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Edição de 31-12-2021
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    Arquivo: Edição de 30-11-2012

    SECÇÃO: Cultura


    CONVIDADO DO CICLO “OS ESCRITORES VISITAM A BIBLIOTECA”

    Vasco Graça Moura na Biblioteca Municipal de Valongo

    Fotos FILIPE CERQUEIRA
    Fotos FILIPE CERQUEIRA
    Decorreu a 18 de Novembro uma sessão da iniciativa "Os Escritores Visitam a Biblioteca Municipal", da responsabilidade da coordenadora das bibliotecas de Valongo e de Ermesinde, Isaura Marinho, que agradeceu a Vasco Graça Moura (VGM) ter aceite o convite para estar presente. Agradecimento recíproco da parte do escritor à Câmara de Valongo e à pessoa do seu presidente João Paulo Baltazar, elogiando-o pelo «excelente equipamento cultural» que visitou e comovendo-se por se lembrar que, enquanto diretor do Serviço de Bibliotecas e Apoio à Leitura da Fundação Calouste Gulbenkian (1996-1999), procurou promover uma visão de alargamento da rede de forma transversal, numa altura em que o país estava deficitário desses equipamentos e que o local desta palestra era um dos resultados palpáveis desse trabalho.

    Por sua vez, João Paulo Baltazar apresentou, e bem, o autor ,com palavras de admiração pelo seu percurso literário e pela defesa da língua contra a ligeireza do Acordo Ortográfico e pretensa defesa da globalização que daí advém, pela defesa da identidade de geração em geração.

    De início realizou-se uma leitura antológica de “Desmandos da Alma”, de 2011, pela voz de Celeste Pereira, Clara Oliveira, Cristóvão Pimenta, Cristina Martins, Gilda Neves e Fernanda Rodrigues, membros do coletivo "O Canto de Alcipe"; ouviram-se duas canções em inglês (aparentemente sem qualquer ligação com os poemas), com Afonso Alão no canto e João Teodósio na viola. Foi uma forma de redescobrir coisas de que, na altura da criação, o escritor não se tinha apercebido, «estando fora de mim o que era meu, chegando-me por outra via».

    De seguida, guiou-nos pelo seu percurso de muitos anos de escrita, muito estimulados ao início por seu pai e os livros de casa, determinando um interesse que se manteve enquanto estudante de Direito. Foi tarde para a tropa, numa especialização de estudos de Direito – Justiça Militar –, escolhendo o Porto para a especialização porque aí tinha os seus filhos. 33 meses de interessantes experiências a lidar com processos em que os arguidos eram militares. Um dos seus colegas de tropa foi Manuel António Pina. A propósito de uma pergunta de "A Voz de Ermesinde", irá referir-se a este poeta e cronista como tendo «um tipo de ironia afável, muito personalizada», de cujas crónicas era apreciador, na esteira das de Ramalho Ortigão e de Eça de Queiroz, só para dar alguns exemplos de como ainda hoje se mantêm atuais muitos dos temas retratados.

    No início da sua vida literária, VGM interessa-se por uma ideia mais surrealista, que depois lhe deixa de interessar e, por uma necessidade de equilíbrio, libertando-se de um certo alternatismo das imagens e da escrita, passa a incorporar uma bagagem mais bebida nos clássicos. Por outro lado, há uma presença importante do sentimento amoroso e também uma parte de ironia, de sarcasmo e um certo gozo com os ridículos da vida, de usos e costumes, onde se nota que a experiência profissional enquanto advogado se refletiu no conteúdo do texto literário. O facto de sermos europeus, que tem um peso enorme no que somos, escrevemos, vivemos, que tem os seus tempos de crise e os seus tempos de vantagens derivadas das relações privilegiadas com outros povos, passa deste modo, também, a ser peça chave no entendimento do pensamento deste escritor.

    A FACILIDADE

    DA POESIA

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    Para VGM a Poesia é a forma mais fácil de iniciar uma atividade literária, pois quem começa tem sempre este problema: «Custa menos fazer os 14 versos de um soneto do que as 200 páginas de um romance». O Ensaio surge já com algum maturidade e será uma forma utilizada para abordar, tentativamente, uma determinada realidade, não se tratando de uma tese mas sim de uma interrogação e um avançar de soluções de resposta. São da sua predileção os temas relacionados com Luís Vaz de Camões, a relação com a música e com as artes plásticas. A música tem um papel fundamental na própria génese da poesia e tem um papel estruturante no que escreve. Para VGM existem três maneiras fundamentais de falar de música na poesia:

    – Por metáforas: dando o exemplo de Eugénio de Andrade, que quando fala de música fala de equivalentes metafóricos;

    – Por aspetos descritivos: Jorge de Sena, em "Arte de Música", onde procura descrever uma sinfonia, uma sonata, uma fuga;

    – Por equivalentes estruturais: procurar que um texto tenha semelhanças em relação a uma determinada estrutura.

    É neste último âmbito que se situa VGM, exemplificando o próprio com a história da criação de "lá vai uma, lá vão duas, três pombinhas a voar", usando a forma musical Fuga. Na tradução, o interesse foi incorporar na língua materna textos que lhe tinham causado impressão noutros idiomas e transportar a sua orgânica para a nossa Língua Portuguesa. Tornou-se numa espécie de luta corpo a corpo:

    1º – Com um texto feito por outra pessoa;

    2º – Numa língua que não era a dele;

    3º – Com a sua própria língua, para encontrar os equivalentes de expressão;

    4º – Consigo mesmo, porque a tradução é uma forma de autoconhecimento, que é, na verdade, o objetivo primeiro, cimeiro, do contacto com toda a arte e a sua prática.

    O INTERESSE

    PELO FADO

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    Por fim, falou sobre o seu interesse pelo Fado, tema incontornável das perguntas. VGM falou de pessoas importantes na escrita para fado, como o seu amigo David-Mourão Ferreira, falou das suas experiências com a música de Carlos Paredes, do seu início de escrita para Fado (1992), em conversas com João Braga e Carlos do Carmo, incentivando-o a escrever. Com saudade disse que «hoje nenhum poeta cultivado consegue esta arte consumada popular, que vem de muitas décadas, porque a nossa língua está a morrer».

    Sem querer referir o tema polémico do acordo ortográfico, que ainda foi tema da última questão, esclareceu que não há ligação com os grandes clássicos da literatura, com as técnicas de expressão próprias portuguesas. No seu entender, hoje os jovens com 25 anos começaram a ler com José Saramago e não passaram por Vitorino Nemésio, Camilo Castelo Branco, entre outros, que são o património que exprime a nossa identidade e que nos ajuda a refletir sobre nós próprios, os testemunhos da nossa língua que nos ajudam a utilizá-la melhor. Presidindo a vários júris de concursos para jovens escritores, nota que é tudo péssimo, de baixíssima qualidade e que oportunidade como estas, de palestras em bibliotecas com autores importantes, são excelentes formas de tentar sensibilizar as pessoas para a literatura de excelência. Em nosso entender, o facto de pouquíssimos jovens terem assistido a esta palestra, que praticamente encheu o auditório, revela pouco entusiasmo para aproveitar este tipo de ensinamentos.

    Ao deixar o dom da palavra para o público, VGM deixou no ar uma pequena “boutade” – «como a primeira pergunta é sempre a mais complicada, o melhor é começar logo com a segunda». O público logo despertou e a primeira pergunta incidiu sobre a diferença entre produzir um dos textos de que deu exemplo de leitura ao vivo e escrever para um jornal, com uma periodicidade regular, ao que VGM respondeu que, enquanto escritor, não escreve por obrigação, escreve quando lhe apetece; para o jornal, o valor efémero que pode acontecer aos seus textos incute-lhe a necessidade de ter sempre em vista alguém que o vai ler, seja o homem comum ou um especialista de alguma matéria, não havendo neste caso a necessidade de deixar um legado às gerações vindouras.

    OS NOVOS

    ESCRITORES

    À pergunta de "A Voz de Ermesinde" sobre novos escritores que sejam da sua predileção, VGM deu como exemplos valter hugo mãe, um excelente ficcionista, Rui Lage, da Faculdade de Letras do Porto e Nuno Brito, poeta, também do Norte. (Da nossa parte importa referir Miguel Manso, Diogo Vaz Pinto, Jaime Rocha, Margarida Vale do Gato, Bénécicte Houart, Catarina Nunes de Almeida e Vasco Gato).

    «O momento mais animado e acalorado da sessão deu-se quando foi referido o caso de valter hugo mãe, com divergências quanto à ortografia utilizada, à sintaxe e à forma de expressão por parte de uma das pessoas presentes. Esta ouvinte defendeu acerrimamente que os leitores «devem estar abertos a toda a literatura e a todo o tipo de ideias, porque o que é clássico e os autores clássicos explicados nas escolas são muito bons, mas se ficarmos presos ao que foi feito há 50, 100, 200 anos atrás, não evoluímos e esse é o nosso problema», insinuando que «uma pessoa pode ser um bom escritor sem conhecer os clássicos» e continuando com críticas à pessoa e à escrita de valter hugo mãe, «que é reduzido quase a nada», depois de se ler José Saramago e Gabriel García Márquez. VGM tentou rebater estes argumentos, que pareciam mais em defesa de uma jovem que conhece e que escreve do que propriamente de leitora atenta, mas foi sucessivamente interrompido pela espetadora. «Os clássicos são testemunhos da nossa língua. Se nós não os conhecermos ficamos amputados de uma série de dimensões da língua». Só assim poderá haver proficiência na utilização da língua, de acordo com VGM. Sophia de Mello Breyner Andersen, que dedicou toda a vida aos clássicos, foi uma grande escritor moderna, do seu tempo, o que invalida por completo essa noção de que os clássicos só devem ser lidos depois de se escrever, que não devem ser ensinados na escola desde tenra idade, como a espetadora defendeu, e mal.

    O momento que mais nos emocionou dividiu-se pelas leituras de textos de VGM feitas pelo próprio, que deixaram a sala em suspenso, capaz de captar a atenção e até moldar a própria respiração dos ouvintes à sua própria energia. Uma figura afável, de trato simples e que dá gosto ouvir, principalmente sobre música e a sua formação classicista, e que devemos ouvir com toda a atenção, que encanta por todo o seu conhecimento.

    Por: Filipe Cerqueira

     

     

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