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    Arquivo: Edição de 31-05-2013

    SECÇÃO: Crónicas


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    A. N. A.

    Num pequeno papel estava escrito uma pergunta – porque é que “separado” se escreve tudo junto, e “tudo junto” se escreve separado? Lá andava eu a magicar sobre isso (sem me prender às questões gramaticais) quando, pouco tempo depois, li o seguinte: «…ele disse para ela se ir tratar, e então foi isso que ela fez. Tratou o cabelo, tratou a pele, tratou de conhecer gente nova, tratou de viajar, tratou de rir, tratou de se divertir… E foi tratando-se que percebeu que não precisava dele para ser amada. E sem ele, tratou de ser feliz».

    Diz-se que “para um bom entendedor meia palavra basta” e cá estava o nome para esta reflexão: ANA (Amor Não Aceite).

    O coração é a tal máquina que não tem controlo remoto nem obedece a uma qualquer voz de comando. Quando se pensa que está tranquilo e feliz, de repente lá começa ele a pulsar descompassado e a seguir outro destino, procurando outro tipo de afagos, que duram o tempo que a emoção (muitas vezes momentânea e até passageira) lhes destina. Às vezes também acontece que esta “máquina humana” só sabe bater dessa forma – cheio de adrenalina, porque há corações que se cansam rapidamente do mesmo, daí que os seus donos ou donas acionem o “clique”, ligam o GPS e lá vão na procura de novos rumos, novas direções (que às vezes até podem ser a solidão e o silêncio, em pessoas que querem e gostam de se guardar para si mesmas). Não existem moldes próprios para fabricar corações e o sentimento que deles emana sempre será diferente de pessoa para pessoa. E também não existem barómetros próprios para medir a forma de sentir de cada um.

    Quando esta “devolução” do amor é feita somente por uma das partes o desafio que se enfrenta é mais duro - os caminhos divergem: ou se tem a capacidade para enfrentar a dor com entendimentos, ou as pessoas ficam ali especadas como os “copos sempre em pé”, não se movendo do sítio, “alimentando-se” de desentendimentos e varejando sempre à volta do mesmo. A análise individual, profunda, fria e objetiva é crucial na decisão de tomar um novo rumo e um novo destino. Há tempos atrás ouvia uma pessoa lamentar-se da sua vida, que ela tinha desmoronado. Isto levou-me a pensar no que tinha aprendido com a vida – o tempo urge e cada vez é mais escasso, daí que, até para chorar tem que se ser rápido, eficaz e eficiente. Esta rapidez é fundamental para que as pessoas que passam por estas experiências se organizem e escolham um novo caminho, pois a tendência natural é perderem-se na procura de razões que a própria razão desconhece. Cada um quer construir as suas verdades e arranjar desculpas, nem que sejam “esfarrapadas”, deixando-se ensombrar por vidas que já não são as suas.

    No tempo de hoje e nestas relações desavindas o hábito é culpar-se a crise, dizendo-se que até os valores fundamentados em sentimentos não são a mesma coisa e “quebram” facilmente pelas dificuldades que os casais enfrentam. Nem sempre será o caso, porque certamente que todos conhecemos situações de rutura que não se prendem forçosamente com falta de meios económicos. Contudo, quando o motivo é esse, o teste de força é realmente muito elevado e só um sentimento elevado ao mesmo nível, o supera. Neste caso não se aplicaria a “razão do povo”, que costuma dizer: «Quando a miséria entra pela porta, o amor salta logo pela janela». Agora, a crise está é mesmo a fragilizar os sentimentos e a levar as pessoas para um “jogo do empurra”, silenciado dentro de muitos lares. Às vezes, demasiado tarde, é que se percebe que se romperam os tais “laços sagrados” (mesmo que não testemunhados socialmente), arrastando consigo danos colaterais grandes, porque o “empurra” a que me refiro é: empurra para os pais, empurra para sogros, etc., etc., com responsabilidades e encargos que injustamente lhes são imputados.

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    Volta-se à estaca zero, voltam-se a encher as casas de gente que já tinha abandonado os seus ninhos, ainda que, quando se volta, já não é a mesma coisa, para uns e para outros. Ao voltarem “à comunhão da casa e da mesa” (diferente de se ser visita), as pessoas são “estranhas” em meios que já não sentem como seus, e isso culpabiliza todos por culpas que não são de ninguém, porque, por hábito, ninguém responsabiliza a sociedade, aquela a quem quisemos “fazer ver” – não tem rosto e nós adoramos dar rostos à nossa culpa. Este silêncio, o silêncio profundo de coisas que não são ditas e que abriga angústias e incerteza (para uns e para outros), com o tempo pesa e inteletualmente desgasta e atrasa a felicidade, que nunca se sabe quando se vai reencontrar, ainda mais que, com esse terrível silêncio e sem se darem conta, as pessoas vão construindo muros que lhes encerram os sonhos onde quase sempre se trazem de mãos dadas filhos que só querem mesmo ser felizes.

    Claro que se o ideal do sentimento existir e tiver a tal força que cada um defende para si – “o amor de uma vida” ou mesmo o “amor por uma vida” as pessoas não escapam por entre os dedos e os laços afetivos não quebram (mesmo em casos em que seja preciso enfrentar a emigração), só que dificilmente se dá à vida esse voto de confiança, pois até dela desconfiamos. Por tendência queremos amarrar a nós (às vezes até de forma sufocante), as pessoas que dizemos amar, ligando-as por um fio invisível de dependência que depois quase sempre acaba por nos rebentar na mão. Em qualquer laço afetivo que nos una é duro encarar de frente uma realidade nua e crua: se alguém nos escapar, não é porque nos foi “tirado”, somente não nos estava destinado; e isto porque, se calhar, os moldes, mesmo com os ajustes da vida, não “encaixaram”. Noutras situações, poderá também ter chegado a hora de cortar amarras e deixar partir “os nossos” - na busca de novas vidas e até na construção de novas famílias, que levarão o melhor das nossas obras primas: o “esboço” que cada um faz dos seus.

    Fez-me todo o sentido ler “Laço e o Abraço”, em que a uma dada altura, se diz:

    « … Ah! Então, é assim o amor, a amizade. Tudo é sentimento. Como um pedaço de fita. Enrosca, segura um pouquinho, mas pode desfazer-se a qualquer hora, deixando livre as duas pontas do laço. Por isso é que se diz: laço afetivo, laço de amizade.

    E quando alguém briga, então diz-se: romperam-se os laços. E saem as duas partes, iguais aos meus pedaços de fita, sem perder nenhum pedaço.

    Então o amor e a amizade são isso… Não prendem, não escravizam, não apertam, não sufocam.

    Porque quando vira nó, já deixou de ser um laço».

    Por: Glória Leitão

     

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