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Edição de 31-07-2019
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    Arquivo: Edição de 31-12-2012

    SECÇÃO: Crónicas


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    A razão dos números

    Há algum tempo que leio num “outdoor” uma frase simples e curta que me foi prendendo a atenção cada vez que a vou lendo – «as pessoas não são números». Se pensarmos bem chegaremos à conclusão de que não representaremos senão meros e simples números, aqueles que foram inventados pelos seres humanos e que agora nos controlam e comandam. São utilizados para nos contar, à dizima e isto desde que somos concebidos – 1 filho, consequência de 1 ato de amor (ou não tanto quanto isso). A única pergunta que se faz depois de confirmada a gravidez e que não se “quantifica”, é: «Já sabe se é menino ou menina?”». De seguida, é quase certa a segunda pergunta – «é o 1º filho?». É também a partir desse momento que normalmente as pessoas começam a calcular a estimativa das despesas inerentes à vinda de um filho. Somam-se os dígitos que passam a representar cálculos, somas ou subtração. À data do nascimento a criança recebe desde logo os seus primeiros números: no assento de nascimento, na identificação fiscal, na segurança social, etc., pois é isso que nos passa a identificar como cidadãos de um país onde passamos a entrar no rácio do seu valor “per capita”.

    De seguida, tudo passa a dígitos de identificação – num infantário, numa escola, numa faculdade, numa empresa (onde os currículos são lidos de forma rápida e eficaz em frações de segundos), no exército, nos lares e por aí fora. Passamos a entrar nas estatísticas que vão estimar a despesa que vamos dar a e também o retorno que teremos que dar em trabalho para pagar o direito de sermos cidadãos que ocupam e usam a área geográfica de um espaço a que chamam País. Deve ser por esta responsabilidade (que ninguém escolheu), que desde novinhos nos ensinam a construirmo-nos em cima de números. Fazem-nos ver que sim, devemos ser boas pessoas, mas acima de tudo devemos aprender a colecionar “números” – nas notas da escola, na conta bancária, nos amigos influentes, de preferência porque também significam oportunidades de irmos somando mais dígitos aos nossos números – uns para suportarem a sua sobrevivência e outros que, sem se darem conta disso começam a “apaixonar-se” pela sua coleção de… números, paixão esta que se for descontrolada transforma ambição em ganância.

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    Possivelmente este será o cerne da questão e que nos faz andar assustados, pois éramos mesmo felizes a construir o nosso castelo de números e agora que não temos tantas “peças” não sabemos o que fazer perante a evidência de atualmente estar em causa a tranquilidade de uma zona de conforto – o que poderíamos obter com os números que nos habituamos a colecionar. Ainda que infelizmente, para muitos de nós foi chegado o momento em que e vimos o nosso real valor, à data – estamos a acrescentar dígitos às estatísticas do desemprego, locais que nunca visitávamos e só agora nos damos conta de que somos tantos. Os nossos idosos fazem parte de um número demasiado elevado a quem a tecnologia, em nome do desenvolvimento, lhes retirou a única janela que tinham para o mundo: a sua televisão, porque não dá nada sem o TDT ou mesmo porque está fora do seu raio de alcance. Os centros de saúde, hospitais e farmácias começam a ressentir-se e a ficar mais vazios, não por conta da eficácia de quem nos atende mas somente porque as pessoas passam a não ter os dígitos suficientes para cuidarem da sua saúde e tantas coisas mais que serão difíceis de enumerar.

    Na surpreendente escola que é a vida eu ouvia três pessoas administrativas falarem de uma colega que teve que ser dispensada – ela achava que mais de 30 anos de entrega e lealdade (qualidades que lhe estavam a ser reconhecidas por estas colegas) lhe conferia o direito de ficar. A entidade patronal achou que não, e para tornar mais rápido o processo usaram a estratégia usual: um gabinete vazio com uma secretária e uma cadeira e ali ficaria a pessoa, exibida para os colegas até que dissesse – sim, aceito. Neste reparo reconheciam a sua própria cobardia porque das colegas, também de há mais de 30 anos, ninguém se atreveu a entrar no gabinete e a falar com ela, mostrando-se solidárias. Tiveram que a deixar para trás e quem a procurou num ato de verdadeira camaradagem terá sido quem menos ela e os outros esperariam. Depois desta conversa uma outra senhora dizia trabalhar num hospital e vinha chocada porque estava lá uma jovem mãe de três filhos que tinha ingerido veneno para pôr termo à vida – sendo uma situação em que nada lhe faltaria porque o marido estava a trabalhar no estrangeiro e no conjunto tinham uma vida confortável e bonita, mas veio o momento em que surgiu uma nova paixão na vida do seu companheiro. Tudo terá ficado do avesso, o dinheiro deixou de ser depositado, e sem recursos esta mãe teve que retirar tudo aos filhos ao ponto de terem que sobreviver da solidariedade dos vizinhos.

    Outra nova forma de encarar as uniões, que agora e cada vez mais se transformam em parcerias ou “joint ventures”, assentes em dígitos – cada um estima o que pode contribuir de si mesmo por forma a saber que, em caso de seguir caminho sozinho, nunca ficará “escravo” de números - um preço demasiado elevado para quem tem que ficar. Pode ainda acontecer que sem nos termos dado conta, nos apaixonemos perdidamente por simples dígitos e dividi-los a meio representaria uma crueldade. Neste caso, cada um, dentro de si mesmo, decide pela razão, muitas vezes camuflada numa palavra a que se chama amor. É também legítimo chegar-se à conclusão de que não se terá “estofo” para aguentar a “penalização” a que se está sujeito por baixar no patamar social: o estigma, a solidão, a chacota, o desprezo e o termo de que toda a gente foge a sete pés: pobreza ou miséria, que quando entra pela porta de uma família quase sempre faz o amor saltar pela janela. Assim, por tantos motivos impossíveis até de enumerar, será mais racional que atualmente nos ensinem a viver como números, aquilo que realmente representamos – quando nascemos, enquanto vivemos e quando deixaram de se ouvir os batimentos cardíacos, que darão lugar a um assento de óbito, que não poupará ninguém, porque ainda não foi inventado o “antídoto” e, no topo deste documento lá estarão os dígitos que irão corresponder a um nome, o nosso nome, quer tenhamos utilizado na nossa vida um coração de sangue ou de aço.

    Por: Glória Leitão

     

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