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Edição de 31-10-2020
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    Arquivo: Edição de 17-07-2012

    SECÇÃO: Crónicas


    Obrigado!, digo eu...

    Foto URSULA ZANGGER
    Foto URSULA ZANGGER
    Numa segunda semana de julho eu tinha escolhido uma semana para gozar as minhas férias numa escolha que era muito minha – ser feliz e, ao palmilhar pela vida eu tenho percebido que cada um é efetivamente feliz à sua maneira, daí que o “barómetro” que mede a felicidade tem calibrações diferentes de pessoa para pessoa e é também por isso que só mesmo eu poderei falar de um sentimento que também é vivido muito à minha maneira porque é a mim que me preenche.

    Coincidentemente também nesta semana e num dia cujo dígito era o 9, eu celebrava 52 anos em que vinha ao mundo e, no final deste dia, colocava como agradecimento a tantas manifestações de carinho o seguinte comentário:

    «A forma de agradecer a todos os que me guardam num cantinho do seu coração e hoje ficaram felizes por mim é dizer-lhes obrigado, por tornarem tão bonito este meu dia, que começou com a alvorada e terminou agora, em paz e com aquela sensação que gostaria me continuasse a acompanhar nestes 52 anos de vida: dançar slow com a vida – embalada pelas alegrias e até pelas tristezas, pelo sol e pelas estrelas e principalmente nunca esquecer que o caminho se faz, caminhando».

    Este dia tinha começado bem porque, logo pela primeira hora da manhã, eu encontrava gente amiga que tomava café numa esplanada da Maia à qual me juntei para um café da manhã, porque não resisti mesmo ao sorriso e ao carinho com que fui agraciada, ainda mais que tinha no pequeno grupo um menino, Tomás, de sorriso enorme, de carinho enorme e também de educação e de saber estar, enorme e nem sempre comum nos tempos de hoje.

    Seguia depois o meu caminho que, a meio da tarde e durante uma semana, me levariam para o local privilegiado e que eu tinha escolhido para passar as minhas férias: apoiar o jornal “A Voz de Ermesinde” na Feira do Livro que decorria em Ermesinde e que era uma experiência que nunca tinha vivenciado e também – estava certa! – em que iria aprender tanto, sobre tanta coisa que eu não sabia.

    Claro que foi enriquecedor e ficou muito para além de todas as minhas expectativas, porque eu nunca tinha parado, durante tanto tempo, a conviver com gente de livros, ainda mais gente corajosa como esta que não se acomodou ou abrigou numa palavra que hoje é quase moda usar – “crise” – e que serve também para se cruzar os braços e muitas vezes pôr-nos numa atitude de vassalagem perante a vida como se estivéssemos à espera de um carrasco que nos vem “executar”.

    Com uma autarquia (que será seguramente o exemplo de muitas outras) corajosa e com gente também muito corajosa do pequeno stand onde estava instalada, eu pude ver um trabalho inexcedível e gente que não se demoveu do seu propósito: fazer com que este evento cultural fosse um sucesso e não se deter perante as adversidades de um tempo que não era próprio de um verão de julho, em que até a chuva nos visitou, como é tradição das feiras dos livros, conforme ouvia comentar e até rir.

    Num espaço mais reduzido de expositores certo é que livreiros que acreditam nos livros que comercializam e no talento de autores que convidaram, deram o melhor de si e as pessoas foram correspondendo muito pelo respeito que sentiram por esta teimosia e coragem e até por “cultura” e orgulho de participarem numa animação muito de carácter intelectual e lúdico que animou este “ex-libris” de Ermesinde, que é considerado como uma “sala de visitas” desta cidade – o Parque Urbano.

    Além da sorte de estar instalada junto ao pequeno palco onde os acontecimentos culturais decorriam, dali podia presenciar a azáfama que todos os dias envolvia colaboradores deste evento num espaço destinado à “oficina de ideias” que juntava crianças e jovens, apelando a apoiando no desenvolvimento de capacidades de criatividade com manuseamento de materiais e letras que os entretinham ao som de música alegre, como eles, que eu ouvia rir e “palrar” numa animação constante.

    Assisti extasiada a um encontro de gerações porque, mesmo em apresentações de livros tão particulares, como foi o caso de “O Caracol”, pude ter à minha frente uma assistência composta na sua maioria por pequenada mas penso que o seu autor, Renato Roque, foi tão eloquente, tão avô e tão intenso, que precisei de interrompê-lo para que me autografasse um livro para um senhor que tinha cerca de 80 anos de idade e os seus olhos brilhavam de entusiasmo quando lia a dedicatória que lhe foi feita.

    Também e neste encontro a vida cruzava-me com o tal menino com cuja família eu tinha partilhado o café do meu aniversário: Tomás, que sentado na fila da frente com os seus colegas do ATL prendia-se a uma história cujo seguimento teve que interromper, porque precisava de sair mais cedo para ir a uma consulta médica e não esqueço o sorriso rasgado que me endereçou – não me tinha esquecido e não saiu sem se despedir com um acenar de carinho, e também de respeito, porque em tempos que se situam em 1977 a vida me tinha cruzado com a sua avó, Eduarda que foi minha colega de trabalho durante 12 anos e de quem tinha ficado amiga.

    Aqueles meninos que se prenderam a “O Caracol”, um livro escrito por uma pessoa de sorriso fácil, seguramente iriam compreender o gesto que partilhei na minha crónica anterior, “Mamie”, quando explicava porque não tinha coragem de matar este pequeno ser e que inclusive me ajudava a passar o passeio para que não fosse “atropelado” pelos pés dos humanos e, se calhar, olhar-me-iam de forma especial quando soubessem que o principal motivo também era para que nunca mais me aparecessem como iguaria no prato, mesmo que cozinhado com mestria.

    Depois desta apresentação em especial, também foi difícil conter a emoção no dia seguinte. Uma menina com cerca de oito anos veio ter comigo pedindo-me que lhe vendesse um exemplar do livro que queria ler à noite ao irmãozito que tinha cerca de dois anos e, quando lhe disse o preço, ela praticamente ficou em “pânico” porque só tinha metade do dinheiro e como dizia – precisava do livro, tinha assistido à sua apresentação e, se ela gostou da história, o irmão também ia gostar. Teve sorte porque junto a mim estava a “pessoa oportunidade” que financiou o restante em falta e ela lá foi com o livro agarrado a ela como se tivesse encontrado o seu tesouro.

    Foram 10 dias recheados de eventos e acontecimentos, em que se conhecem pessoas anónimas fantásticas, com vidas fantásticas e de sorrisos fantásticos, que cada vez mais me fazem consolidar a ideia de que viver é mesmo a melhor aventura com que a vida nos pode presentear, e lembro autores que escrevem por paixão e vi-os declamar a sua poesia que os emocionou, que nos emocionou e, para mim, a “cereja em cima do bolo” foi assistir a uma tertúlia de gente intelectual que fala e se preocupa com um país que se chama Portugal no qual parece que as pessoas começam a perceber que tem gente dentro e que também nem o melhor cozinheiro conseguirá fazer “omeletes sem ovos”.

    Quando a diretora do jornal me disse: “Obrigado, Glória, por tudo!” eu, refletindo enquanto vou escrevendo estas minhas notas de tanto que fui aprendendo, a que acrescento a paciência do meu vizinho da frente, Manuel Valdrez que representava a Àgorarte e que me emprestava a sua caixinha mágica – o seu computador, para eu me ligar ao mundo e aos amigos, que me aturava as tropelias e as gargalhadas, a minha família que me protege a retaguarda, os meus colegas das Saibreiras que me visitaram para me dar coragem e incentivo, os meus amigos que vêm lá de longe para uma cafezinho, os meus vizinhos de stands livreiros que perceberam e desculparam qualquer falha própria de quem é novata nesta andanças e toda a equipa de “A Voz de Ermesinde” que confiou em mim, só posso finalizar dizendo:

    Obrigado! digo eu, por tudo o que me foi permitido aprender e por tudo o que me é permitido partilhar nesta forma que tenho de me ir ouvindo a mim mesma, escrevendo.

    Para mim tudo se resume mesmo no sorriso do Tomás, que representa todos os sorrisos de meninos e meninas, pequenos e grandes e que enchem a alma de qualquer pessoa que tem a sua forma particular de ser feliz e que foi ainda enriquecida por uma flor de papel que nos foi entregue no final e como gesto de despedida de uma Câmara Municipal que se atreveu.

    Bem hajam! A todos!

    Por: Glória Leitão

     

     

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