja publicado, caso contrário a verdade poderá perder-se com o desaparecimento dos anciões do Gandra, grupo do qual ele faz orgulhosamente parte. Isto porque os registos que guardam a história do clube (fotografias, documentos, etc.) foram levados sem deixar rasto por uma antiga Direção «completamente inconsciente que deu cabo disto tudo», recordam com revolta. Para contar a história resta a memória de cada um deles, e meia dúzia de fotografias que guardam nos seus arquivos pessoais. Continuando no futsal, e para rematarmos o capítulo desportivo, também ele teve momentos de glória neste clube, que organizou prestigiados torneios, lutou por subidas de divisões nos escalões nacionais, e chegou a atuar como equipa convidada num torneio em França! Mas tudo acabou há cerca de oito anos, altura em que a modalidade desapareceu do ADN do Gandra.

    FOLCLORE ICÓNICO

    Mas nem só no desporto deu o Gandra a conhecer-se, não só em Portugal como também no estrangeiro. E aqui entram com maior frequência na conversa António Ferreira e Manuel Cardoso, os homens do folclore, a outra atividade que colocou a coletividade no mapa. Em 1985 surgiu o rancho folclórico, e tal como várias modalidades desportivas também teve o seu período áureo com inúmeras atuações por todo o país e meia dúzia de vistas à vizinha Espanha, já para não falar dos festivais internacionais de folclore que eram organizados em Ermesinde. «Chegámos a fazer festivais no largo da antiga feira de Ermesinde, aqui na Gandra também, nas festas de S. Lourenço, e por fim no Parque Urbano de Ermesinde. Movimentávamos muita gente», relembra com alguma emoção Manuel Cardoso, que não deixa de sublinhar que este êxito se ficou a dever a António Ferreira, uma figura que na sua voz colocou o rancho do Gandra num nível invejável. Uma palavra de elogio e agradecimentos a duas figuras locais que muito ajudaram o rancho do Gandra, o desaparecido e mítico ensaiador Ismael Ferreira, o mestre dos mestres no folclore, como sublinham os nossos interlocutores, e Jorge Videira, que enquanto presidente da Junta de Freguesia de Ermesinde (JFE) sempre ajudou no que pôde.

    E AGORA?

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    E se antigamente o rancho tinha atuações quase todos os fins de semana, hoje o cenário é bem diferente. Para pior. Continua a existir, é certo, e ensaiar semanalmente na sede da coletividade, a única durante estes 40 anos de vida – situada na Rua de Diu – mas com menos atuações do que no passado. O clube está com muitas dificuldades, sobretudo de cariz financeiro, «como aliás todos os clubes desta dimensão na atualidade. Antigamente o rancho, na altura do Natal, ainda tinha convites para ir atuar a empresas a troco de algumas receitas, mas agora as únicas receitas que temos provêm do bar e das cotas de cerca de 90 associados pagantes que temos. Cada associado paga dois euros, sendo que reformados e desempregados pagam apenas um euro», informou o presidente da Direção, que entretanto se juntou à mesa, enquanto Manuel Cardoso relembra que nos tais tempos áureos o Gandra chegou a ter quatro centenas de associados.

    Outra das dificuldades visíveis é cativar juventude para o clube, a qual terá desaparecido com maior nitidez após o fim do futsal. «A perda de atividade do clube levou a que os jovens se afastassem. Durante o dia temos aqui só pessoas mais velhas, de noite ainda vêm aqui alguns jovens jogar uma partida de bilhar. Mas esse não é um problema só nosso, é de todas as pequenas coletividades de localidades que ficam na periferia das grandes cidades, ou seja, os jovens nessas grandes cidades têm muitas distrações e não estão para passar o seu tempo livre numa coletividade como a nossa», comentam. E o que fazer para chamá-los? «Voltar com o futsal», sublinha de pronto o homem do desporto, Manuel Amaral, «se no futuro próximo a conjuntura económica do país for favorável gostaríamos de voltar a ter futsal. Aliás, neste momento temos uma escolinha de futsal com cerca de 20 crianças, e no futuro gostávamos de voltar a competir», diz.

    A terminar, e até porque a conversa já ia longa, atirámos para cima da mesa: o melhor destes 40 anos de vida? Resposta pronta: «As amizades que aqui foram criadas e que fazem com que hoje sejamos uma família».

    FESTA COM FIGURAS ILUSTRES

    Foto ADR GANDRA
    Foto ADR GANDRA

    Entretanto, dias mais tarde (17 de novembro para sermos mais precisos) após a nossa visita, o Gandra levou a cabo a sua festa de aniversário. Presentes muitos associados, amigos, e algumas personalidades locais, casos dos presidentes da Câmara de Valongo, José Manuel Ribeiro, da JFE, Luís Ramalho, e das mesas das assembleias municipal e de freguesia, respetivamente Abílio Vilas Boas, e Raul Santos (Nota: figuras estas que podem ser vistas na última imagem meio juntamente com o presidente da Direção do clube).

    Por: Miguel Barros

     

     

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