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Edição de 20-07-2022
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    Arquivo: Edição de 30-03-2012

    SECÇÃO: Crónicas


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    Uma história para a Ritinha

    Numa noite em que o país parava para um jogo que representava um duelo de titãs eu conheci a Ritinha, uma menina de oito anos, que com olhos grandes e de uma cor azul clara me dizia a uma dada altura: «Sabe, eu sou diabética!».

    Com um pai atento à conversa e que media as suas palavras para ver se ela sabia bem a lição – como se descobre a diabetes, ela explicava-me os sintomas: cansaço, muito dorminhoca. Numa noite sequiosa bebeu cinco litros de água.

    Falava-me da sua atitude, aquela de que se orgulha quando lhe fazem colheitas para análise do tipo em que tem que ser picada, dizendo-me o que pensava quando vinham as agulhas e aí ela, de cabeça muito erguida, esticava-me o braço exemplificando e declamando os pensamentos a que se agarrava para que não doesse: que venham, querem picar? Piquem à vontade que eu aguento! E todos lhe admiravam a coragem.

    Olhei para aquele rosto de menina e pensava: quem sou eu para me queixar da vida, lamentando-me quando tudo é posto ao meu serviço para que aproveite e lute – saúde e oportunidade?

    Foto ARQUIVO GL
    Foto ARQUIVO GL
    A caminho de casa e quando passava por cafés onde tinha gente a assistir a um jogo de “importância nacional” eu, que pensava e queria muito que o meu clube ganhasse, desvalorizei o resultado que daí pudesse advir porque para mim, importante mesmo era o resultado do jogo que a Ritinha tem que travar pela sua vida fora e em que é imperativo que seja ela a vencedora.

    Na despedida que fiz a esta menina e à sua família, em que está incluído o seu irmãozito mais novo, disse-lhe que um dia lhe escreveria uma história, aquelas que consigo contar através dos textos que me vão fluindo e aqui estou eu a fazê-lo.

    Ritinha, esta não é uma história de fadas ou duendes, de castelos ou de dragões nem sequer a história de muita gente que conheço e que, tal como tu, precisam de muita coragem para enfrentar desafios que a vida lhes colocou no caminho e que têm graus de dificuldade maiores ou menores, dependendo do jogo que vão ter que fazer com a vida porque, sendo a vida um jogo de sorte e azar, nós também falávamos as duas de um ditado popular que diz: “A roda tanto anda como desanda!” e tu compreendeste-o quando fizemos um desenho que exemplificava isso.

    Para ti, menina de sorriso lindo, escolhi-te a história da coragem dos meninos e meninas grandes, dos que ficam, a qualquer custo, a qualquer preço, porque esse ato lhes vai trazer uma fatura que eles nunca vão conseguir pagar – a abnegação de um tempo que eles nunca irão viver, de experiências que nunca vão vivenciar, de novos mundos que nunca irão conhecer, de sentimentos que nunca irão partilhar, porque a sua decisão foi... ficar!

    É efetivamente tentador partir atrás de um sonho, de um devaneio ou de uma simples promessa. Pensa-se que ao fazê-lo, ao deixarem-se os problemas para trás, tudo fica resolvido mas isso, na sua grande parte, não é verdade, porque continuam lá, à espera de um diálogo, à espera de uma reconquista, à espera de uma nova oportunidade. e aqui eu penso que tudo começa pelas pessoas terem a coragem de se sentarem à mesma mesa e perguntarem-se a si mesmas e uns aos outros – o que precisamos para ser felizes? E se calhar surpreendemo-nos ao concluirmos que não é “de tanto” mas sim de “tão pouco”, e que está ao alcance da nossa mão conseguir.

    A doença mexe com metabolismo, com o comportamento do corpo, com coisas que o Homem pode prevenir, medicar, mas em alguns casos impotente para impedir ou controlar. Assim são também os afetos que mexem com sentimentos e emoções e também aqui a solução é prevenir, medicar, porque só em caso de força extrema deverá ser considerado incontrolável ou de desfecho nefasto ou devastador.

    Menina de riso suave, quando ouves dizer: “A união faz a força!” isso é mais do que verdade e é nos tais momentos em que a roda desanda que isso faz todo o sentido, ainda mais quando as pessoas sabem que o melhor, o mais sensato, é ficar, apoiar e procurar juntos uma solução para um mundo em que só temos é que nos reinventar.

    O “compromisso” de ficar está muito para lá de um contrato celebrado por escrito e que terá sido testemunhado por muita ou pouca gente que no momento, naquele momento em que as pessoas precisam de unir-se para superar a dificuldade, não estão lá porque seguem as suas próprias vidas e enfrentam os seus próprios problemas.

    Assim, e ao abrigo de um sentimento a que chamam amor, com a roupagem que cada um lhe dá e que será em nome de uma união, de filhos, de pais, ou de quem quer que seja, e para além de todos os que padecem de sofrimentos físicos ou morais, os meus heróis, Ritinha, começam a ser, os que riem quando têm uma tremenda vontade de chorar e acima de tudo, os que ficam, quando por vezes têm uma tremenda vontade de voar!

    Por: Glória Leitão

     

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