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Edição de 31-07-2019
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    Arquivo: Edição de 31-12-2012

    SECÇÃO: Crónicas


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    Portugal, um autêntico milagre

    Portugal é um milagre de tenacidade, resistência e ambição. Ergueu-se contra o destino que parecia tê-lo fadado a “uma apagada e vil tristeza” como escreveria, no século XVI, um dos seus mais ilustres filhos, Luís de Camões, empurrado para o mar como uma maldição que os seus habitantes souberam transformar em dons. Lutou, denodadamente, contra os que desejaram reduzi-lo ao quarto de arrumos da Península, conseguiram-no uma vez mas a resposta não demorou mais que 60 anos, um átomo na sua existência como nação que esperamos seja longa e personalizada como até aqui. No entanto, deu à humanidade um contributo de todo excecional e edificou um vasto império que «o sol, logo em nascendo, vê primeiro/ Vê-o também no meio do Hemisfério/E quando desce o deixa derradeiro», além de ter aberto rotas «por mares nunca dantes navegados» e ter trazido ao conhecimento dos europeus outras terras com suas riquezas físicas e culturais, gentes de características diversas, e técnicas de navegação inovadoras. Soube fortificá-las, defendê-las, transmitir-lhes novos valores civilizacionais, algo que os Bourbons espanhóis não puderam manter ou correram sérios riscos de perder para sempre como aconteceu com Pernambuco, no Brasil, face às investidas dos Holandeses. Valeu o esforço conjunto de Portugueses e Brasileiros para expulsar, em definitivo, os invasores daquele território, posteriormente à restauração da independência nacional.

    A fantasiosa história de Portugal que nos ensinaram nas carteiras escolares e constitui, ainda hoje, a narrativa que alimenta um certo orgulho nacional deveria, há muito, ter sido expurgada das lendas e convenientes mentiras que grandes vultos como Alexandre Herculano (séc.XIX) Oliveira Martins (idem) e vários outros depois deles como Jaime Cortesão, António Sérgio, Duarte Leite (séc.XX) denunciaram, identificaram e provaram nas respetivas obras. Em contrapartida, a explanação dos factos reais engrandeceria de tal modo os feitos dos portugueses de antanho que nada ficaríamos a perder e os nossos descendentes teriam sobejos motivos para se orgulharem. É, mais uma vez, Camões quem no-lo afiança, ainda no Canto Primeiro dos Lusíadas, no estilo grandiloquente da epopeia, garantindo ao rei D. Sebastião a quem dedica a sua obra, que todos os grandes heróis gregos, troianos, macedónios, romanos e respetivas façanhas devem inclinar-se perante a supremacia dos portugueses:

    Cesse tudo o que a Musa antiga canta

    Que outro valor mais alto se alevanta.

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    Não cabe, nesta crónica, a enumeração de figuras como Viriato, batalhas com intervenção divina como as de Ourique e de Aljubarrota, o propalado acaso no descobrimento do Brasil e tantos outros enganos. Uma historiografia honesta e aprofundada como a dos acima referidos e seus sucessores bastaria para repor a verdade se outros não houvesse que, apegados a formatações intelectuais diversas, teimassem nas antigas versões originárias de tempos e circunstâncias há muito ultrapassadas. Repito, a propósito, a proposta de Arnold Toynbee de considerar dois grandes períodos na História: a Era Pré-Gâmica e a Era Pós-Gâmica, ou seja, a viagem marítima de Vasco da Gama à Índia, circundando o continente africano, foi o acontecimento mais relevante de toda a existência humana desde a invenção da escrita até aos nossos dias pelas consequências que dela advieram para o progresso da Humanidade. Outros historiadores, embora não indo tão longe, reconhecem a grandeza do cometimento do navegador português, de todo o processo que a ele conduziu e se lhe seguiu. É preciso lembrar que os Descobrimentos portugueses resultaram de estudos iniciados pelo Infante D. Henrique reunindo conhecimentos já existentes sobre Geografia, Cartografia, Astronáutica, Matemática e outras disciplinas, adaptando-os aos objetivos já delineados e de uma política iniciada por seu pai D. João I, prosseguida no reinado do irmão D. Duarte e meticulosamente preparada pelo seu sobrinho-neto D. João II, el hombre como o designava com inveja e admiração Isabel, a Católica, rainha de Castela sua concorrente na tarefa de procurar novas terras. Tudo isto foi concebido e realizado nos séculos. XV e XVI.

    À primeira viagem de Vasco da Gama outras sucederam e deram origem à constituição de um grande império no subcontinente indiano para cuja edificação e manutenção foram necessários muitos recursos financeiros e enormíssimos sacrifícios em vidas humanas. Aqui residiu a parte mais significativa desse milagre: como foi possível a um punhado de gente conquistar e impor respeito a milhões de pessoas tão longe deste extremo sudoeste da Europa? Com efeito, no princípio do século XIV, Portugal contava cerca de 1 000 000 de habitantes mas, em 1348, a Peste Negra dizimou grande parte dessa gente. Valia que os portugueses eram prolíficos. Não obstante a mortalidade infantil, que nesses tempos era elevadíssima, as famílias contavam elevadas proles, que mal chegavam para repor aqueles que iam perecendo nas guerras de conquista no norte de África e nas viagens dos Descobrimentos. Cristóvão Colombo dizia que, no final do século XV, metade da população portuguesa havia morrido em consequência dos Descobrimentos. Ora, o Brasil foi descoberto (oficialmente) entre este século e o seguinte. No subcontinente indiano, prosseguiam as lutas para defender e consolidar o que já era domínio português. O Brasil requeria, agora, ainda mais gente, sobretudo a partir de 1534. As viagens marítimas não se restringiram à Índia e ao Brasil. As naus portuguesas chegaram ao Extremo Oriente na 2ª metade do séc. XVI, enquanto Ingleses e Holandeses só o conseguiriam um século mais tarde. A tudo isto acresciam as permanentes lutas entre Portugueses e Castelhanos com tentativas de conquista ora por via política (casamentos de príncipes e princesas entre os dois reinos), ora por incursões bélicas quase constantes ao longo das fronteiras existentes. Só à entrada do século XIX é que a população portuguesa apresentava um aumento significativo, pouco mais de 3 200 000 habitantes. Do império da Índia já pouco restava, não por fraqueza mas pela perda da nossa independência (de 1580 a 1640), património que os Filipes não souberam defender como lhes competia, e ainda pelo dote real (D. Catarina de Bragança no casamento com Carlos II de Inglaterra), e cedências a países de maior poderio como os supracitados Inglaterra e Holanda.

    Quando falamos de população, obrigatório é referir que Portugal foi, até há pouco mais de meio século, um país maioritariamente agrícola. Rapidamente, foi-se urbanizando e, hoje, uma elevada percentagem de portugueses está concentrada nas cidades. Para isso, muito contribuiu o acesso à instrução de largas camadas antes dela privadas. Nos anos 50 da última centúria, poucos jovens oriundos das aldeias do interior prosseguiam estudos de nível secundário e contavam-se pelos dedos das mãos aqueles que, em cada comunidade, obtinham diplomas universitários. A emigração rumo a países da Europa permitiu que muitos jovens ficassem entregues a familiares e frequentassem as escolas de nível secundário e, mais tarde as Universidades ou as Escolas Politécnicas. O país evoluiu muitíssimo no domínio da educação mas, naturalmente, os que estudavam iam-se fixando nos grandes centros urbanos. Milhares de aldeias quase se despovoaram, noutras vivem apenas os mais idosos que não quiseram ou não puderam acompanhar filhos e netos. A natalidade diminuiu drasticamente em resultado de dois fatores: limitações materiais dos pais para manterem e proporcionarem nível de vida satisfatório a vários filhos e ambição de usufruir de tudo aquilo a que achavam ter direito: habitação, meio próprio de locomoção, recheio das habitações, férias fora de casa de preferência no estrangeiro, frequência de restaurantes e similares. Hoje, Portugal é um dos países da Europa com menos crianças. A aldeia em que fui criado tem ainda 67 residentes mas a última criança que ali nasceu tem hoje treze anos.

    Digo sempre que vivi alguns anos com um pé na Idade Média e o outro já na contemporaneidade. Nos meus tempos de criança, havia muita gente na aldeia, brincávamos ao jogo-de-roda no Largo d’à Bica. Comunguei das tradições e costumes aldeões, uma vida de grande proximidade com a Natureza. Como eu, muita gente migrou para as grandes cidades. Muitos beberam algo que os fez esquecer a sua autenticidade, esquecer talvez não seja o termo, revestiram essa camada primeva de outra “mais civilizada”. Pouco a pouco, os valores, o léxico, a mitologia rural ficaram escondidos num canto da memória e nem querem ouvir falar de hábitos que bem conhecem. Lembram-se da alheiras, do fumeiro e dos presuntos mas não se recordam, e fingem não se lembrar dos trabalhos do campo, dos sacrifícios dos seus antepassados. É isso que pretendo recordar em muitas das minhas crónicas.

    Por: Nuno Afonso

     

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