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Edição de 30-09-2019
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    Arquivo: Edição de 30-11-2012

    SECÇÃO: Crónicas


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    O imprevisto acontece – com a realidade jogamos ao faz de conta

    De súbito, uma forte ventania, como surgida do nada, abateu-se nos plátanos que margeiam, pela esquerda, a via pública, fez tombar no asfalto milhões de folhas que resistiam à morte prevista e, com elas, encetou algo como um bailado, em círculos, que foi progredindo até se perder de vista bem lá no extremo da rua. Em simultâneo, o céu, até então de um cinzento pacífico, tornou-se escuro, antecipando a noite e prenunciando temporal. Caíram as primeiras gotas de chuva, finas e espaçadas antes, mais constantes a seguir, obrigando os transeuntes a protegerem-se com guarda-chuvas ou a correrem em busca de um abrigo. Só então me apercebi de que não trouxera qualquer resguardo e teria que vencer aqueles dois hectómetros e meio com a minha neta de sete anos em corrida ao faz de conta. Duzentos e cinquenta metros para lá, outros tantos no regresso. «E se, entretanto, a chuva tiver virado temporal?», questão recorrente que me acicata nessa hora e meia de permanência no recinto. Quem vai chegando não parece estar muito incomodado com o que acontece no exterior. Bom sinal! Mesmo sem sombreiro – curioso como, na aldeia, as pessoas resumiam com essa designação o objeto que podia resguardá-las da chuva como do sol, embora não seja adequado no primeiro caso, preferindo o nome derivado ao composto talvez a pensar que, com ele cobertos, de certa maneira, ficamos a uma sombra protetora – estamos à vontade, a minha neta leva um casaco que, depois de entrar no automóvel, lhe retiro, sem que da sua falta advenha desconforto, basta ligar o ar condicionado.

    Agora é noite fechada, conjugaram--se os humores do tempo e a precisão da meteorologia. Boa noite! Desapareceu o motivo da ansiedade que precede esses momentos de indefinição característicos do lusco-fusco. Aí pode começar o mistério que sempre associamos ao período de treva. Em tempo não muito distante, a ausência de luz natural determinava muito mais do que a separação entre o dia e a noite, o trabalho e o repouso, a certeza e a dúvida, o movimento e a imobilidade, o balanço do dia que termina e a projeção do dia seguinte. O dia era associado à vida, a noite era o fechar dos olhos do dia, a ausência de luz natural, em resumo: a morte. Receava-se a noite quase como se temia a morte, o sono era uma espécie de vida suspensa entregue nas mãos de Deus, a morte era o descanso eterno, o não retorno. A convicção de que haveria esse retorno, eis o que justifica o quase, o que alentava quem vivo era e confiava no Supremo Juiz que tinha o poder decisório sobre a nossa existência. O receio era fortalecido pela fraca iluminação que permitia a atividade no período entre o regresso a casa e a disposição dos corpos para o descanso. Candeias, candeeiros de mesa e lampiões, alimentados a petróleo (querosene para os brasileiros) bruxuleavam a guiar os passos nesse lapso de tempo. Quando surgiram os “petromax”, que projetavam uma luz muito mais intensa e clara, o ambiente transformava-se, mudava a disposição das pessoas nos espaços por eles abrangidos. «Parece que é dia!», exclamavam. A eletrificação das casas também contribuiu para minorar a distinção entre o dia e a noite além da comodidade que trouxe, bastava carregar no garabito (1) como dizia o Bébé, um pobre de espírito que fazia mandiletes (2), transportava cargas e só pedia como retribuição que o deixassem “dar ao garabito”, pressionar o interruptor, prazer supremo, que outro não conhecia. Bem pode dizer-se que, ao terminar a primeira metade do século XX, a vida era, ainda, a preto e branco. Na cidade, mas sobretudo na aldeia, os homens vestiam pardo (3) ou roupa exterior a propender para tonalidades baças, o luto obrigava homens e mulheres a trajar de negro durante um ano ou mais, as viúvas traziam a morte com elas para o resto dos seus dias, o que distinguia os eclesiásticos era o negro da batina que vestiam no dia a dia e nos atos religiosos, a liturgia determinava paramentos negros nas missas de requiem e nos ofícios fúnebres, o escuro era sinónimo de castigo para as tolices das crianças: «Se continuas a fazer perrice (4) vais para o quarto escuro!». Em contrapartida, brancos eram os lençóis em camas de gente remediada; as toalhas que revestiam mesas de praticamente todas as famílias em dias de festa até para famílias de menores recursos e eram de uso diário para as mais abastadas; as roupas do batismo e a toalha que limpava a cabecinha dos neófitos após o derramamento da água sacramental; as camisas para os domingos e dias de festa; meias e agasalhos para todos, no tempo frio de outono e de inverno, o que pressupunha cultivo de linho ou posse de ovelhas, porque dinheiro nem sempre havia para comprar novelos de lã.

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    O toque dos sinos às Ave-Marias, quando clareava, era um grito de alegria e agradecimento a Deus por mais um dia de vida, o toque às Trindades, tão logo o sol fazia as despedidas e as primeiras sombras já adormentavam a Natureza, conquanto representasse alívio da labuta diária e chamada ao reagrupamento familiar, vinha marcado por uma indefinível emoção, entre o regozijo da convivência e a pena da despedida. O simbolismo da noite em relação à morte trazia consigo o desejo de distanciamento de tudo quanto lembrasse o momento fatal: na igreja, enquanto lugar onde eram celebradas as exéquias, se expunham os mortos antes da encomendação (5) e, durante séculos, se enterraram os que partiam deste mundo; o cemitério, espaço onde todos os moradores tinham familiares sepultados e destino certo dos que ainda conservavam o precioso dom da vida; a igreja e o cemitério em conjunto, por isso duplamente atemorizante, a presença, materialmente silenciosa, de Deus na sua morada, e a ausência dos que nos pertenceram e se tornaram pó, a perspetiva para nós tão certa quanto aterrorizadora, a certeza da morte e o temor, que não gostamos de admitir, de, um dia, ela nos vir buscar.

    Cito Gonçalo Manuel Tavares em crónica publicada no número 1025 da revista Visão: «O medo da morte e o medo dos mortos. Os relatos sobre esse tremor diante do cadáver, esse não querer tocar. Talvez uma herança inconsciente da peste negra. Aí, o morto matava: tocar na morte era correr um risco (…) Hoje ainda, no séc. XXI, a lógica, a medicina e a racionalidade podem dizer-nos que não, que é absurdo, mas o inconsciente ali está…».

    Na minha aldeia, o cemitério ficava ao lado da igreja, dentro dos mesmos muros. À noite, as pessoas transitavam pelos caminhos contíguos de coração apertado tentando desviar os olhos desse lado, ainda que a morada divina devesse merecer-nos toda a confiança e do campo santo nada tivéssemos a recear porque os mortos não regressam. António Lobo Antunes, numa entrevista concedida à rádio TSF por ocasião da “Escritaria”, em outubro passado, referia-se a alguém que nunca ia ao cemitério «porque, nesses lugares, não está ninguém».

    - Então, onde estão os mortos? – perguntavam-lhe .

    - Andam por aí – explicava essa pessoa. Falam connosco, dão-nos as suas opiniões, fazem-nos companhia, sentimo-las ao nosso lado.

    E acrescentava Lobo Antunes:

    «Tinha razão. Eu ouço-os, distingo-lhes as vozes, compreendo o que me dizem…».

    Houve uma pessoa que nunca manifestou receio de dirigir-se à igreja a qualquer hora da noite como do dia. Foi zeladora do Santíssimo Sacramento durante alguns anos. Uma lâmpada, suspensa do teto e permanentemente acesa, simbolizava a eternidade de Deus e da sua presença entre os homens. O depósito de azeite alimentava uma torcida cujo pavio teria que ser substituído de quando em quando, presumo que, de quatro em quatro horas. Essa era a principal tarefa da zeladora. No outono e no inverno, às 17 horas é noite cerrada. Não me lembro a que horas ela procedia a esse trabalho, sei que não falhava uma só vez, porque a chama não poderia extinguir-se, representava a fé das pessoas da comunidade e a sua homenagem a Jesus Sacramentado. Essa mulher, a pessoa mais corajosa que conheci, era a minha mãe.

    (1) Garabito – interruptor, botão que se comprime para ligar ou desligar a luz.

    (2) Mandiletes – recados, mensagens que se manda alguém dizer ou levar a outra pessoa.

    (3) Pardo – tecido rústico de lã, também chamado burel, de cor negra.

    (4) Perrice – choradeira de criança por discordância ou teimosia.

    (5) Encomendação – ritual religioso (orações e cerimónias) seguido pelo sacerdote antes de sepultar o morto.

    Por: Nuno Afonso

     

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