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    Arquivo: Edição de 22-02-2013

    SECÇÃO: Crónicas


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    CRÓNICAS DE LISBOA

    A Ganância dos Homens

    O que é o dinheiro, poderia perguntar-se, mas a maioria das pessoas não daria uma resposta cabal, embora não possa viver sem ele, pois é um meio usado na troca de bens e serviços e que emergiu quando o homem sentiu que as trocas diretas eram de difícil execução, pelo que haveria necessidade de usar um símbolo (moedas, notas, etc.) que fossem aceites por todos e tivessem um padrão monetário específico e demais garantias oficiais. O aumento das transações na humanidade, levou à criação dos bancos, pelo que o dinheiro passou a ser, essencialmente, um símbolo ou uma abstração, assentando a maioria das transações na moeda escritural e na criação de moeda assente no crédito.

    As “leis globais” e a evolução tecnológica tornou ainda mais virtual o dinheiro e facilitou as transações financeiras locais, nacionais e mundiais e a imaginação dos “banqueiros” deixou de ter limites, pelo que as autoridades fiscalizadoras começaram a sentir sérias dificuldades de controlo do sistema financeiro e bancário, de vital importância para a sociedade moderna, mas ele próprio potenciador e gerador de crises, que não são apenas de agora. Assim, os erros, os riscos de negócio e, acima de tudo, a ganância dos homens, tem gerado situações cujas consequências não têm sido mais sérias porque, apesar de tudo, poderemos considerar que a “mundialização” do sistema financeiro e bancário se auto-sustenta, se ajuda e se equilibra, pelo que as crises geradas têm sido debeladas com mais ou menos sacrifícios locais – de países.

    No caso de Portugal, já destituído do seu poder de emissor de moeda, não só sofremos os efeitos das crises financeiras vindas de fora, por força da tal interligação do sistema financeiro, mas também porque o nosso sistema bancário continha em si mesmo “duas maçãs podres”, isto é, o BPN (Banco Português de Negócios) e o BPP (Banco Privado Português), sendo dois bancos bem diferentes um do outro, isto é, o BNP como banco universal e o BPP como pequeno banco “gestor de fortunas”.

    Porque estes dois casos têm feito correr muita tinta e “sugado” os bolsos dos contribuintes, considerando-se o maior “buraco de sempre” no nosso sistema bancário, vale a pena relatar aqui três factos de que fui “testemunha”:

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    I) O autor destas linhas, que nunca teve qualquer ligação com o BPN, foi contactado, por parte de dois quadros duma agência local do banco, a aliciarem-nos (à empresa) para a abertura de conta e o início de transações. Isto aconteceu em 2003 e, nessa abordagem e face às condições que o banco oferecia, a nossa perceção era de que algo de estranho se poderia passar naquele banco, tipo Dona Branca, de má memória para muitos portugueses. Não aderimos às ofertas e à pergunta de como poderia o BPN oferecer aquelas altas taxas de juros nos depósitos, responderam que também o banco cobrava taxas altas dos empréstimos aos seus clientes. Insistimos, perguntando, que tipo de clientes eram e a resposta foi de que eram aqueles que (já) não conseguiam obter empréstimos nas outras instituições bancárias, pelo que aceitavam pagar essa taxas de juro mais altas. Sabemos agora que não era apenas isto, pois, pelos vistos, os fundos dos seus clientes seriam utilizados com outros fins.

    II) No inicio de 1988 era o Dr. José Oliveira Costa considerado o grande obreiro do nascimento e crescimento do BPN, então secretário de Estado dos Assuntos Fiscais e, na qualidade do cargo, foi proceder ao encerramento dum seminário sobre fiscalidade no qual o autor destas linhas participou, a título pessoal e profissional. O seu discurso foi empolgante e deixou todos os presentes estupefactos com o teor. Nele fazia duras críticas aos incumpridores do seu dever de cidadãos, leia-se pagador dos seus impostos, e de ética, e dando como exemplo a sua própria vida pessoal, isto é, uma “origem simples”, blá, blá, blá.

    III) João Rendeiro – que foi o “líder” e presidente do BPP e foi considerado como um banqueiro exemplar pela nossa imprensa da especialidade, e chegou mesmo a editar um livro (“João Rendeiro, Testemunhos de um Banqueiro: A história de quem venceu nos mercados” – foi acusado pelo Ministério Público, juntamente com outros antigos administradores do BPP, do crime de burla qualificada.

    Se o Governo de José Sócrates deixou cair na falência o BPP, este um pequeno banco, já não fez o mesmo com o BPN, com receios dos efeitos de contágio, nacionalizando-o, pelo que os custos para nós, contribuintes portugueses, têm sido enormes e sem fim à vista, pois não se conhece o tamanho do buraco.

    A história destes dois casos terá ainda muito para contar, mas tem revelado que a ganância dos homens, pelo dinheiro e pelo poder que ele representa, pode não ter limites e as consequências, se as entidades fiscalizadoras não agirem e em tempo útil, estão exemplificadas nestes dois buracos financeiros. Neste “pecado” que é a ganância, podem incluir-se também muitos daqueles que aplicaram ali as suas poupanças (fortunas), porque terão visto nos dois casos uma”moderna Dona Branca”. Muitos desses clientes, que perderam ali as suas economias, choram agora, mas exigem que seja o Estado a ressarci-los! “Inteligente é o homem que sabe valorizar o que tem, sem perder a ambição, e sem adquirir a ganância.”

    Maldito dinheiro, mas do qual não podemos abdicar, que não tem culpa da ambição cega e violadora de valores de que os homens deveriam cumprir.

    Por: Serafim Marques

     

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