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Edição de 31-07-2020
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    Arquivo: Edição de 18-03-2013

    SECÇÃO: Crónicas


    Revisitar a infância em Balsamão a lenda e a racionalidade

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    Alcandorado ao alto do monte do Carrascal mais conhecido pelo nome de Balsamão, o velho convento adquirira a cor terrosa do espaço envolvente dele sobressaindo apenas o campanário da igreja. Mais cerca do maciço é que o visitante distinguia a construção com os estragos que o decurso do tempo nela foi operando sobretudo a partir do abandono forçado dos Frades Marianos da Imaculada Conceição que, até 1834, nela habitaram e que, ao partir, pouco mais levaram do que os hábitos, livros e objetos sagrados, deixando para trás os restos mortais dos seus irmãos e o bocado de chão bravio que cultivavam e lhes fornecia o frugal passadio quotidiano. Despediram-se, com muita mágoa, do seu primeiro superior, inumado junto ao altar-mor da igreja conventual, Frei Casimiro Wiszinski, que morrera com fama de santidade, invocado fervorosamente pelos aldeões que a ele recorriam nas suas horas más e a cuja intercessão atribuíam diversos milagres.

    Conheci o lugar pelos anos 50 da pretérita centúria numa das várias ocasiões em que fui passar férias com os meus primos de Chacim, aldeia a cuja jurisdição pertencia. Nesse tempo, a antiga morada dos padres marianos estava em avançada ruína, excetuando a igreja anexa que a paróquia de Chacim sempre cuidou. Um dia, direcionámos o nosso intento e a nossa rota para aquele sítio isolado, trepámos até à única construção ali existente e observámos a destruição que mais de um século nele tinha provocado. Recordo-me de um claustro sujo e de uma cisterna – para mim, novidade – que armazenava a água da chuva tão imprescindível ao viver dos frades. Como faria qualquer criança, debrucei-me sobre o resguardo e deixei cair uma pedra que, em frações de segundo, confirmou a existência do precioso líquido. A visita foi breve mas duradoura a lembrança.

    A Congregação fora expulsa de Portugal, juntamente com as demais Ordens religiosas aqui instaladas, por decreto redigido por D. Pedro IV e mandado executar pelo então Ministro da Justiça Joaquim António de Aguiar que ficou para a História como “Mata-Frades”. Além de terem que deixar o país, as Ordens religiosas perderam todos os seus bens: conventos, terras de cultivo e outros que reverteram em proveito do Estado, muitos vendidos a particulares. À época da minha visita, todo o monte pertencia ao Dr. Cordeiro da Saldonha, informação de que o tio José Pousa me julgou merecedor. A Ordem dos Padres Marianos era de origem polaca e fixara-se neste local, de todo imprevisível, após o malogro de várias tentativas na área da capital. Aqui, existia uma Comunidade de Eremitas sem Regra própria – conhecidos por Barbudinhos de Nossa Senhora de Balsamão – que aceitaram integrar-se na nova Ordem tendo solicitado permissão ao Bispo de Bragança que lha concedeu, em 1754. A 1 de outubro do ano seguinte, era fundada e reconhecida a Congregação dos Padres Marianos da Imaculada Conceição que subsistiu até à referida ordem ministerial. Haveria de regressar em 1954, duzentos anos depois das primeiras diligências para cá se fixarem. Foi-lhes devolvido e reconstruíram o convento, e fundaram um Seminário onde seguiram estudos muitos jovens, alguns dos quais vieram a receber Ordens Maiores (subdiácono, diácono e presbítero) e constituem o reduzido número de membros atuais: quatro padres e um irmão leigo. No presente, além do edifício religioso, há um hotel “de estadia e repouso” e outras instituições de lazer. A indústria do turismo assentou arraiais neste antigo espaço abandonado. Chacim fica a 17 quilómetros de Macedo de Cavaleiros, sede do concelho e a 60 quilómetros de Bragança, a diocese a que continuam a pertencer.

    Desde o seu regresso, os padres marianos diligenciaram junto da Santa Sé para que o seu fundador viesse a merecer a “honra dos altares”. A pedido do Vaticano, a Cúria Diocesana incumbiu-se da primeira parte do processo de beatificação, procurando obter dados credíveis acerca do Venerável Frei Casimiro Wiszinski , tão querido da população. Dizia-se que, o corpo do frade estaria incorrupto, sinal evidente de santidade, assim criam. Acrescentava-se que, se alguém mexesse no túmulo, os sinos da igreja tocariam sem intervenção humana. Para investigar o fenómeno, o Bispo de Bragança enviou a Balsamão o juiz da Cúria, Padre Dr. Francisco Fernandes do Vale. Foi incumbido de tomar as providências indispensáveis para que se realizasse a abertura do túmulo no maior secretismo possível, a verificação do estado do corpo e qualquer fenómeno estranho que viesse a ocorrer. Assim aconteceu, de facto. Tudo foi planificado consoante estava previsto na lei canónica e na lei civil. A área circundante foi inspecionada e isolada sem dar nas vistas, permitiram o acesso à igreja apenas àqueles que deveriam desempenhar as funções indispensáveis ao ato, colocaram-se pessoas merecedoras de toda a confiança à volta do templo de maneira que nenhuma suspeita pudesse subsistir. À hora marcada, começaram os trabalhos. As autoridades civis, delegado de saúde e clínico de medicina legal autorizaram a abertura do túmulo mas, de pronto, verificaram que já tinha sido aberto mais do que uma vez. Todos os presentes estavam intimados a guardar segredo acerca do que presenciassem. As atenções concentraram-se na voz dos sinos. Teriam ou não expressado o que deles esperavam? Das aldeias vizinhas mormente da mais próxima, Chacim, ninguém tinha uma resposta convicta. Diziam uns que tinham ouvido, bem nítidas, as badaladas do sino de Balsamão, outros apenas referiam um som que parecia o do badalo rodando no interior do sino grande. Tanto quanto é conhecido, a lenda que haviam urdido em torno da incorruptibilidade do corpo do Venerável Frei Casimiro e da correlativa manifestação dos sinos esmoreceu.

    Dessa e de outras lendas encontra-se bem provido o imaginário popular. Hão de ser das mais poéticas manifestações do sentir das nossas gentes. A vivência coletiva gera e propaga essas histórias inspiradas em episódios reais de luta contra a opressão, a tirania, o vilipêndio e a heroicidade de protagonistas connosco identificados. Balsamão e Chacim remetem para a ocupação árabe do território que hoje ocupamos. É conhecida a proliferação de lendas, versando esses tempos distantes, que ora nos encantam ora nos despertam grandes ressentimentos. No primeiro grupo, incluem-se as mouras encantadas à espera que um príncipe as venha despertar, os enlaces entre grandes senhores muçulmanos e princesas cristãs em que aqueles procuram satisfazer às suas amadas os mais difíceis desejos; no segundo, compreendem-se os reis mouros que personificam a crueldade e o arbítrio, mais inclinados a exigir a satisfação dos seus apetites do que a prodigalizar gentilezas aos seus dependentes. A versão popular da origem do nome Chacim supõe parentesco etimológico com pugna sangrenta, morticínio, chacina e conduz-nos ao tempo do domínio árabe a um castelo situado no alto do Monte Carrascal, uma elevação com 522 metros de altitude, onde se instalou um rei mouro extremamente cruel que escravizava os cristãos residentes nas aldeias em redor e, cúmulo da desonra, impunha a todos os que casavam o direito de passar a primeira noite com a noiva. Por muito tempo, todos os jovens eram obrigados a levar ao rei a noiva para satisfação dos seus bárbaros instintos. Até que chegou a um daqueles povoados um rapaz de grande coragem e valentia que se insurgiu contra tão ignóbil obrigação e jurou que não lhe obedeceria. A noiva, aterrorizada, pediu a Nossa Senhora que os protegesse. Prometeu que se ela atendesse o seu pedido mandaria erigir no alto do monte uma capela em sua honra. Após a cerimónia matrimonial, o noivo dirigiu-se ao castelo e, fingindo cumprimentar o rei, puxou do punhal que trazia escondido e matou-o. Outros jovens que o acompanhavam puseram-se ao seu lado e entre cristãos e árabes travou-se um terrível combate. A luta era desigual mas os jovens cristãos bateram-se com grande bravura. Em dado momento, porém, sentiram que estavam em desvantagem. Foi então que apareceu uma bela senhora vestida de branco trazendo, na mão, um pequeno vaso com bálsamo que, aplicado às feridas, as curava instantaneamente. Os rapazes reanimaram-se e, entretanto, os moradores de Chacim vieram ajudá-los de tal modo que os mouros abandonaram o campo de batalha e foram chacinados pelos cristãos na aldeia de Chacim. A moça não se esqueceu da promessa e mandou construir uma ermida no alto do monte dedicado a Nossa Senhora de Bálsamo na Mão (Balsamão).

    As lendas, enquanto expressões do lirismo popular, não tolhem o passo às atividades mais prosaicas dos humanos. O outrora descampado de Balsamão é, nos dias atuais, um local onde convivem harmoniosamente a instituição religiosa e outra turística. Em instalações do Convento, funciona uma Casa de Retido e Repouso Hotel tirando proveito da paisagem que a cerca e de obras que, entretanto foram realizadas e deram vida nova ao que, antes, não passava de um morro votado ao abandono. Naturalmente, com a assistência permanente dos religiosos marianos.

    Por: Nuno Afonso

     

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