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    Arquivo: Edição de 25-07-2012

    SECÇÃO: Destaque


    XIX FEIRA DO LIVRO DO CONCELHO DE VALONGO

    Por uma política do impossível...

    Fotos URSULA ZANGGER
    Fotos URSULA ZANGGER
    Última dia e último evento da Feira do Livro (do concelho) de Valongo de 2012 foi a apresentação do livro de Sousa Dias “Grandeza de Marx – por uma política do impossível”, evento que em termos de ideias, foi uma centelha no panorama deste certame. Tratava-se aqui, fundamentalmente, de Filosofia. Ou parafraseando de outra ciência (?), a Economia, de Filosofia Política.

    Patrocinada pelo jornal “A Voz de Ermesinde”, a apresentação do livro “Grandeza de Marx” teve na mesa, além do autor, a diretora do jornal “A Voz de Ermesinde”, Fernanda Lage, e ainda o também professor de Filosofia (como Sousa Dias) José Melo, tendo ambos, enquanto professores, sido colegas do autor de “Grandeza de Marx” na Escola Artística Soares dos Reis.

    Deu início a esta apresentação final Fernanda Lage, que destacou como muito positivo que se tivesse viabilizado a realização da Feira do Livro, apesar das dificuldades, apresentando depois Sousa Dias, cuja primeira referência lhe fora trazida por alunos comuns.

    Citou depois o autor quando, numa entrevista à revista “Nada”, este apontava que o livro “Grandeza de Marx” fora escrito em estado de urgência.

    Seguiu-se a intervenção de José Melo que, para introduzir a obra de Sousa Dias recordou uma visita a Berlim, em particular ao Museu da DDR (a antiga República Democrática Alemã, governada por um Partido Comunista e alinhada com a União Soviética), onde para além de Trabants e outros objetos tornados kitsch, se podiam admirar estátuas de Marx e Engels.

    Uma espécie de feira da ladra, pondo em confronto o “homem novo” como o marxismo o via, e o “homem velho”, aprisionado pelo capitalismo.

    Assim, José Melo perguntava – ao público – se não estaria Sousa Dias a apanhar [os cacos dos] conceitos esfarelados como as relíquias kitsch do museu de Berlim.

    Mas adiantava então que para o autor, numa tarefa «urgente e ingente», pensar Marx hoje é pensá-lo sem a pressão do “take away” marxista. Isto é, citando Derrida, uma problemática da análise de Marx sem a sua contaminação “marxista”.

    Sousa Dias colocava como exigência o retorno à produção de Marx, implicando isto ser fiel a Marx contra o marxismo. Mas também trazer à luz o conflito entre os vários espíritos de Marx.

    Ao contrário de Derrida e de Negri, em Sousa Dias ressaltaria a importância de conceitos como classe social e luta de classes.

    Em Sousa Dias compreendia-se que a reorganização do capitalismo tinha gerado, apenas na aparência, uma nova forma de proletariado, com a deslocalização das indústrias para as periferias, nas economias emergentes. Assim, o que na verdade se verificava, era uma proletarização inteira da sociedade e não o seu contrário.

    Em Sousa Dias verificava-se também uma recusa na eventual rutura entre o Marx jovem e o Marx posterior.

    Conceitos como materialismo histórico e materialismo dialético viriam depois pela mão do marxismo e seriam pois estranhos a Marx.

    Para Sousa Dias em Lenine, Estaline e Mao, o que havia era uma terraplanagem do espírito crítico de Marx.

    A ideia de comunismo em Marx era uma proposta de regime de propriedade comum e não de propriedade do Estado.

    Mas porquê insistir na grandeza e atualidade de Marx?, deixou finalmente José Melo, para Sousa Dias responder.

    A PÓS-DEMOCRACIA

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    O autor agradeceu a sua presença a Fernanda Lage, e a José Melo, colega de mais de 30 anos, a sua introdução.

    E explicou que foi com indignação e necessidade que escreveu “A Grandeza de Marx” – necessidade de repor Marx em circulação.

    Assumindo-se como vindo de tempos de militância política e filosófica, apontou que, se nos anos 60 toda a gente se dizia marxista, hoje Marx tinha-se tornado o inominável, sobretudo após a queda do muro de Berlim. Atravessavam-se agora tempos de nevoeiro teórico e ideológico.

    Mas não falar de Marx – considerou o professor de Filosofia – faz tanto sentido como não falar de Platão, Aristóteles ou Kant. Só que este silêncio à volta de Marx não era inocente.

    Diz-se agora que não há alternativa política ao mundo em que vivemos, criando-se assim uma identidade entre realidade e possibilidade. Mas esta é uma realidade constritiva e planeada, a situação atual é tudo menos uma inevitabilidade, a crise é real mas é também um pretexto para a destruição de uma certa redistribuição da riqueza feita na Europa do pós-guerra..

    Assim a questão, hoje, não é avaliar o legado de Marx, mas avaliar-nos a nós a partir das questões críticas de Marx.

    Hoje quando votamos só elegemos quem representa os que mandam – os mercados. Estamos já a viver num regime pós-democrático, a caminhar para uma forma esvaziada de democracia e nenhuns direitos nos são garantidos.

    Hoje já não há desemprego – estar desempregado é a condição normal das pessoas.

    QUESTÕES DO PÚBLICO

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    Seguiram-se então questões colocadas pelo público. Não será o capitalismo, com as suas próprias contradições o motor da mudança? Sousa Dias responde. O capitalismo funciona por transformação da sua axiomática. Quando falamos hoje de capitalismo não estamos a falar do capitalismo do tempo de Marx. Se, por exemplo, em Portugal, em pouco tempo, passamos de uma sociedade rural para uma sociedade de serviços, há hoje mais proletários à escala global do que no tempo de Marx, proletarização essa que é condição da nossa “desproletarização”. Mas criou-se também uma nova classe transversal proletarizada, um proletariado muito mais precarizado.

    Porque é que continua a ser atual – nova pergunta – o ideal de Marx? Porque é que não passa de um ideal? Sousa Dias: De um ponto de vista marxista foi ótimo verificar o fim dos Estados marxistas – autênticas perversões do ideal de Marx. Disse Marx: «Eu não sou cozinheiro, não faço receitas para os restaurantes do futuro». O marxismo-leninismo, ainda que em nome de Marx, é já a perversão absoluta do pensamento de Marx, para quem uma democracia efetiva seria a auto-organização do comum. Talvez isto seja uma utopia. A fé nos homens é a mais difícil das fés, mais do que a fé em Deus.

    Vivemos uma realidade tão insuportável que temos de acreditar numa sociedade diferente desta. A sociedade de hoje [também] era inimaginável, [por isso] acreditamos que depois de nós poderá haver uma nova organização social.

    O capitalista não pode parar, pela sua própria lógica, assim somos todos atingidos pela única lógica possível, fazer sempre mais dinheiro e este multiplicar-se a si próprio.

    Pergunta do público sobre o papel da universidade, e a esperança de que esta caminhada pare de nos levar para o abismo... Sousa Dias incentiva esse desejo de utopia, uma rebeldia latente. Não é à toa que subintitulou “A Grandeza de Marx” «– por uma política do impossível».

    E ainda uma última pergunta, sobre o facto de Sousa Dias, embora consciente da existência dos vários espíritos de Marx e mesmo da presença em embrião da sua perversão “marxista”, ter evitado no seu livro uma palavra sobre os contemporâneos de Marx que já o apontavam, por exemplo na Associação Internacional de Trabalhadores (AIT).

    Sousa Dias responde que o seu livro queria concentrar-se na figura de Marx e no seu resgate, mas reconhece que o espírito sectário está já presente em certos textos do filósofo alemão. O modo como Marx atua, no seio da AIT, contra Bakunine, mostra que não há “um” Marx. E também não faz sentido voltar à “pureza” de Marx, há já nele textos dogmatizantes, petrificados e “marxistas”.

    Por: LC

     

     

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