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Edição de 31-03-2021
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    Arquivo: Edição de 25-07-2012

    SECÇÃO: Destaque


    Problema (ou falta dele) nas Urgências em Valongo ou luta política à pala da preocupação das pessoas?

    Foto AVE
    Foto AVE
    Um episódio de luta política agitou estes dias o município e a cidade de Valongo, à custa de um problema real sentido pelas pessoas, o provável (e iminente) encerramento da urgência (ou apenas da urgência noturna) do Hospital de Valongo.

    Preocupação real da população valonguense, a situação acabou por se tornar alvo do pingue-pongue das principais forças políticas do concelho, PS e PSD.

    A situação tinha começado a preocupar os valonguenses quando, há algum tempo atrás a Administração Regional de Saúde do Norte (ARS-Norte) anunciou a intenção de fechar o serviço de urgência noturno do Hospital de Valongo, a partir das 22h00.

    Tal encerramento estava inicialmente previsto para o dia 18 de junho.

    A verificar-se este encerramento noturno, tal obrigaria os utentes provenientes de Valongo a ter de se dirigir (ou ser encaminhados) para o Hospital de São João, e provavelmente utentes provenientes de Gondomar a terem de se dirigir para o Hospital de Santo António, e ainda os utentes provenientes de Paredes a ter de se dirigir ao ao Hospital de Penafiel, já que aquele hospital serve utentes destes três concelhos.

    Tal situação de encerramento noturno, que compreensivelmente não é bem aceite pela população valonguense, mereceu uma intervenção por parte do presidente da autarquia, o social-democrata João Paulo Baltazar, considerando precipitado o encerramento desta urgência noturna e pretendendo ser ouvido pela tutela e, além do mais, criticando a falta de diálogo da ARS-Norte, já que tendo sabido antes, em reunião com a ARS-Norte sobre outras questões de saúde (nomeadamente centros de saúde de Alfena e Campo e agrupamento de centros de saúde) dos planos de encerramento da urgência noturna, comprometeu-se esta ARS a apresentar os estudos realizados à autarquia valonguense, o que nunca veio a fazer, tendo pelo contrário anunciado o referido encerramento noturno a partir da data atrás referida.

    Após diligências por parte da autarquia junto do Governo e do Ministério da Saúde, suspendeu a ARS-Norte o encerramento com efeitos imediatos da urgência noturna, comprometendo-se entretanto a apresentar à autarquia os planos definitivos quanto a esta urgência e a fundamentar os ganhos de qualidade da população valonguense na solução finalmente a adotar.

    Todavia, o conhecimento de um estudo entretanto divulgado de responsabilidade da Comissão de Reavaliação da Rede Nacional de Emergência e Urgência (CRRNEU) – um grupo de peritos que tem vindo a avaliar a prestação de cuidados de saúde urgentes –, e no qual se previa o encerramento das urgências em diversos hospitais, entre eles o de Valongo (juntamente com Agualva-Cacém, Estremoz, Fafe, Idanha-a-Nova, Lagos, Loulé, Macedo de Cavaleiros, Montemor-o-Novo, Montijo, Oliveira de Azeméis, Peniche, Santo Tirso, Serpa, Tomar, além do Hospital Curry Cabral, em Lisboa, entretanto já encerrada), veio relançar a questão ainda com maior acuidade.

    A Câmara Municipal de Valongo protestou de imediato a divulgação deste estudo, exigindo à ARS-Norte que o desmentisse, uma vez que tal questão – do encerramento da urgência do Hospital de Valongo – nunca tinha estado em cima da mesa para discussão, sendo por isso uma solução estranha àquelas que a ARS-Norte vinha ponderando nas reuniões havidas com a autarquia valonguense, incluindo o encerramento noturno.

    Reagindo à divulgação deste estudo, convocou o PS de Valongo, no mesmo dia, uma manifestação «preventiva» para a tarde do dia 20 de julho, em frente ao hospital, contra o encerramento do serviço de urgência, na qual vieram a participar dezenas de munícipes valonguenses, que exibiam vários cartazes e slogans antigovernamentais e exigindo a urgência de 24 horas no Hospital de Valongo.

    O líder socialista José Manuel Ribeiro criticou então João Paulo Baltazar de não estar também na primeira linha da frente a defender o serviço de urgência do Hospital de Valongo, mas mais preocupado em defender o Governo.

    Por sua vez, o executivo laranja da Câmara Municipal de Valongo, apressou-se a convocar, para a manhã do próprio dia da manifestação, uma conferência de imprensa na qual garantiu que nada estava ainda decidido, e apontando até uma carta do presidente do Conselho de Administração do Hospital, António Ferreira, ao corpo clínico e funcionários, na qual se comprometia a avisar «atempadamente qualquer alteração».

    Nessa conferência de imprensa João Paulo Baltazar corrigiu também os dados do estudo, apontando que o Hospital de Valongo servia 200 mil utentes e não 90 mil, como aquele referia.

    O assunto irá estar em discussão, entretanto, em vários órgãos, como na Junta Metropolitana do Porto, na próxima sexta-feira, dia 27 de julho.

    QUESTÕES PERTINENTES

    A questão do encerramento de urgências é pertinente, tendo que que se avaliar sempre o prejuízo causado às populações com o encerramento de um serviço mais próximo, e a eventual melhoria da prestação do serviço de saúde com a concentração de meios em hospitais mais bem apetrechados.

    Isto é, teoricamente seria por vezes preferível o encerramento, se o tempo de deslocação dos doentes e a prontidão ou não da sua receção não prejudicasse a prestação do cuidado de saúde.

    A este propósito, todavia, é de reter, a título de exemplo, o desabafo, em reunião de Câmara, do próprio presidente, ao dizer que era mais rápido o atendimento a um utente classificado como “de gravidade verde” [pelas regras do sistema de Manchester – sistema hospitalar de triagem das urgências], no Hospital de Valongo, do que a um utente “laranja” no Hospital de S. João, no Porto, o que, na verdade significa que estes hospitais periféricos, embora possam estar menos apetrechados, podem sempre fazer diminuir em muito a pressão sobre o acesso às urgências nos hospitais centrais.

    Mas por vezes é também verdade serem os utentes confrontados com situações em que os serviços de urgência nestes hospitais periféricos não se mostram competentes para responder aos problemas detetados (ou nem por isso).

    Sobre o “timing” dos diversos anúncios há que dizer: primeiro, que o anúncio do estudo sobre o encerramento (total) da urgência do Hospital de Valongo caiu no momento exato para quem estivesse a tentar impor o encerramento da urgência noturna. Enfim, urgência diurna sempre seria melhor que nada... não podendo nós afirmar contudo, com os dados que temos, que tal anúncio foi encomendado; segundo – e também simples coincidência –, é que a questão do encerramento total ou parcial das urgências no Hospital de Valongo só é assunto após o estabelecimento no concelho de uma unidade de saúde privada, com urgências de 24 horas.

    Ora que se saiba, os principais envolvidos nesta luta política sobre as urgências em Valongo pouco diferem na avaliação da questão de fundo que é a mercantilização do mercado de saúde, forçosamente implicando uma pressão para a prestação de cuidados de saúde fora do sistema nacional de saúde, uma das principais conquistas de abril, cada vez mais em cheque, e tudo afinal – como se trata de uma questão de urgências – manifestações de urgência e conferências de imprensa de urgência – parece não serem mais do que armas políticas de arremesso no sentido de ganhar ou de conservar a maioria na Câmara.

    A saúde deve ser mercantilizada ou não? É isso que depois, mais grau menos grau, define as maternidades que fecham no Governo PS ou as urgências que fecham no Governo PSD.

    A falta de credibilidade da política não é culpa do povo.

    Ou então, como no poema de Bertold Brecht, “A Solução”,

    «(...)

    O povo perdeu a confiança do governo

    E só à custa de esforços redobrados

    Poderá recuperá-la. Mas não seria

    Mais simples para o governo

    Dissolver o povo

    E eleger outro?»

    Por: LC

     

     

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