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Edição de 30-09-2020
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    Arquivo: Edição de 20-09-2013

    SECÇÃO: Crónicas


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    Os polos da vida: desigualdade no nascimento e na morte

    Conquanto o nascimento e a morte sejam realidades correlatas aos seres vivos, o homem, porque dotado de faculdades intelectivas e emocionais, estabelece desigualdades que o colocam numa escala valorativa diversa, relativamente aos seus irmãos, desde o berço ao túmulo.

    Efusivos, tangem os sinos a dar conhecimento de que o berço de oiro tem já um ocupante, seja príncipe, herdeiro nobre ou rebento de burguês afortunado. Para quem não foi bafejado pelo resplendor de uma família de importante posição social e financeira, partilhando com muitos outros não mais do que a essência humana, a religião cristã estabeleceu um sacramento abrangente que irmana todos como Filhos de Deus e é no momento em que são recebidos no seio da Igreja que se manifesta a alegria de pertencer aos Seus eleitos e a vaga ilusão da igualdade perante a vida. Ouve-se o bimbalhar dos sinos por quem quer que seja o novo membro da comunidade paroquial, regozijam-se os mais velhos, saúdam-se os pais dos neófitos.

    Porém, a referência ao berço de oiro não é só figura de estilo para caracterizar os filhos de gente muito rica, está-lhe associado tudo quanto existe de mais valioso, os grandes palácios de requintados materiais, a sumptuosidade artística dos damascos e das sedas, dos veludos, das púrpuras e dos linhos, dos castiçais, das pratas, das finíssimas porcelanas que os ornamentam, inúmeras categorias de serviçais desde aias, amas e mordomos até aos físicos, mais modernamente médicos, e enfermeiras que velam pelo bem-estar da criança e ainda um conjunto de pessoas que, estabelecem indispensáveis contactos entre o recém-vindo e o mundo exterior de que passou a fazer parte.

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    Quão distantes estes se apresentam da maioria dos sine nobilitate que o mesmo é dizer do comum das crianças. Embora, hoje, até os menos favorecidos disponham de condições materiais muito além de tempos recuados em que, frequentemente, quase tudo faltava aos que vinham a este mundo, estamos longe de poder afirmar que todos nascem iguais. E, como o orgulho e o preconceito permanecem inscritos em fortes caracteres na mentalidade humana, essa desigualdade mantém-se intransponível ainda que os crescentes progressos se vão alargando a toda a população. A competitividade acompanha cada um de nós muito antes de soltarmos o primeiro vagido, de início manifestada pelos nossos pais e, pouco a pouco interiorizada pelo novo ser.

    Mas, se as diferenças registadas ao início da vida parecem, de algum modo, justificadas pela estratificação social pré-existente e, tudo indica, se manterá ao longo da existência que deverá ser prolongada e feliz, já a ostentação face à morte carece, assim podemos julgar, de tal paralelismo. O termo da vida mereceria antes a demonstração de um sentimento de humildade, o que, raramente, sucede. Os privilegiados têm procurado, através dos tempos, perpetuar a sua grandeza mandando erigir grandes monumentos, jóias arquitectónicas de enorme preço e não menor valor, de preferência ornamentadas com peças artísticas cuja temática, em vida, os apaixonou. Crendo ou não na transcendência, na eternidade da alma mais do que na mera certeza da corruptibilidade física, os rituais funerários que os arqueólogos trazem ao nosso conhecimento revelam a preocupação das gerações humanas que nos precederam em deixar rastos visíveis da sua passagem pelo mundo.

    Têm sido, sobretudo, esses grandiosos monumentos as principais fontes para o estudo das mais famosas civilizações, dos usos e costumes dos seus integrantes. Poder-se-á afirmar que da morte dos nossos antepassados ganham as nossas vidas pela maneira como cada povo se relacionava com a própria existência: alimentação, vestuário, cerimónias, exercício da religiosidade, relações interpessoais, desenvolvimento técnico, científico e humanístico entre outras. Foram as pirâmides egípcias que nos disseram o que distinguiu esse povo de quaisquer outros. Nessas necrópoles foram descobertas as múmias cujo processo de preservação ainda nos causa espanto. O mesmo aconteceu relativamente aos monumentos das civilizações pré-colombianas das Américas Central e do Sul que, a todo o momento, nos trazem novidades acerca do desenvolvimento de aztecas, maias, incas e outros povos menos conhecidos. Das civilizações grega e romana muito menos saberíamos não fossem os seus monumentos civis e religiosos em grande medida sobre a forma de encarar a vida atual e a vida futura. O esplendor do Renascimento ficou registado, em grande parte, nos túmulos das classes dominantes, desde os Papas desse período aos imperadores, reis e membros de grandes famílias. O Papa Júlio II, da ilustre famíla Della Rovere de Florença, que sonhou, depôs a primeira pedra e encarregou Bramante da construção da nova Basílica de S. Pedro, tinha também um projeto mais pessoal: o próprio mausoléu com 10 metros de altura e contendo 40 estátuas todas de tamanho real, que deveria ser construído por Miguel Ângelo e ser incluído na nova Basílica. Esse foi igualmente o grande sonho de Miguel Ângelo que viveu o resto dos seus dias sem conseguir terminá-lo.

    Por: Nuno Afonso

     

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