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Edição de 31-07-2019
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    Arquivo: Edição de 17-07-2012

    SECÇÃO: Destaque


    XIX Feira do Livro de Valongo: o triunfo de David

    Sob o risco de não se realizar até muito próximo da data da sua confirmação, remetida a um formato reduzido se comparada com edições anteriores no que toca ao número de stands e aos livreiros presentes, desprovida de nomes sonantes na animação dos eventos, tudo isto a um observador menos atento daria indícios de uma feira do livro de menor qualidade. Nada mais errado! Pelo contrário, e dando razão a muitas das críticas que apontáramos na edição anterior, a Feira do Livro de Valongo deste ano realizou-se – e aqui há que elogiar a persistência da Câmara Municipal de Valongo em viabilizá-la –, cresceu de interesse, e fez das fraquezas forças para, finalmente, poder ser considerada uma das melhores já realizadas, naquilo que estava nas suas mãos fazer – isto é, mais uma vez, como no ano anterior, não pode culpar-se a Câmara pelo clima – a falta de calor que acompanhou praticamente todos os 10 dias (e noites) da feira –, nem pela atmosfera de intranquilidade e preocupação dos portugueses, que tornam mais difícil obter o sucesso nos negócios, e ainda mais se o negócio são os livros. Apenas um reparo, mas este de difícil correção nas atuais condições, é que todos os livros são de papel, mas... alguns são mais alguma coisa do que apenas papel e nem sempre isso foi claro.

    Foto RENATO ROQUE
    Foto RENATO ROQUE
    Concentrando-nos por agora numa avaliação geral desta edição da Feira do Livro e deixando para mais tarde uma análise extensa e circunstanciada dos seus eventos mais significativos, atentemos pois nas circunstâncias que rodearam a sua realização este ano e como, a estas circunstâncias, responderam os organizadores e os seus parceiros – associações e livreiros.

    Foi este ano a área da feira do livro reduzida à zona baixa do Parque Urbano de Ermesinde, com a presença de muito menos livreiros, e com a eliminação dos espetáculos no auditório ao ar livre. Em sua substituição foi criado um pequeno palco junto ao acesso à esplanada do parque, palco esse onde simultaneamente decorreram os eventos à volta do lançamento de livros e conversas com os autores e editores e os eventos artísticos de animação da feira.

    O facto de estarem os stands concentrados e com o palco dos eventos e da animação próximos fez com que as pessoas se concentrassem então no recinto da feira, não se dispersando e atraindo o possível – fora o frio, fora a falta de gosto pelo livro, fora a falta de dinheiro – para a área de exposição dos livreiros.

    Os eventos, musicais, poéticos e teatrais, foram protagonizados sobretudo pela prata da casa, associações e bandas do concelho, ou grupos próximos dos editores e livreiros que atuaram aqui graciosamente. Em nossa opinião, pouco ou nada se perdeu em termos de qualidade artística. Que esta lição possa servir para outros eventos, como a Expoval!

    Expurgada da música pimba de muito mau gosto de anos anteriores em termos de ambiente, empenhada – à sua maneira – na promoção de autores locais, houve, quanto aos eventos mais ligados ao livro, muitos que merecem a nossa atenção e o nosso mais rasgado elogio, embora, ao mesmo tempo, outros houvesse, de qualidade discutível e absolutamente dispensáveis, e se reconheça continuar a haver uma grande debilidade no que respeita a separar o trigo do joio. Editar hoje um livro tornou-se uma tarefa demasiado fácil para alguns, o que, ao invés de constituir prova de generalização da cultura e do gosto por esta é, pelo contrário, apenas prova de um mundo em que muitos se extasiam ouvindo a sua própria voz como se esta fosse única e original, regateando mais tempo para si própria, e fazendo lembrar a piada do grande escritor que recebendo um manuscrito de alguém que queria saber a opinião do mestre sobre a obra, recebeu a seguinte resposta: «Há certamente muitas coisas boas e muitas coisas novas no seu livro. Pena é que as boas não sejam novas e as novas não sejam boas».

    EVENTOS EM DESTAQUE

    Foto URSULA ZANGGER
    Foto URSULA ZANGGER
    Logo no dia 7 de julho – segundo dia da feira – ocorreu um dos seus momentos mais interessantes – a VI Edição das Conferências de Ermesinde, da associação cultural Ágorarte, este ano dedicadas a José Régio.

    Tivemos então ocasião de assistir a duas belíssimas lições, de Isabel Ponce de Leão e António Ventura Pinto, que discorreram sobre a obra e a personalidade do autor, Ponce de Leão invocando o conflito latente em Régio – religioso, existencial e amoroso –, e Ventura Pinto sublinhando precisamente este conflito religioso sempre presente na vida e obra de Régio.

    Do ponto de vista da animação estes dois primeiros dias foram marcados pela Etnografia (no primeiro dia), com exibições curiosas e interessantes do Grupo de Percussões Dente de Leão, do Grupo de Tradições da Universidade Sénior do Rotary Club de Valongo, e do Grupo de Música Tradicional da Associação Académica e Cultural de Ermesinde.

    No seguinte dia destaque para a performance poética do grupo Sabor a Teatro, da Ágorarte, que ao dizer poemas de Régio, legendou assim ainda mais vivamente a conferência. No dia seguinte este grupo repetiu a performance e deu ainda uma «aula aberta», a nosso ver dificilmente adequada ao tempo e lugar, apesar da generosidade da ideia.

    Também o grupo Fado do Avesso acabou por legendar a poesia de Jorge Braga que lançou no dia 9 o livro “Plectro Inato”.

    José Vaz e a sua obra para a infância e juventude, foram trazidos à feira pela Ágorarte na tarde do dia 10. À noite atuou o grupo Sons d'Outrora, de Mafamude, numa muito rica visita à música popular portuguesa.

    No dia 11, à noite, destacamos o concerto da jovem banda ermesindense “Stripped Gipsy and the Majesty”.

    A tarde do dia 12 envolveu o jornal “A Voz de Ermesinde”, responsável pela apresentação do livro “O Caracol”, de Renato Roque, no que foi um sucesso de participação infantil.

    À noite tivemos uma situação que merece reparo. O editor e autor António Sá Gué, da Lema d'Origem, apresentou um dos livros que mereceria maior atenção na feira, o romance “Fermentos da Liberdade”, até pelo facto de o seu enredo atravessar Ermesinde e ser um livro nada “gratuito” como outros apresentados nesta feira. Mas ao mesmo tempo apresentou outro livro seu muito interessante, “Quadros da Transmontaneidade”. Mas a generosidade do editor fê-lo também acolher outros dois livros, já não seus, reduzindo a sua própria presença na feira, que acabou por se tornar residual e idêntica à de outros eventos menores quando, claramente, merecia muito mais.

    O concerto da noite pertenceu a outra jovem banda do concelho, desta vez de Valongo, “Pedra, Papel e Tesoura”, tal como a banda do dia anterior, grupo a seguir com alguma atenção.

    No dia 13 – propício ao azar – a chuva obrigou a adiar um dos eventos e transferiu o concerto de comemoração dos 22 anos da cidade de Ermesinde “1 Guitarra e 10 Canções de Amor”, para a sala de espetáculos do Fórum Cultural de Ermesinde. Espetáculo muito cuidado de António Côrte-Real (que selecionou as canções e fez os arranjos musicais), Vânia Fernandes (que interpretou e revelou talento e empatia com o público), e Pedro Giestas (que disse poesia de forma irrepreensível, com uma voz soberba ao serviço do texto) e ainda a participação do coro juvenil Arco-Íris da Associação Académica e Cultural de Ermesinde.

    Foi um belo momento comemorativo e digno, a que se juntou a intervenção cívica dos autarcas do concelho e freguesia.

    No dia 14 como que se prolongou esta comemoração de Ermesinde, com a apresentação do livro de Manuel Augusto Dias “Ermesinde” e a I República”, evento em que o nosso jornal esteve envolvido. Lição de História preciosa e muito contida com cada palavra a valer ouro na boca do autor, desvendando a realidade desses tempos, e ajudando a esclarecer muitas das circunstâncias da chamada “questão religiosa”.

    Foto MANUEL VALDREZ
    Foto MANUEL VALDREZ
    No último dia, para o qual foi transferido o Encontro com os Autores de Ermesinde, destacamos brevemente Carla Marques “In-Finitos Sentires”, muito contida, e Manuel Rodrigues, um autor popular, em que a questão de classe está muito presente; também Eugénia Martins, que tentou fundamentar uma perspetiva para a literatura infanto-juvenil; depois a imaginação desvairada desse “monstro” da cultura pop que é Tino de Rans, que ali foi apresentar o jornal que é o seu livro “Há Pressa...”, «um jornal que sai de 10 em 10 anos», e que foi também motivo de apresentação do guião do seu futuro filme, já com produtor assegurado, “Santo António à Deriva” – uma autêntica performance de comunicação com ingredientes como o Titanic, a crise bolsista de 1929, pescadores do bacalhau, uma praia da Foz, etc., e o seu amor próprio que não se descarta da profissão de calceteiro e dos colegas de trabalho – todo um truculento argumento desvairado (num estilo BD) de que ficamos à espera...

    … e naturalmente, o evento final desta feira, também da responsabilidade de “A Voz de Ermesinde”, a apresentação do livro “Grandeza de Marx”, de Sousa Dias, em que o autor dessacralizou Marx e o resgatou à estatuária marxista, apresentando-o vivo e atual, plenamente capaz de interrogar a sociedade em que vivemos hoje e nos dar ferramentas com que melhor a entendamos. Mas também sem fatalismos históricos. Mas, pelo contrário, com a urgência e a pertinência do impossível, quem sabe?, tornado acontecer.

    Por: LC

     

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