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Edição de 31-03-2021
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    Arquivo: Edição de 31-01-2013

    SECÇÃO: Destaque


    FORMAÇÃO e EDUCAÇÃO DE ADULTOS

    Mitos de um ruinoso processo de desumanização

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    Chegou o momento, apregoam alguns com pompa e circunstância. Chegou o momento de virar a página, reforçam sem a razoabilidade que a razão lhes possa dar, julgando a sua certeza, na crença de uma cientificidade que lhes está ausente. Ajuizando, em lugar próprio, a sua limitação sobre o espaço da emancipação humana. Enchendo de mitos o que já outrora se revelou como a ruinosa desumanização. E seguem, cada vez mais isolados, porque já são poucos os que trilham o mesmo caminho de uma distopia de desinvestimento social.

    Na educação, um dos pilares essenciais das sociedades contemporâneas, um falso pragmatismo prevê relegar o investimento da formação dos sujeitos à tecnicidade enformadora. Procura-se transformar o lugar precoce da emancipação crítica dos indivíduos no lugar da preparação para uma profissionalidade cada vez mais ausente. Anuncia-se, com pompa e circunstância, a urgência na reindustrialização do país, para tomar medidas que servem para justificar a mudança dos processos de formação dos indivíduos. E sustenta-se que a crise é estrutural; e que o problema associado é também o resultado de um deficitário sistema de ensino, caro ao erário público, e que não responde às necessidades de uma economia empresarial moderna e pujante; acrescentando-se, ainda, segundo alguma expertise, um deficit de aquisição de conhecimentos no universo dos aprendentes. Propõe-se então entroncar, de forma dúbia, o desenvolvimento do País com a necessidade de se reformar o sistema de ensino e formação. Uma reforma com características pronunciadas de um tempo de má memória, associada a um sistema dual de formação que mais não estimula do que as assimetrias sociais, resguardando a manutenção do status quo. Àqueles que podem, um sistema de ensino que proporcione aprendizagens que despertem o desenvolvimento de um pensamento criativo e crítico, a todos os outros, permitir-se-lhes que se preparem para o lugar que vão ocupar (na futura profissão, por exemplo). Estes últimos, depois de formatados para a actividade profissional, se não conseguirem uma resposta condigna ao exercício das suas aprendizagens, sempre poderão optar pelo trabalho indiferenciado, frequentar novos processos de reconversão profissional e ou candidatar-se a um subsídio de subsistência. Resumindo, do cardápio de encargos, deixou de estar presente, por bloqueamento e saudosismo ideológico, um dos princípios estruturantes e motivadores da nossa constituição: a igualdade de oportunidades; garante essencial do nosso investimento individual e coletivo para o futuro. Que Portugal querem(os)?

    Até há bem pouco tempo, Portugal ocupava no quadro internacional um dos lugares cimeiros no campo da educação e formação de adultos (EFA). Aliás, eramos vistos como uma referência na implementação das políticas de EFA. Um estudo de 2009, desenvolvido pela Universidade Católica, sob a coordenação de Roberto Carneiro, revelava que o sistema de EFA, implementado na «Iniciativa Novas Oportunidades [foi], indiscutivelmente, um dos mais importantes programas das últimas décadas nos domínios da qualificação e da promoção humana da população portuguesa». A avaliação demonstrou, que para além do aumento dos níveis de qualificação e certificação dos adultos, houve também ganhos substanciais na aquisição de novas competências, com destaque para as literacias, como o «uso das TIC e da capacidade para aprender a aprender». Foi possível constatar um «efeito generalizado do reforço da auto-estima e da motivação para novas aprendizagens» por parte dos adultos. O investigador Pedro Félix, refere que o relatório: “Further measures to implement the action plan on adult learning: Updating the existing inventory on validation of non-formal and informal learning: Final report”; classificou Portugal nos cinco melhores países «em matéria de validação de aprendizagens não formais e informais, obtendo a classificação de “high”, a mais elevada». Resultou desta avaliação uma posição a par com países como a Finlândia, a França, a Holanda e a Noruega. Curiosamente, países que ocupam o pódio do índice do desenvolvimento humano. Nas palavras do pesquisador a «publicação avaliou a implementação de medidas e políticas de validação de aprendizagens informais e não formais em 34 países, sendo acompanhada por relatórios individuais, da responsabilidade do Centro Europeu para o Desenvolvimento da Formação Profissional (CEDEFOP) de cada um desses países». Portugal foi dos países que na última década mais progressos fez no campo da educação, resultado de «políticas de redução do défice de qualificação da população adulta» que contribuíram para contrariar mitos criados, pouco credíveis.

    António Damásio, reputado neurocientista, recorda, em entrevista este mês, a propósito dos cortes anunciados na educação, que «um défice educacional conduz, invariavelmente, a um défice económico e social». Então, se os mitos, com base em preconceitos, servem o propósito do empobrecimento e o retrocesso civilizacional como chave de um suposto sucesso para sair de uma crise financeira, não nos estaremos a comprometer como povo no futuro?

    Por: Florentino Silva (*)

    (*) Membro da equipa da Formação Profissional e Emprego do Centro Social de Ermesinde.

     

     

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