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Edição de 31-07-2020
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    Arquivo: Edição de 18-03-2013

    SECÇÃO: Crónicas


    A missão de fazer sorrir

    O inverno está rigoroso, embora se possa ouvir dizer muitas vezes que já nem se compara com os tempos antigos em que o frio era de “rachar”. Eu lembro-me disso e também me lembro de nem sequer existir a fartura dos agasalhos, mesmo as simples luvas que eram muitas vezes substituídas por peúgas já muito gastas e que depois se guardavam no bolso com a vergonha própria de quem é criança.

    Um dia destes, lá no nosso trabalho, ouvíamos o apelo de uma avó: «Não terão por aí uns kispinhos para as minhas netas?». Nós conhecíamos as meninas e também a sua mãe, que anda teimosamente a tentar dar a volta à sua vida participando num curso de formação que ela acredita lhe abrirá portas para uma oportunidade e certo é que não é fácil para quem basicamente não tem rendimentos consideráveis ter três crianças pequenas para alimentar, vestir e cuidar e vejo isso quando esta jovem mãe entra no meu autocarro ainda em terras da Maia para vir entregar os filhos ao cuidado desta avó que mora aqui para os nossos lados, em Ermesinde. É lógico que quando a nossa colega Géni nos transmitiu esta mensagem aqui no gabinete, no sentido de estarmos atentos quando nos chegasse roupa que servisse a meninas franzinas e ao irmãozito mais novo, eu percebi que não seria fácil, porque são as nossas idades criticas para roupa que nos entregam como excedentárias e são logo procuradas nesta faixa etária, em que temos muitos meninos.

    A nossa colega Hermínia pôs-se logo em “ação” tentando agilizar os seus contactos para vermos o que se conseguia arranjar e também eu lá fiz uma chamada telefónica para um local onde eu sei que também se pensa de forma solidária, porque lá existe gente solidária. Aprendi isso quando na altura do Natal pessoas vestidas com uma t-shirt que identificava uma causa que tem como nome “missão sorriso”, num hipermercado, me ofereceram a oportunidade de pegar num saco e contribuir com algo que, de forma singela, servisse para colocar em casa de alguém que, tal como eu e qualquer um de nós, precisa de se alimentar para se suster de pé, nem que seja para esperar por um fim, que também deve ser encarado com dignidade – um direito de cada um.

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    É claro que a responsabilidade social nos é incutida porque vemos a importância que tem para associações como aquela onde trabalhamos a chamada telefónica que se recebe dos supermercados amigos que têm o cuidado de partilhar aquilo que fica identificado para donativo e próprio para consumo e confeção de refeições. Por exemplo, no nosso refeitório comunitário nós comemos exatamente o mesmo que as nossas crianças e as pessoas sem oportunidade momentânea ou até prolongada no tempo, que almoçam lado a lado connosco. É que a nossa Associação tem um lema de que nos orgulhamos: a ninguém pode ser recusada uma refeição quente, até ao momento em que possa ser identificado o tipo de apoio aferido para cada caso, a quem posteriormente é dado o competente encaminhamento.

    O Centro Social de Ermesinde é já “parceiro da solidariedade” deste grupo que tem como filosofia a missão de fazer sorrir. Se calhar foi por isso que não me surpreendeu a resposta ao apelo que fiz: «Haverá colegas tuas que tenham crianças e possam dispensar roupa que elas já não usem?». Passados dias recebi um mail: «Já arranjamos os kispos para as meninas, vão acompanhados de uns polares quentinhos e vai também o mesmo para o menino». Certo é que no dia seguinte encontrava aquela mãe no autocarro e entreguei-lhe os sacos dizendo-lhe que tinha vindo de mãos de gente que sentia com o coração. O sorriso dela quando tirou um dos agasalhos do saco e disse para a sua filha: «Tão lindos!», e o brilho húmido que lhe vi nos olhos, deu para fundamentar aquilo em que acredito – amor de mãe é amor de mãe.

    Em dia que se tinha atrasado uma hora porque precisou de improvisar uma fantasia para os filhos que desfilavam pela escola em vésperas de Carnaval esta mãe dizia que a avó dos meninos já não estaria na paragem à sua espera para receber os netos, ainda mais que se fazia sentir um frio intenso naquele começo do dia. Enganou-se, porque a avó estava lá, de pedra e cal, e esperou ao frio mais de uma hora para receber os netos a quem distribuiu um sorriso de acolhimento e amor própria das avós. Se calhar a sua filha nem sequer se lembraria que a avó (que se diz ser mãe duas vezes), amará em dobro e sacrificar-se-á em dobro, por crianças a quem agora pode dar-se à ternura de ser avó e isso vê-se quando passa orgulhosa com os seus meninos a caminho da escola.

    O nosso colega Zé Pinto, que nos distingue sempre com um “não” quando lhe pedimos algo que está fora do nosso âmbito de trabalho mas também nos rimos porque pensamos que gosta do trabalho que nos dá para transformarmos aquele “não” em “sim”, vai-se emocionar de certeza quando anuir ao pedido que lhe vamos fazer e registar em foto o sorriso (único) de crianças, agasalhadinhas nos seus pequenos “kispos”, provenientes da generosidade de pessoas que trabalham num edifico espelhado por vidro, azul, em tons de céu e de mar, e que não esquecem uma outra das suas/nossas missões – a de fazer sorrir crianças, levando-lhes a esperança de que amanhã lhes daremos um mundo melhor.

    Bem hajam!

    Por: Glória Leitão

     

     

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