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Edição de 20-07-2022
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    Arquivo: Edição de 30-03-2012

    SECÇÃO: Desporto


    ENTREVISTA COM O CENTRO DE ATLETISMO DE ERMESINDE

    Apesar de fragilizado o Centro de Atletismo de Ermesinde recusa-se a atirar a toalha ao chão

    Com 30 anos de existência completados recentemente, o Centro de Atletismo de Ermesinde (CAE) é, nos dias de hoje, uma sombra do dinâmico e popular emblema que foi num passado não muito distante. Os infortúnios da vida fizeram esta coletividade perder o fulgor e protagonismo de outros tempos, cenários longínquos que hoje não são mais do que meras e saudosas recordações que ajudaram a escrever a história de uma das mais tituladas instituições desportivas ermesindenses. Apesar de ferido o clube está vivo, muito graças à dedicação de um grupo de homens cujo amor pelo desporto e sobretudo por este emblema impede que a porta se feche para sempre. Repetem vezes sem conta que enquanto ali estiverem o CAE jamais irá morrer, ao mesmo tempo que alimentam a esperança de que melhores dias virão. “A Voz de Ermesinde” esteve à conversa com eles neste mês de março.

    Fotos MANUEL VALDREZ
    Fotos MANUEL VALDREZ
    Os olhos arregalam-se quando entramos na sede do CAE, situada no Complexo Desportivo dos Montes da Costa, a zona que em janeiro de 1982 serviu de berço a esta coletividade local. Cerca de três centenas de troféus reluzem nas vitrinas que decoram as paredes da sala onde estivemos à conversa com quatro dos sete elementos que compõem a Comissão Administrativa (CA) que por esta altura vai tomando as rédeas do clube. António Barbosa, José Rocha, Joaquim Fernandes e Adão Silva recebem-nos com entusiasmo, como que aproveitando a nossa presença para recordar os gloriosos anos de vida do seu clube, mas também para desabafar as tristezas que os incomodam no presente. Adão Silva é uma cara conhecida, ele foi um dos principais dinamizadores do atletismo na nossa freguesia há algumas décadas atrás, formando campeões numa modalidade onde também ele foi um campeão. Esta paixão levou-o precisamente a ser um dos fundadores do CAE no referido ano de 1982. Talvez por isso ninguém tão bem como ele conhecerá o contraste agora existente entre o passado e o presente. Recorda que 2002 foi o ano em que CAE começou a afundar-se, muito devido à atuação do então presidente da Direção, Arnaldo Azevedo, o qual com “manobras perigosas”, levou ao despiste da coletividade. «Houve um desentendimento com o presidente da Direção em consequência de um desfalque que tentou fazer. Eu, na qualidade de tesoureiro, apercebi-me dessa ação pelo que, depois de reunida a restante equipa diretiva, foi decidido que o presidente não poderia continuar», recorda com alguma tristeza Adão Silva.

    A esta lamentável lembrança acrescenta ainda que, posteriormente, foi convocada uma Assembleia Geral com a intenção de encontrar pessoas para formar uma nova Direção. Tentativa gorada, pois ninguém se mostrou disponível para liderar uma equipa diretiva.

    A situação agravou-se e não houve outro remédio senão nomear uma CA para conduzir os destinos do CAE. Os sócios desapareceram, e dos cerca de 130 que o clube tinha, hoje em dia não resta nenhum!

    Adão Silva é líder dessa comissão, sendo acompanhado nesta missão por meia dúzia de inconformados e dedicados atletas do clube. Unidos vão mantendo vivo um nome que, apesar de tudo, ainda é muito respeitado e admirado um pouco por todo o lado do nosso país. As cores do CAE continuam a ser vistas em diversas corridas que se vão realizando anualmente na nação lusitana... e não só. António Barbosa, por exemplo, esteve recentemente na Maratona de Berlim. Participações nacionais e internacionais que só vão sendo possíveis graças à carolice dos atuais membros do clube. Carolice, amor à modalidade e ao CAE, como fazem questão de sublinhar. «O pouco dinheiro que o clube tem, o qual foi amealhado do tempo em que tínhamos associados, é apenas utilizado no pagamento das inscrições das provas em que os quatro ou cinco atletas que correm pelo CAE participam ao longo do ano. Só. Tudo o resto, deslocações, equipamentos, etc., é pago do nosso bolso», deixa claro António Barbosa. Quanto a ajudas da câmara ou da junta vão dizendo que estas ajudam sempre que podem, mas não com dinheiro, pois vivem-se tempos de crise para todos.

    Participação em diversas corridas – sobretudo realizadas no norte e no centro do País – que servem segundo Barbosa para manter vivo o CAE. Uma mão cheia de atletas para quem o atletismo é um eterno amor. Com idades a rondar os 50 anos, os homens que ainda estão no “ativo” gostavam de ver a juventude reaproximar-se do clube. António Barbosa conta aliás que recentemente foi questionado pelos pais de duas jovens potenciais atletas para a possibilidade de estas virem a integrar o CAE. «Eu gostava imenso de ter uma equipa feminina, por exemplo, mas neste momento é impossível. No meu caso o trabalho ocupa bastante do meu tempo. Saio do emprego perto das 8h00, dali até às 9h00 vou treinar e só depois é que vou para casa jantar. Não tenho tempo para dar acompanhamento a essas miúdas, posso dar-lhes uns conselhos mas não acompanhá-las como era preciso, pois não podemos esquecer que o acompanhamento é muito importante nestas idades de formação. Além disso não temos meios de transporte para levá-las às provas ao fim de semana. Assim sendo é muito complicado abraçarmos esse projeto».

    Recordam que não há muito tempo esperavam a ajuda de dois “amigos” do clube que se disponibilizaram para tomar conta dos miúdos, numa tentativa de dar vida ao setor da formação, mas... tudo acabou por ir por água abaixo já que esses ditos “amigos” nunca mais apareceram! «Temos de ser realistas, não temos recursos humanos para pôr esse projeto de pé», sublinha Adão Silva pouco antes de recordar um passado não muito longínquo onde o CAE chegou a ter na sua formação três dezenas de atletas. «E alguns bem promissores», faz questão de frisar Joaquim Fernandes, enquanto vai admirando as cerca de três centenas de troféus em volta da mesa onde conversávamos e dizendo orgulhosamente que «existem muitos clubes em Ermesinde que não têm o (rico) historial do CAE».

    São então recordados alguns dos conquistadores de todo aquele invejável património desportivo, saltando de imediato para cima da mesa o nome de Albertina Leitão, uma das atletas que mais alegrias deu ao CAE. «Ainda um dia destes estive a ver fotografias dessa altura. Havia muita vida no clube. Tivemos aqui atletas muitos bons, em vários escalões, e alguns deles ainda correm noutros clubes. Há uma dúzia de anos éramos a melhor equipa popular do Norte!», recorda Adão Silva, o elemento mais velho desta CA, o único que já não calça as sapatilhas pois a saúde, a idade e a vida pessoal já não lho permitem, mas nada que o impeça de repetir por diversas ocasiões ao longo desta conversa que está apto a ajudar, dentro da sua disponibilidade pessoal, quem estiver à frente do clube, pois enquanto ali estiver o CAE não irá morrer.

    PROGENITORES

    DA DESAPARECIDA

    S. SILVESTE

    DE ERMESINDE

    foto
    E no seguimento do rol das recordações dos anos dourados do clube não pudemos deixar de perguntar pela popular corrida S. Silvestre de Ermesinde, que anos a fio animou as ruas da cidade em cada final – ou princípio – de ano. Uma prova que foi construída pelo CAE, a qual atraiu ao longo das suas 27 edições centenas de atletas de renome no atletismo nacional mas que, de uma forma inesperada, terminou em 2009! E assim o foi porque a vida dos progenitores do certame não permitia que este continuasse a vigorar no calendário desportivo local. «O fim da S. Silvestre partiu de uma decisão nossa. Comunicámos à Câmara de Valongo – parceira de longos anos na edificação da popular corrida – que não tínhamos condições para continuar a colaborar na organização da prova», explica Adão Silva. E quanto a um eventual regresso da corrida às ruas da freguesia o presidente da CA é pronto a dizer que «se houvesse um grupo responsável que se integrasse na CA ou constituísse uma Direção, talvez a S.Silvestre pudesse voltar, aliás eu já disse que estaria disposto a acompanhar, a ajudar, mas sozinho não consigo, nem tenho vida!».

    Mas enquanto os velhos tempos – e as grandes competições – não regressam, o clube vai levando a “água ao seu moinho” como pode, com os poucos elementos que vão mantendo as portas abertas, os quais não se cansam de repetir que enquanto ali estiverem o CAE não morre, já que além do infindável amor ao clube têm igualmente uma paixão desmedida pelo atletismo. Parando breves segundos para fazer contas de cabeça recordam que já andam nas corridas há cerca de três décadas – Adão Silva há bem mais, como nos faz questão de sublinhar em nota de rodapé –, classificando o atlestimo como «um vício saudável! Os resultados não são importantes, o mais importante é participar, correr por amor ao CAE e ao desporto. Nós conhecemo-nos uns aos outros no atletismo, uma modalidade que tem a vertende da amizade salutar, não há vitórias nem derrotas, há simplesmente amizade entre todos», diz José Rocha.

    E pegando nesta deixa lamentam que mais jovens não adiram à modalidade, mostrando alguma preocupação pelo facto de o pelotão nacional ser composto maioritariamente por atletas veteranos. José Rocha prevê mesmo que «quando estes veteranos abandonaram a competição a modalidade fica em risco. Faltam valores a nível nacional, escasseiam atletas de dimensão. Atribuo isso não só à atual conjuntura económica como também ao facto de não haver incentivos à prática do desporto. A falta de infraestruturas também é uma das causas por este declínio, pois a formação necessita desse tipo de equipamentos». De imediato António Barbosa questiona: «Formação? Com que condições?», antes de referir que no nosso concelho não existem grandes infraestruturas capazes de atrair os jovens para a prática do atletismo, sendo que o pouco que existe – dando o exemplo do Circuito de Manutenção dos Montes da Costa – está sujo e vai dando sinais de clara degradação.

    A terminar a pequena conversa mantida com o nosso jornal não se poupam a repetições: «Este clube enquanto estas pessoas aqui estiveram não vai terminar. Melhores dias virão», rematam de forma convicta.

    Por: Miguel Barros

     

     

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