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    Arquivo: Edição de 20-09-2013

    SECÇÃO: Literatura


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    A VOZ DAS PALAVRAS

    Sinais de Fogo

    Publicado postumamente, longo, inacabado, "Sinais de Fogo" é um dos mais portentosos romances portugueses da segunda metade do século XX. Não há que ter medo das palavras: estamos perante uma absoluta obra prima.

    O romance “Sinais de Fogo”, de Jorge de Sena, promove uma interpenetração entre experiência individual – a crise amorosa por que passa o protagonista, apresentada como um verdadeiro trauma psicológico – e experiência coletiva – a crise histórica representada pelo início da Guerra Civil Espanhola e seus primeiros reflexos em Portugal –, relacionando a história do protagonista e a História de Portugal.

    Jorge de Sena aproveitou a sua experiência de vida e vários acontecimentos da sua própria juventude para escrever o romance; mas ao fazê-lo, operou uma série de combinações, amálgamas, mutações e transmutações que são responsáveis pela “ficcionalização” da matéria biográfica; “Sinais de Fogo”, como autêntica ficção, traça antes de mais nada o retrato de um modo de vida particular, de uma vivência afetiva, social, política e histórica, artisticamente estruturada.

    Lá para as bandas da Figueira da Foz, um grupo de familiares e amigos gozava tempo de descanso pelos idos anos de 1936, com a Guerra Civil de Espanha em “cima da mesa” e, de entre eles, um despertava para a sexualidade, para a política, e para tudo o que mexia à sua volta.

    Jorge vai para casa do tio, Justino, um "bon vivant", jogador inveterado de cartas ou no casino, "seguindo com os olhinhos a bolinha da roleta", que sem nunca ter conseguido seguir a carreira militar tinha tido um caso amoroso rocambolesco que o marcará para toda a vida. Por isso, em casa, tio e tia dormiam em quartos separados e Justino, quando podia, dava uma saltada ao quarto da criada mais jeitosa ou “mais à mão”.

    Jorge não arriba à Figueira num dia qualquer: «Quando cheguei à Figueira, a estação era um tumulto de espanhóis aos gritos, com sacos e malas, crianças chorando, senhoras chamando uma pelas outras, homens que brandiam jornais, e uma grande massa de gente comprimindo-se nas bilheteiras».

    Em Espanha rebentara a revolução. Jorge não se impressiona. Sai o mais rapidamente de casa dos tios à procura de Odette, que fora sua "de graça". Odette estava no Porto "por conta de um ricaço...".

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    Desanimado, Jorge vai à procura dos seus amigos de férias. Há personagens para todas as variações do ser e estar. Uma coisa, porém, os une: a descoberta do amor, da(s) mulhere(s), sejam elas prostitutas ou sérias, que começa logo no início do livro com uma orgia notívaga, a libertinagem, a raiar o pornográfico.

    À espreita – assumido também pela homossexualidade de Rufininho –, estamos perante um romance de iniciação: «Eu era uma criança. Os meus amigos eram umas crianças. Todos nós era como se tivéssemos afinal só dezasseis anos ainda. E não seria que quase todos os homens continuavam assim?».

    Com a Guerra Civil de Espanha como pano de fundo, eis que aparecem em casa do tio Justino dois espanhóis. Contra a pardacenta ditadura do senhor de Comba Dão («Está tudo depravado. Razão tem o governo em dizer que chegou a hora da limpeza. O Salazar, agora, vai pôr tudo na ordem»), Justino faz ponto de honra em protegê-los, preparar o salto, por barco, para Espanha, com a colaboração de uma personagem menor do romance, um funcionário do Partido Comunista Português, e a morte de um amigo que participa na fuga.

    Porém, o eixo central do romance é a explosão de uma paixão: a de Jorge por Mercedes, que já se adivinhava no verão anterior. É em torno dela que vai desaguar toda a poesia de "Sinais de Fogo".

    «Eu queria-a minha, por que preço fosse»; «Ela entregou-se-me e possuiu-me atentamente, minuciosamente, numa concentração que lhe cerrava com força os olhos e lhe cravava as unhas nas minhas costas, e que não queria que eu, nem para começar, me soltasse dela».

    Entregando-se a dois homens ao mesmo tempo, Mercedes, que está noiva dos amigos de Jorge, abre um sinal de fogo indizível que acompanhará Jorge: há uma obsessão e uma ultrapassagem a que Jorge não resiste. Mesmo que o Almeida a possuísse, Jorge remói, sangrando: «Que o diabo levasse tudo o que quisesse, todas as preocupações, todos os ciúmes, todas as palavras dadas por conta dele. Eu queria-a minha, por que preço fosse». Almeida podia ir com ela para a cama e, na mesma tarde, Jorge também se entregaria a ela.

    Quando está com os amigos, ou vê o mar, ou quando pratica mais orgias – mesmo retirando delas prazer –, o seu ser (e o nada dele) são permanentemente transfigurados em efabulações constantes, umas de caráter filosófico-metafísico, outras de prosa poética que se lançam à poesia no sentido literal do termo: «Sinais de fogo, os homens se despedem, exaustos e tranquilos, destas cinzas frias. (...) um breve instante, gestos e palavras, ansiosas brasas que se apagam logo».

    Não é verdade, não se apagam. Mesmo quando tudo acaba e Mercedes parte para o Porto – e Jorge se interroga, e nós com ele ainda hoje: «Sabes... a gente conheceu-se cedo de mais, ou tarde de mais» –, são "as ansiosas brasas" da poesia que ecoam. Em verso: «Oh meu amor, de ti, por ti, e para ti,/ recebo gratamente como se recebe/ não a morte ou a vida, mas a descoberta/ de nada haver onde um de nós não esteja».

    Já em Lisboa, na companhia de Luís (o marinheiro que quer perder as graças no mar, não o da Figueira nem o da pesca do bacalhau, mas o mar do mundo), a voz de Jorge ecoa, agora em prosa, como se fosse um instrumento que, no meio de uma orquestra, envolvesse todo o tempo e espaço: «Depois, deitado na cama, sentia-me a arder (....) Não me sentia, porém, doente, nem sabia que estava vivo ou morto, nem isso tinha importância. Mesmo o dizer que eu 'estava' não é exato, porque na suspensão de ser, que era a minha, o 'estar' não tinha sentido algum».

    Fulgurante, Jorge de Sena, já no fim do romance, toca, subtilmente, mais uma vez no teclado: «Só me diriam alguma coisa outros versos, os livros que relatassem, mesmo imaginosamente, a vida».

    "Sinais de Fogo" está entre esses versos. E a vida.

    Por: Ricardo Soares

     

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